Capítulo 87

1329 Words
A Solução Inesperada O escritório naquela manhã estava diferente. Não pelo silêncio — esse já fazia parte da rotina —, mas pela tensão que pairava no ar. Hugo andava de um lado para o outro com o celular na mão, parando às vezes perto da janela, às vezes diante da mesa, como se a resposta para o problema pudesse surgir do nada. O problema tinha nome, sobrenome e um potencial gigantesco. Um investidor estrangeiro, interessado em expandir negócios no Brasil, especificamente na região de Minas e no interior, onde Adrian tinha forte atuação. O contrato poderia mudar o patamar do escritório. Mas havia um obstáculo quase intransponível: o cliente só falava japonês. Nada de português, nada de espanhol. Inglês, apenas o básico — insuficiente para negociações jurídicas. E, para piorar, os representantes dele exigiam alguém que transitasse com naturalidade entre japonês, português, inglês e espanhol. — Parece piada — murmurou Hugo, passando a mão pelo rosto. — Quatro idiomas… onde eu vou achar alguém assim? Ele já tinha ligado para universidades, consulados, tradutores juramentados. Uns falavam japonês e inglês, outros espanhol e português. Nenhum reunia tudo. E o cliente não aceitava intérpretes diferentes para cada idioma; queria alguém que entendesse o contexto completo da conversa. Depois de mais uma ligação frustrada, Hugo respirou fundo e discou o número de Adrian. — Adrian, preciso de você — disse assim que a chamada foi atendida. — Bom dia pra você também, Hugo — respondeu Adrian do outro lado, com voz calma. — O que aconteceu? — Temos um problemão… e uma oportunidade enorme ao mesmo tempo. Um cliente com potencial altíssimo, mas ele só fala japonês. Precisamos de alguém que fale japonês, português, inglês e espanhol. E eu já rodei Belo Horizonte inteira atrás disso. Houve um breve silêncio do outro lado da linha. Hugo ouviu um pequeno riso contido. — Eu tenho a solução — disse Adrian, simplesmente. Hugo parou de andar. — Não brinca comigo, Adrian. Se você estiver brincando, eu juro que… — Não estou brincando — interrompeu Adrian, ainda rindo. — Hoje à tarde eu levo ao escritório a pessoa que vai resolver isso. Hugo arregalou os olhos, mesmo sabendo que Adrian não podia vê-lo. — Você está falando sério? — Muito. — Adrian, eu vou ser eternamente grato a essa pessoa — disse Hugo, aliviado e desconfiado ao mesmo tempo. — Quem é? Algum contato seu do exterior? — Não — respondeu Adrian, com um tom divertido. — É alguém muito mais próximo do que você imagina. — Você está me deixando nervoso. — Aguenta até à tarde — finalizou Adrian. — Confia em mim. A ligação terminou, mas Hugo ficou parado, olhando para o celular, tentando adivinhar. Conhecia Adrian há anos. Sabia que ele não prometia o que não podia cumprir. Ainda assim, aquilo parecia impossível. Do outro lado da cidade, na cobertura, Lúcia estava sentada à mesa com o notebook aberto. Samuel dormia no quarto, sob a vigilância atenta da babá eletrônica. Na tela, caracteres j*******s se alinhavam com naturalidade enquanto ela fazia anotações. Adrian entrou no ambiente devagar, observando-a. Ainda se impressionava com aquela imagem: Lúcia concentrada, alternando entre idiomas com uma facilidade quase absurda. — Princesa — chamou ele, encostando no balcão. Ela levantou o olhar e sorriu. — Já voltou do escritório? — Ainda não. Mas precisei passar aqui antes. O tom dele a fez fechar o notebook. — Aconteceu alguma coisa? — Aconteceu uma oportunidade — respondeu ele, aproximando-se mais. — E eu preciso saber se você topa. Ela franziu levemente a testa. — Que tipo de oportunidade? Adrian respirou fundo, escolhendo as palavras. — O escritório tem um potencial cliente estrangeiro. Um investidor japonês. Ele só fala japonês, quase nada de inglês, nada de português ou espanhol. E… — ele fez uma pausa — ele exige alguém que fale os quatro idiomas. Lúcia piscou, surpresa. — Os quatro? — Japonês, português, inglês e espanhol — confirmou Adrian. — Hugo está quase arrancando os cabelos. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando. — E… o que isso tem a ver comigo? — perguntou, embora algo dentro dela já soubesse a resposta. Adrian sorriu, aquele sorriso orgulhoso que ele raramente deixava escapar. — Tudo. Lúcia arregalou os olhos. — Adrian… — Princesa, você fala os quatro idiomas — disse ele, com naturalidade. — E fala bem. Muito bem. Ela desviou o olhar por um instante. — Eu estudei… sempre gostei. Mas nunca trabalhei formalmente com isso. — Não importa — respondeu ele, firme. — Você entende contexto, cultura, nuances. Isso nenhum tradutor técnico faz como você. Ela ficou quieta, o coração acelerado. — E mais — continuou Adrian — isso pode ser seu primeiro passo profissional aqui na cidade. Um emprego de verdade, Lúcia. No escritório. Se você quiser. Ela passou a mão devagar pelo braço, nervosa. — Hugo sabe disso? — Ele conhece você — respondeu Adrian. — Mas não sabe que você fala todas essas línguas. Nem imagina. — E… você já prometeu que ia me levar? — perguntou ela, um pouco assustada. — Prometi — confessou ele, sorrindo de canto. — Disse que a solução chegaria hoje à tarde. — Adrian! — ela exclamou, meio rindo, meio nervosa. — Eu confio em você — disse ele, sério agora. — Confio mais do que em qualquer currículo que pudesse aparecer na minha mesa. Ela respirou fundo, sentindo o peso e, ao mesmo tempo, a empolgação. — E se eu errar? — Então a gente aprende — respondeu ele, simples. — Mas eu sei que você não vai errar. Lúcia olhou para o corredor, na direção do quarto onde Samuel dormia. — E o Samuel? — Ele fica comigo — disse Adrian, sem hesitar. — Ou com alguém de confiança. Você não vai deixar de viver por causa disso. Ela sentiu os olhos marejarem. — Eu nunca imaginei trabalhar em um escritório assim… — confessou. — Eu também nunca imaginei que a mulher da minha vida falaria quatro idiomas — respondeu ele, com um sorriso orgulhoso. Ela riu, nervosa. — Então… você quer que eu vá hoje? — Hoje à tarde — confirmou. — Sem pressão. Você só conversa, conhece o cliente. O resto a gente resolve depois. Lúcia fechou os olhos por um instante, como se estivesse criando coragem. — Eu vou. Adrian se aproximou e segurou o rosto dela com carinho. — Obrigado. — Não me agradeça ainda — disse ela, respirando fundo. — Mas… eu quero tentar. — É tudo o que eu precisava ouvir. Horas depois, Hugo ajeitava alguns papéis quando ouviu o elevador anunciar chegada. Levantou-se, ajeitou o paletó e caminhou até a porta da sala. Quando ela se abriu, viu Adrian entrar primeiro. Logo atrás dele, Lúcia. Hugo sorriu automaticamente. — Lúcia! Que surpresa boa. — Oi, Hugo — respondeu ela, educada, mas um pouco tímida. — Você veio resolver meu problema — disse ele, rindo, ainda sem entender. Adrian deu um passo à frente. — Hugo, deixa eu te contar uma coisa que você não sabe. — Lá vem — murmurou Hugo. — A Lúcia fala japonês fluentemente — começou Adrian. — Além de português, inglês e espanhol. Hugo piscou. Uma vez. Duas. — Desculpa… o quê? Lúcia respirou fundo. — Eu falo, sim — disse ela, com calma. — E posso ajudar, se vocês quiserem. Hugo ficou alguns segundos em silêncio, depois levou a mão à testa e começou a rir. — Adrian… você escondeu um tesouro dentro de casa e não me contou? — Eu não escondi — respondeu Adrian, divertido. — Só esperei a hora certa. Hugo olhou para Lúcia com uma expressão de respeito imediato. — Se você realmente faz isso tudo… você acabou de salvar o escritório. Lúcia sorriu, sentindo o coração bater forte. — Então — disse Adrian —, vamos apresentar você ao cliente? Ela assentiu. E, naquele instante, Lúcia percebeu que não estava apenas ajudando Adrian. Estava começando a escrever a própria história.
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