A Solução Inesperada
O escritório naquela manhã estava diferente. Não pelo silêncio — esse já fazia parte da rotina —, mas pela tensão que pairava no ar. Hugo andava de um lado para o outro com o celular na mão, parando às vezes perto da janela, às vezes diante da mesa, como se a resposta para o problema pudesse surgir do nada.
O problema tinha nome, sobrenome e um potencial gigantesco.
Um investidor estrangeiro, interessado em expandir negócios no Brasil, especificamente na região de Minas e no interior, onde Adrian tinha forte atuação. O contrato poderia mudar o patamar do escritório. Mas havia um obstáculo quase intransponível: o cliente só falava japonês. Nada de português, nada de espanhol. Inglês, apenas o básico — insuficiente para negociações jurídicas.
E, para piorar, os representantes dele exigiam alguém que transitasse com naturalidade entre japonês, português, inglês e espanhol.
— Parece piada — murmurou Hugo, passando a mão pelo rosto. — Quatro idiomas… onde eu vou achar alguém assim?
Ele já tinha ligado para universidades, consulados, tradutores juramentados. Uns falavam japonês e inglês, outros espanhol e português. Nenhum reunia tudo. E o cliente não aceitava intérpretes diferentes para cada idioma; queria alguém que entendesse o contexto completo da conversa.
Depois de mais uma ligação frustrada, Hugo respirou fundo e discou o número de Adrian.
— Adrian, preciso de você — disse assim que a chamada foi atendida.
— Bom dia pra você também, Hugo — respondeu Adrian do outro lado, com voz calma. — O que aconteceu?
— Temos um problemão… e uma oportunidade enorme ao mesmo tempo. Um cliente com potencial altíssimo, mas ele só fala japonês. Precisamos de alguém que fale japonês, português, inglês e espanhol. E eu já rodei Belo Horizonte inteira atrás disso.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha. Hugo ouviu um pequeno riso contido.
— Eu tenho a solução — disse Adrian, simplesmente.
Hugo parou de andar.
— Não brinca comigo, Adrian. Se você estiver brincando, eu juro que…
— Não estou brincando — interrompeu Adrian, ainda rindo. — Hoje à tarde eu levo ao escritório a pessoa que vai resolver isso.
Hugo arregalou os olhos, mesmo sabendo que Adrian não podia vê-lo.
— Você está falando sério?
— Muito.
— Adrian, eu vou ser eternamente grato a essa pessoa — disse Hugo, aliviado e desconfiado ao mesmo tempo. — Quem é? Algum contato seu do exterior?
— Não — respondeu Adrian, com um tom divertido. — É alguém muito mais próximo do que você imagina.
— Você está me deixando nervoso.
— Aguenta até à tarde — finalizou Adrian. — Confia em mim.
A ligação terminou, mas Hugo ficou parado, olhando para o celular, tentando adivinhar. Conhecia Adrian há anos. Sabia que ele não prometia o que não podia cumprir.
Ainda assim, aquilo parecia impossível.
Do outro lado da cidade, na cobertura, Lúcia estava sentada à mesa com o notebook aberto. Samuel dormia no quarto, sob a vigilância atenta da babá eletrônica. Na tela, caracteres j*******s se alinhavam com naturalidade enquanto ela fazia anotações.
Adrian entrou no ambiente devagar, observando-a. Ainda se impressionava com aquela imagem: Lúcia concentrada, alternando entre idiomas com uma facilidade quase absurda.
— Princesa — chamou ele, encostando no balcão.
Ela levantou o olhar e sorriu.
— Já voltou do escritório?
— Ainda não. Mas precisei passar aqui antes.
O tom dele a fez fechar o notebook.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu uma oportunidade — respondeu ele, aproximando-se mais. — E eu preciso saber se você topa.
Ela franziu levemente a testa.
— Que tipo de oportunidade?
Adrian respirou fundo, escolhendo as palavras.
— O escritório tem um potencial cliente estrangeiro. Um investidor japonês. Ele só fala japonês, quase nada de inglês, nada de português ou espanhol. E… — ele fez uma pausa — ele exige alguém que fale os quatro idiomas.
Lúcia piscou, surpresa.
— Os quatro?
— Japonês, português, inglês e espanhol — confirmou Adrian. — Hugo está quase arrancando os cabelos.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando.
— E… o que isso tem a ver comigo? — perguntou, embora algo dentro dela já soubesse a resposta.
Adrian sorriu, aquele sorriso orgulhoso que ele raramente deixava escapar.
— Tudo.
Lúcia arregalou os olhos.
— Adrian…
— Princesa, você fala os quatro idiomas — disse ele, com naturalidade. — E fala bem. Muito bem.
Ela desviou o olhar por um instante.
— Eu estudei… sempre gostei. Mas nunca trabalhei formalmente com isso.
— Não importa — respondeu ele, firme. — Você entende contexto, cultura, nuances. Isso nenhum tradutor técnico faz como você.
Ela ficou quieta, o coração acelerado.
— E mais — continuou Adrian — isso pode ser seu primeiro passo profissional aqui na cidade. Um emprego de verdade, Lúcia. No escritório. Se você quiser.
Ela passou a mão devagar pelo braço, nervosa.
— Hugo sabe disso?
— Ele conhece você — respondeu Adrian. — Mas não sabe que você fala todas essas línguas. Nem imagina.
— E… você já prometeu que ia me levar? — perguntou ela, um pouco assustada.
— Prometi — confessou ele, sorrindo de canto. — Disse que a solução chegaria hoje à tarde.
— Adrian! — ela exclamou, meio rindo, meio nervosa.
— Eu confio em você — disse ele, sério agora. — Confio mais do que em qualquer currículo que pudesse aparecer na minha mesa.
Ela respirou fundo, sentindo o peso e, ao mesmo tempo, a empolgação.
— E se eu errar?
— Então a gente aprende — respondeu ele, simples. — Mas eu sei que você não vai errar.
Lúcia olhou para o corredor, na direção do quarto onde Samuel dormia.
— E o Samuel?
— Ele fica comigo — disse Adrian, sem hesitar. — Ou com alguém de confiança. Você não vai deixar de viver por causa disso.
Ela sentiu os olhos marejarem.
— Eu nunca imaginei trabalhar em um escritório assim… — confessou.
— Eu também nunca imaginei que a mulher da minha vida falaria quatro idiomas — respondeu ele, com um sorriso orgulhoso.
Ela riu, nervosa.
— Então… você quer que eu vá hoje?
— Hoje à tarde — confirmou. — Sem pressão. Você só conversa, conhece o cliente. O resto a gente resolve depois.
Lúcia fechou os olhos por um instante, como se estivesse criando coragem.
— Eu vou.
Adrian se aproximou e segurou o rosto dela com carinho.
— Obrigado.
— Não me agradeça ainda — disse ela, respirando fundo. — Mas… eu quero tentar.
— É tudo o que eu precisava ouvir.
Horas depois, Hugo ajeitava alguns papéis quando ouviu o elevador anunciar chegada. Levantou-se, ajeitou o paletó e caminhou até a porta da sala.
Quando ela se abriu, viu Adrian entrar primeiro. Logo atrás dele, Lúcia.
Hugo sorriu automaticamente.
— Lúcia! Que surpresa boa.
— Oi, Hugo — respondeu ela, educada, mas um pouco tímida.
— Você veio resolver meu problema — disse ele, rindo, ainda sem entender.
Adrian deu um passo à frente.
— Hugo, deixa eu te contar uma coisa que você não sabe.
— Lá vem — murmurou Hugo.
— A Lúcia fala japonês fluentemente — começou Adrian. — Além de português, inglês e espanhol.
Hugo piscou. Uma vez. Duas.
— Desculpa… o quê?
Lúcia respirou fundo.
— Eu falo, sim — disse ela, com calma. — E posso ajudar, se vocês quiserem.
Hugo ficou alguns segundos em silêncio, depois levou a mão à testa e começou a rir.
— Adrian… você escondeu um tesouro dentro de casa e não me contou?
— Eu não escondi — respondeu Adrian, divertido. — Só esperei a hora certa.
Hugo olhou para Lúcia com uma expressão de respeito imediato.
— Se você realmente faz isso tudo… você acabou de salvar o escritório.
Lúcia sorriu, sentindo o coração bater forte.
— Então — disse Adrian —, vamos apresentar você ao cliente?
Ela assentiu.
E, naquele instante, Lúcia percebeu que não estava apenas ajudando Adrian.
Estava começando a escrever a própria história.