Notas, Risos e Surpresas
Durante aquela semana, a fazenda parecia pulsar com uma energia diferente. Não era apenas o trabalho de sempre, nem só a rotina puxada do campo. Havia um segredo pairando no ar — e Dona Margarete era a principal responsável por ele.
Desde cedo, ela se dedicava aos preparativos do aniversário de Adrian. Anotava ideias, fazia listas, pensava em quem convidar, no cardápio, na música, no lugar exato da comemoração. Mas, acima de tudo, ela fazia questão de ter Lúcia por perto.
— Esse vai ser especial — dizia, sorrindo. — O primeiro aniversário dele com você.
Lúcia ajudava no que podia. Organizava, opinava, resolvia pequenos detalhes. Fazia tudo com carinho, mas também com uma pontinha de nervosismo. Ainda estava se acostumando à ideia de fazer parte da família, de ser incluída daquela forma tão natural.
Naquela tarde, porém, Dona Margarete precisou sair para resolver algo na cidade, e Lúcia ficou na varanda com Sandrinha, que tinha ido ajudar na organização.
O sol já estava mais baixo, dourando o campo, e as duas se sentaram lado a lado, observando o movimento da fazenda.
— Lúcia — começou Sandrinha, com um sorriso travesso — você já pensou no presente do Adrian?
Lúcia respirou fundo.
— Pensei… mas não sei o que dar.
— Isso é sério? — Sandrinha riu. — Logo você?
— É sério sim — respondeu Lúcia. — Eu quero dar algo que ele lembre. Algo especial.
Sandrinha cruzou os braços e inclinou a cabeça, avaliando.
— Você não devia falar isso pra mim, sabia?
— Por quê? — Lúcia perguntou, confusa.
— Porque eu sei de mais coisas do que devia — respondeu Sandrinha, rindo. — E minha cabeça vai longe.
— Para com isso — Lúcia ficou vermelha na hora. — É sério.
— Eu sei — disse Sandrinha. — Mas confessa… ele ia gostar.
— Sandrinha! — Lúcia levou a mão ao rosto. — Para!
As duas riram, mas Sandrinha logo ficou mais séria.
— Tá bom, vamos pensar direito — disse. — Algo que tenha a ver com você. Com o que vocês têm.
Lúcia ficou em silêncio, pensativa.
— Você toca violão… — Sandrinha comentou. — Já pensou nisso?
— Pensei — respondeu Lúcia. — Mas não sei o quê.
Sandrinha estalou os dedos.
— Já sei! — disse animada. — Você sabe quais músicas ele gosta?
Lúcia arregalou os olhos.
— Não.
— Então pergunta — respondeu Sandrinha, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — As cinco favoritas dele.
— Assim? Do nada?
— Assim mesmo — riu Sandrinha. — Vai ser fofo.
Lúcia hesitou por alguns segundos, mas acabou pegando o celular. O coração acelerou enquanto discava. A ligação m*l chamou.
— Oi… — a voz de Adrian surgiu quase imediatamente. — Que bom ouvir sua voz no meio do meu dia.
Lúcia sentiu o rosto esquentar.
— Eu… posso te fazer uma pergunta?
— Quantas você quiser, princesa — respondeu ele, brincando.
Lúcia abaixou o olhar, tímida. Sandrinha observava tudo, sorrindo, mas em silêncio.
— Quais são suas músicas favoritas? — perguntou Lúcia, tentando parecer casual.
Do outro lado da linha, Adrian ficou em silêncio por alguns segundos.
— Nossa… difícil — disse ele. — Eu gosto de várias.
— Pode escolher cinco — ela respondeu.
— Tá… vamos lá — ele riu. — Tem uma do Bon Jovi… It’s My Life.
Sandrinha começou a anotar imediatamente.
— Também gosto de Sebastián Yatra… Chica Ideal.
Lúcia sorriu, surpresa.
— Da Anitta… Joga pra Lua.
Sandrinha levantou a sobrancelha, divertida.
— Xamã… Malvadão 3.
Lúcia quase riu.
— E… deixa eu ver… Dilsinho. Péssimo Negócio.
Lúcia olhou para Sandrinha, que anotava tudo rindo, quase dançando sentada.
— Anotado — disse Lúcia. — Obrigada.
— Por nada — respondeu Adrian. — Mas agora fiquei curioso.
— Curioso com o quê?
— Por que você quis saber — disse ele, com a voz carregada de carinho.
— Curiosidade minha — respondeu ela, tentando despistar.
— Sei… — ele riu. — Gosto quando você fica misteriosa.
— Depois a gente se fala — disse Lúcia. — Bom trabalho.
— Bom descanso pra você — respondeu ele. — E… obrigado por me ligar.
Quando a ligação terminou, Lúcia soltou o ar devagar.
— Você viu isso? — disse Sandrinha, empolgada. — Ele atendeu na hora!
— Ele sempre atende — respondeu Lúcia, sorrindo.
— Essas músicas… — Sandrinha balançou a cabeça. — São tudo!
— São bem diferentes — Lúcia comentou. — Eu achava que ele só gostava de coisa mais… clássica.
— Pois é — Sandrinha riu. — Surpreendeu.
As duas ficaram sentadas na varanda por alguns instantes, e então Sandrinha falou, com convicção:
— Lúcia… você cantando essas músicas, voz e violão… vai ser inesquecível.
Lúcia arregalou os olhos.
— Você acha?
— Acho não. Tenho certeza — respondeu Sandrinha. — Mas vai ter que ensaiar bastante.
— Muito — concordou Lúcia. — Algumas dessas não são nada fáceis pra minha voz.
— Mas você consegue — disse Sandrinha. — Você sempre consegue quando se dedica.
Lúcia sorriu, olhando para o campo.
— Eu quero que ele sinta que isso é pra ele — disse baixinho.
— Ele vai sentir — respondeu Sandrinha. — E outra coisa…
— O quê?
— No dia da festa, eu vou te arrumar — afirmou. — Quero ver esse seu namorado perder a linha.
— Sandrinha! — Lúcia riu, envergonhada.
— É verdade — insistiu ela. — Você é linda. Só não percebe.
Lúcia ficou em silêncio por um momento, sentindo o peso bom daquilo tudo. O carinho, a expectativa, o desejo simples de fazer alguém feliz.
— Nunca pensei que me importaria tanto com um aniversário — disse.
— Porque agora você ama — respondeu Sandrinha, com naturalidade.
Lúcia respirou fundo. Não negou.
Enquanto o sol se punha e a noite começava a cair, ela já pensava nos ensaios, nos acordes, nas letras. Pensava no sorriso de Adrian quando percebesse que cada nota tinha sido escolhida com cuidado.
E, pela primeira vez, sentiu que aquele presente não era só para ele.
Era também a forma mais bonita que ela tinha encontrado de dizer, sem precisar de palavras, o quanto ele era importante em sua vida.