Alana
O relógio marcava 03:42 da manhã. O som do baile ainda ecoava nas paredes das casas, mas eu já tinha tido o suficiente de Dayane me empurrando copos e de sentir o peso do camarote sobre a minha nuca. Decidi sair de fininho. O ar lá fora estava mais fresco, mas a ladeira continuava carregada.
Eu não tinha andado cem metros quando ouvi o ronco grave de uma moto. Não era uma moto qualquer; era o som de uma máquina bem cuidada. A luz do farol cortou a escuridão do beco, projetando minha sombra longa no chão.
Parei. Não por medo, mas porque o meu sistema já tinha identificado a assinatura térmica daquela abordagem.
A XJ6 parou a centímetros de mim. João Victor desligou o motor, mas não desceu. Ele ficou ali, montado na máquina, os pés firmes no chão, a postura de 1,90m ainda mais imponente sob a luz amarelada dos postes. O platinado do cabelo brilhava, e os olhos verdes estavam fixos em mim, brilhando com um misto de diversão e perigo.
— A festa nem acabou e a atração principal já tá batendo retirada? — Ele perguntou, a voz grave vibrando junto com o metal da moto.
Cruzei os braços, sentindo o efeito do gim me dar uma audácia que eu normalmente guardaria para os meus códigos. Deixei meu olhar descer pelo corpo dele, parando na tatuagem 25x antes de subir para o seu rosto.
— Gosto de sair antes do sistema travar, JV. Evita reinicializações desnecessárias — respondi, usando o vocabulário que eu sabia que ele estava tentando decifrar.
Ele deu um sorriso de lado, curto e seco. Ele desceu da moto com uma lentidão calculada, caminhando até mim até que o espaço entre nós fosse inexistente. Eu conseguia sentir o cheiro de uísque caro, tabaco e aquela fragrância de homem que sabe que manda em tudo
— Tu fala difícil, loira. Usa umas palavras que não combinam com quem só veio pra "fazer teatro" — ele murmurou, inclinando o rosto. A mão dele, marcada pela armadura de tinta preta, subiu e parou na parede, logo acima da minha cabeça, me encurralando contra o concreto frio. — Tá jogando verde pra colher maduro comigo?
— Eu não jogo verde, João Victor. Eu só observo as vulnerabilidades do servidor.
— Sustentei o olhar, meu rosto a milímetros do dele. — E o seu parece estar com o firewall bem baixo hoje.
O maxilar dele travou. O desejo ali não era mais oculto; era uma tensão física que fazia o ar estalar. O olhar dele desceu para a minha boca e depois voltou para os meus olhos, um escaneamento profundo que buscava qualquer sinal de hesitação.
— Tu é perigosa — ele disse, a voz quase um sussurro, o sotaque de cria saindo carregado de intenção. — Mas eu sou o dono da rede. E aqui, nada entra ou sai sem a minha autorização.
— Então me autoriza a passar — desafiei, mesmo que cada fibra do meu corpo quisesse que ele fizesse exatamente o oposto.
Ele não se moveu. Em vez disso, aproximou o rosto do meu pescoço, respirando fundo, como se estivesse memorizando meu código.
— Vou te deixar ir agora porque eu gosto de ver o alvo achar que tá fugindo. Mas fica esperta, Alana... eu já decifrei tua primeira linha de defesa. O resto é só questão de tempo.
Ele se afastou, subiu na moto e deu a partida. O ronco do motor pareceu uma nota de aviso. Ele partiu ladeira acima, me deixando ali, com o coração batendo na garganta e a certeza de que o próximo encontro não seria mais sobre palavras.