2-O Silêncio de Vidro

709 Words
A brisa do Vidigal era diferente da poluição pesada da Marginal Pinheiros. Alana respirou fundo, sentindo o ar salgado misturado ao cheiro de café vindo de uma das lajes próximas. São Paulo tinha ficado para trás, com seus códigos binários, salas climatizadas e o medo constante de que seu conhecimento em cibernética fosse usado como moeda de troca em um jogo que ela não queria jogar. Agora, o roteiro era outro. Literalmente. — Ainda não acredito que você trocou os algoritmos pelo palco, Laninha — Dayane disse, rindo enquanto subiam a ladeira com uma sacola de compras. — Não troquei, Day. Eu só... mudei o firewall. — Alana deu um sorriso de canto, observando cada detalhe ao redor. — No teatro, eu controlo a narrativa. Naquela empresa em SP, a narrativa é que estava me controlando. O Rio é mais... orgânico. — Orgânico e barulhento — brincou Dayane, parando em frente a um portão de ferro. — Mas ó, aqui no Vidigal a regra é clara: não vê, não ouve, não fala. E você, que gosta de observar até o jeito que a pessoa pisca, vai ter que aprender a ser mais "paisagem". Alana assentiu, mas seus olhos não paravam. Ela notou a postura dos homens na esquina, a forma como a comunicação fluía sem que ninguém gritasse. Era uma rede de dados humana, muito mais eficiente que qualquer fibra ótica que já tivesse instalado. De repente, um homem se aproximou. Ele não corria, caminhava com uma autoridade tranquila que fez Alana tencionar os ombros por puro instinto de sobrevivência. Ele usava um rádio no cinto e uma postura de quem conhecia cada pedra daquele morro. Era RD, o braço direito do comando. — Visão, Dayane — disse RD, com um tom de voz que não era agressivo, mas carregava o peso da responsabilidade. Ele desviou o olhar pra Alana, analisando-a da cabeça aos pés. — Visitante? — É minha irmã, RD. A Alana — Dayane respondeu rápido, mas sem demonstrar medo, apenas respeito. — Ela veio de São Paulo pra morar comigo por uns tempos, tá procurando uma casa pra ela aqui por perto. É de confiança, sangue do meu sangue. RD permaneceu em silêncio por alguns segundos, o suficiente para Alana notar que o tom de voz dele era perfeitamente controlado — sinal de alguém que sabe que não precisa gritar pra ser ouvido. — São Paulo? — RD perguntou, fixando os olhos em Alana. — Veio fazer o quê no Rio, loira? Alana sustentou o olhar. Ela já tinha lidado com CEOs implacáveis e hackers russos; sabia que a verdade parcial era a melhor defesa. — Faculdade de teatro — respondeu Alana, a voz firme. — Cansada do caos de lá. Vim em busca de um pouco de paz e pra ficar perto da minha irmã. RD deu um leve aceno com a cabeça. — Teatro, é? — ele deu um meio sorriso. — Pois aqui no Vidigal a peça é real, tá ligado? Se a Dayane tá garantindo, tá garantido. Mas juízo. Se precisar de alguma parada pra fechar aluguel, fala com a gente primeiro pra não cair em furada. O sistema aqui é organizado. — Obrigada, RD — Alana disse, usando o nome que Dayane mencionara. Ele deu as costas e seguiu o caminho dele, o rádio chiando algo ininteligível. Alana soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. — Viu só? — Dayane cutucou a irmã. — Esse é o RD. Ele resolve tudo pro "Dono". — Pro João Victor? — Alana perguntou, lembrando de um nome que ouviu no ônibus. — Xi... você já tá sabendo demais pra quem acabou de chegar — Dayane riu, puxando-a pelo braço. — Vamos entrar. Vou te mostrar umas fotos de umas casinhas aqui perto que estão pra alugar. Só não se assusta: a vista é de luxo, mas o caminho é de guerra. Alana olhou para o topo do morro uma última vez antes de entrar. Ela sabia que, por mais que quisesse ser apenas uma estudante de teatro, sua mente programada para padrões já estava começando a decifrar a logística invisível daquele lugar. O caos de São Paulo era digital; o do Rio era vivo, e ela acabou de entrar no servidor principal
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