11: A Chave Mestra

555 Words
Alana O relógio de parede marcava quase cinco da manhã quando a batida na porta ecoou. Não era uma batida comum; era pesada, ritmada, com a autoridade de quem não pede licença, apenas avisa que chegou. Abri a porta e o ar pareceu ser sugado do corredor. João Victor ocupava todo o batente, a silhueta de 1,90m bloqueando a luz do poste lá fora. O cabelo platinado estava bagunçado pelo vento da moto e o semblante dele era de poucos amigos. — Perdeu o sono, JV? Ou errou o endereço da Dayane? — ironizei, cruzando os braços e tentando ignorar como os olhos verdes dele desciam pelo meu pijama de seda sem o menor pudor — Deixa o deboche de lado, Alana. O papo é reto e o tempo tá correndo — ele entrou, invadindo meu espaço sem convite, e jogou um tablet em cima da mesa. — Meu sistema de monitoramento do acesso 3 acabou de ir pro espaço. "Sequestro de sinal", o técnico disse. Fingi um bocejo, mantendo o poker face. — E eu com isso? Sou atriz, esqueceu? Liga pro suporte técnico. JV deu um passo à frente, diminuindo a distância até eu sentir o cheiro de asfalto e adrenalina que vinha dele. Ele inclinou o rosto, o maxilar travado, o sotaque de cria saindo denso e perigoso. — Qual foi, loira? Tu acha mesmo que eu sou o****o? — Ele soltou uma risada seca, sarcástica. — Tu esbarra em mim falando de "servidor" e "vulnerabilidade", e meia hora depois meu monitoramento sofre um ataque externo que ninguém aqui sabe resolver? — É uma coincidência bem conveniente — respondi, arqueando a sobrancelha. — No meu morro não tem coincidência, tem visão. Da onde tu tirou que eu ia acreditar nesse teu teatrinho de paulista indefesa? — Ele apontou para o tablet. — Tu tem dez minutos pra botar aquela tela pra rodar. Se o sinal não voltar, eu vou entender que o ataque veio de dentro... e tu sabe como a "firma" resolve traição. Senti o peso da ameaça, mas também o brilho do desafio. Eu queria rir. Ele estava desesperado e não queria admitir. — Tu tá me acusando de invadir o teu sisteminha de segurança de quinta categoria? — me aproximei, ficando na ponta dos pés para encarar o fundo dos olhos dele. — E se eu souber mesmo? O que eu ganho pra consertar o teu erro de logística? O olhar dele desceu devagar pela minha boca, um desejo bruto faiscando no verde dos olhos antes dele voltar a focar na minha testa. — Tu ganha o meu silêncio sobre quem tu é de verdade, Alana. E a minha gratidão... que vale mais que muito ouro nesse Rio de Janeiro. — Ele deu um passo atrás, dando corda. — Resolve o B.O. ou admite que a "atriz" tá com medo de colocar a mão no código. Puxei a cadeira e abri o tablet. O jogo de esconde-esconde tinha acabado. — Encosta aí e observa como se trabalha, João Victor. E tenta não babar no meu processador. Ele encostou no balcão, cruzando os braços musculosos e cobertos de tatuagens, me observando como um predador que acabou de encontrar uma presa à altura. Eu sabia que, a partir daquele comando no teclado, minha vida no Vidigal nunca mais seria a mesma.
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