1-O Dono do jogo
O Dono do Jogo
O Morro do Vidigal nunca esteve tão em paz, mas não era a paz do silêncio, era a paz da ordem. No topo, onde a vista do Rio de Janeiro parecia um quadro pintado à mão, João Victor, o JV, observava o movimento.
Ele não era o típico "dono de morro" que a mídia pintava. Esqueça o clichê de homens de fuzil atravessado no peito em cada esquina. Na gestão do JV, a segurança era invisível, mas onipresente. Ele aplicava cada semestre da sua faculdade de Administração e Logística ali. A "firma" funcionava como uma multinacional: sem alarde, sem exposição desnecessária e com lucro máximo.
JV estava sem camisa, deixando o corpo esculpido — resultado de genética e disciplina — à mostra. As tatuagens começavam no pescoço e desciam como uma armadura de tinta até as coxas, escondendo-se sob a bermuda de tactel.
— Coé, Menor! — gritou ele para um garoto que corria com uma bola murcha. — Já buscou o boletim na escola? Se eu souber que tá matando aula pra ficar soltando pipa, tu vai sentar pra estudar comigo as planilha de estoque, tá me ouvindo?
O garoto riu, batendo continência. JV era o terror dos repetentes e o herói das mães do morro. Ele tinha pavor de ver criança perto do crime. Para ele, o poder não vinha do cano de uma arma, mas da organização.
Enquanto descia a ladeira, o "molho" era inegável. O jeito de andar, o sorriso de canto de boca e o sotaque carregado de cria faziam as moradoras suspirarem.
— Tá bonitão hoje, hein, JV? — provocou uma moça que estendia roupa.
— Pô, tia, hoje e sempre, né? A genética ajudou o pai — ele deu uma piscadinha, mantendo o clima leve.
Mas, assim que seu rádio apitou, o semblante mudou. O "engraçadinho" deu lugar ao estudado e frio. Um carro estranho subia a favela.
— Visão no acesso 2 — ele falou no rádio, a voz agora baixa e cortante. — Sem esculacho, sem barulho. Aborda com educação, vê o que quer. Se for turista perdido, orienta. Se for o que eu tô pensando... traz pra mim na contenção. Aqui o sistema é bruto, mas é inteligente.
Ele não gastava saliva à toa. Cada palavra era calculada. JV sabia que, para proteger aquelas mulheres e crianças, ele precisava ser o maior diplomata e, se necessário, o pior pesadelo de quem ousasse quebrar a sua ordem.