Ordem no Galpão
O barulho chegou antes da cena.
Ramires estava em um dos galpões, conferindo umas anotações de entrega, quando ouviu o alvoroço. Vozes alteradas, passos corridos, um grito atravessando o ar pesado da fazenda. O tipo de som que não combinava com trabalho, nem com rotina.
Ele fechou a prancheta devagar, respirou fundo e murmurou para si mesmo:
— Não é possível…
Saiu do galpão com passos firmes, o chapéu bem colocado na cabeça, o olhar atento. À medida que se aproximava, o cenário foi se desenhando de forma perigosa demais para ignorar.
Lucas, um dos funcionários mais novos, estava com uma faca na mão. O braço tremia, o rosto pálido, os olhos arregalados. Do outro lado, Juarez, mais velho, carregado de raiva, segurava uma arma apontada sem muita precisão, mas com intenção suficiente para gelar o sangue de quem assistia.
Alguns peões estavam afastados, formando um círculo tenso, ninguém ousava se meter. Todos sabiam que aquilo podia acabar muito m*l.
— Eu vou matar você! — Juarez gritava, fora de si. — Você acabou com a minha vida!
Lucas tentava falar, mas a voz não saía direito.
— Eu… eu gosto dela… ela quis… — dizia, sem convicção, como se soubesse que nenhuma explicação apagaria o estrago.
Ramires entrou no meio do círculo sem levantar a voz, mas a presença dele foi suficiente para silenciar parte do tumulto.
— Chega.
A palavra saiu firme, seca, cortando o ar.
Juarez virou o rosto na direção de Ramires, os olhos vermelhos, a respiração pesada.
— Não se mete, Ramires! Isso é coisa minha!
Ramires deu mais dois passos à frente, ficando exatamente entre os dois homens. Olhou primeiro para a arma, depois para a faca, e só então encarou Juarez.
— Aqui dentro da fazenda, nada é resolvido assim — disse, com voz baixa, porém dura. — Abaixa essa arma.
— Ele foi pra cama com a minha mulher! — Juarez berrou. — Você faria diferente?
Ramires sustentou o olhar.
— Eu faria certo.
Depois virou-se para Lucas.
— E você — disse — guarda essa faca agora.
Os dois homens hesitaram. O silêncio ficou pesado. Quem estava em volta prendeu a respiração.
Todos ali conheciam Ramires. Sabiam que ele não gritava, não ameaçava em vão. Sabiam também que, quando precisava, ele agia. Já tinha colocado muito peão para correr, alguns depois de uma conversa dura, outros depois de uma boa correção. Não por gosto, mas por necessidade.
Juarez foi o primeiro a ceder. A mão que segurava a arma baixou devagar. Lucas fez o mesmo com a faca.
— Me entreguem — Ramires estendeu a mão.
Um por um, eles colocaram a arma e a faca na mão de Ramires. Ele segurou os dois objetos com firmeza, sem olhar para eles novamente.
— Agora, os dois — disse — me sigam.
Sem discussão, os dois obedeceram.
Ramires caminhou em direção ao escritório do pai, que ficava em um dos galpões maiores. Os passos ecoavam no chão de terra batida. Os peões se afastavam para abrir caminho, observando tudo em silêncio.
Alguns cochichavam, outros apenas olhavam com respeito e um certo temor. Quando viram Ramires entrar no galpão com a arma e a faca na mão, entenderam que a coisa era séria.
Seu Raul estava sentado à mesa, analisando papéis, quando levantou os olhos e viu o filho entrar.
— O que foi agora? — perguntou, antes mesmo de Ramires falar.
Ramires colocou a arma e a faca sobre a mesa, uma de cada lado, com cuidado, mas de forma bem visível.
— Briga feia lá fora — disse. — Isso aqui quase virou tragédia.
Seu Raul se levantou devagar, ajeitou os óculos e olhou para os objetos sobre a mesa. Depois encarou Juarez e Lucas.
— Expliquem — pediu.
Ramires tomou a palavra.
— Juarez pegou Lucas com a mulher dele. Veio tirar satisfação armado. Lucas apareceu com faca. O resto o senhor já imagina.
Seu Raul respirou fundo, passou a mão pelo rosto, cansado.
— Vocês perderam o juízo? — perguntou, olhando primeiro para Juarez. — Querem acabar com a própria vida e com a dos outros?
Juarez apertou os punhos.
— Seu Raul, eu perdi tudo… minha casa, minha honra…
— Honra não se resolve com sangue — interrompeu Ramires, firme. — E aqui ninguém vai morrer por causa de erro de ninguém.
Lucas finalmente falou, a voz baixa.
— Eu não queria que chegasse nesse ponto…
Ramires virou-se para ele com um olhar duro.
— Mas chegou. Porque faltou respeito. E aqui, respeito é regra.
Seu Raul caminhou até a janela, observou os peões do lado de fora, depois voltou-se para os três.
— Juarez — disse — você vai se afastar do serviço por uns dias. Vai pra casa de um parente, esfriar a cabeça. Não quero você armado perto de ninguém.
— E ele? — Juarez apontou para Lucas.
— Lucas — continuou Raul — você também vai sair da fazenda. Não quero você aqui enquanto essa história não estiver resolvida.
Lucas abriu a boca para protestar, mas Ramires se adiantou.
— É o melhor pra você — disse. — Hoje você saiu daqui andando. Não testa a sorte.
Lucas abaixou a cabeça.
— Sim, senhor.
Seu Raul assentiu.
— Depois a gente resolve o que dá pra resolver com conversa e justiça, não com faca nem arma.
Ramires recolheu os objetos da mesa.
— Essas armas ficam comigo — disse. — Depois vejo o destino certo delas.
Juarez respirou fundo, ainda com raiva, mas derrotado.
— Pode ir — disse Raul. — Antes que a coisa piore.
Os dois homens saíram do escritório em silêncio. Do lado de fora, os peões abriram passagem. Alguns balançaram a cabeça, outros suspiraram aliviados.
Ramires ficou parado por um instante, observando a poeira baixar.
Seu Raul se aproximou do filho.
— Você chegou a tempo — disse. — Se demora mais um pouco…
— Eu sei — respondeu Ramires. — Aqui não é lugar de perder gente por impulso.
Raul colocou a mão no ombro dele.
— É por isso que confio em você.
Ramires assentiu, mas o peso da responsabilidade ainda estava ali. Ele saiu do galpão e caminhou pelo pátio, sentindo os olhares sobre si. Para os peões, ele era Ramires: firme, justo, o homem que mantinha a ordem.
Por dentro, porém, o coração ainda batia forte. Ele sabia que nem sempre dava para consertar tudo. Sabia que sentimentos m*l resolvidos podiam virar faca, bala, desgraça.
Olhou para o horizonte, onde o sol já começava a descer.
Naquela fazenda grande, cheia de histórias, amores, erros e silêncios, Ramires entendia melhor do que ninguém: manter a paz dava trabalho. Exigia pulso firme, cabeça fria e coragem para entrar no meio do fogo quando ninguém mais queria.
E enquanto fosse preciso, ele faria exatamente isso.