Alana
O Rio de Janeiro tem uma verticalidade que agride os sentidos. Em São Paulo, eu me escondia entre prédios; aqui, no Vidigal, eu sentia que estava sempre exposta, subindo degraus que pareciam levar ao céu sob um sol que não perdoa erros.
Eu descia a ladeira distraída, os olhos fixos na tela do celular tentando decifrar um endereço, quando o mundo físico cobrou seu preço. Não houve tempo de desviar. O impacto foi seco, como se eu tivesse batido contra uma parede de concreto revestida de pele quente.
Minha bolsa escorregou pelo ombro e eu levantei o rosto, pronta para pedir desculpas, mas as palavras travaram.
Ele estava parado ali, imóvel, uma presença que parecia sugar o oxigênio ao redor. Meus olhos, condicionados a escanear ameaças, processaram o "dono do jogo" em milissegundos:
Ele é uma torre de 1,90m. A postura exala uma autoridade silenciosa, nada de fuzil ou gritaria, apenas o peso de quem sabe que é o centro gravitacional do morro.
Um contraste absurdo. O cabelo platinado estava impecável, refletindo a luz, enquanto os olhos verdes — gelados e cortantes — faziam um raio-X da minha alma.
No canto do rosto, uma tatuagem discreta: 25x. No pescoço, a tinta preta das tatuagens subia como uma armadura, dando a ele um ar de divindade perigosa.
O silêncio entre nós foi denso, quebrado apenas pelo estalo de um rádio no cinto dele e o som de uma moto subindo a rua. Ele não recuou. Ficou ali, me analisando com uma curiosidade técnica, como se eu fosse um código criptografado que ele estava prestes a quebrar.
— Tá olhando o quê? — a voz dele veio baixa, um grave arrastado que reverberou no meu peito. Não era uma pergunta amigável, era um teste de território.
Apertei a alça da minha bolsa, sentindo o suor frio nas mãos. Eu não podia vacilar.
— O caminho — respondi, curta. Minha voz saiu firme, mas o suficiente para mostrar que eu sabia onde estava pisando.
Ele sustentou o olhar por mais alguns segundos, o rosto impenetrável. Foi um duelo silencioso de quem desconfia primeiro. Por fim, ele inclinou levemente a cabeça e deu um passo lateral, abrindo um espaço mínimo para eu passar, sem nunca desviar os olhos dos meus.
Passei por ele sentindo a eletricidade estática no ar. Não olhei para trás, mas a sensação era de que eu tinha acabado de atravessar um portal perigoso. João Victor não disse quem era, e eu não perguntei, mas o aviso estava dado: eu tinha entrado no radar dele.