Capítulo 1: O Som do Pecado
O som estridente de guizos sempre anunciava a chegada do caos. E, no Reino de Valéria, o caos tinha nome, sobrenome e um sorriso pintado de prata que escondia as intenções mais obscuras que um homem poderia carregar.
A Princesa Kysha mantinha a postura perfeitamente rígida, o queixo erguido no ângulo exato e milimetricamente calculado que sua preceptora lhe ensinara desde que aprendera a andar. O grande salão principal do palácio estava lotado, sufocante e absurdamente claro. O calor irradiado por milhares de velas nos enormes lustres de cristal derretia a maquiagem das nobres damas, misturando-se ao cheiro enjoativo e doce de perfumes caros que tentavam disfarçar o cheiro de hipocrisia.
Kysha odiava bailes. Odiava a música clássica arrastada. Odiava o espartilho de seda escarlate que esmagava suas costelas a ponto de tornar cada respiração uma tortura silenciosa. Mas, acima de tudo, ela odiava o homem que estava parado à sua frente naquele exato momento.
O Duque de Harrington — um homem com o triplo da idade dela, bochechas avermelhadas pelo excesso de vinho e o olhar escorregadio de uma víbora — falava sem parar sobre as vastas propriedades de terra que possuía no sul. O pior não era a voz anasalada dele; era a forma nojenta como os olhos úmidos do Duque desciam descaradamente para o decote do vestido de Kysha a cada três palavras. Ele estava perto demais. Perto o suficiente para que Kysha sentisse o cheiro ácido de álcool na respiração dele.
O instinto primitivo dela gritava para que recuasse, para que cuspisse no rosto gordo e suado do Duque. Mas uma princesa de Valéria não recua. Uma princesa suporta. Ela era a joia da coroa de seu pai, o Rei, e joias eram feitas para serem exibidas e vendidas para o maior lance. E Harrington era o homem mais rico daquela sala.
Até que um vulto vermelho e preto cruzou o ar entre os dois em uma cambalhota perfeita.
O Duque soltou um grito agudo, quase feminino, e deu um pulo desajeitado para trás quando um homem aterrissou graciosamente bem aos pés de Kysha, o som de dezenas de pequenos sinos tilintando pelo salão e silenciando a orquestra por um breve segundo.
Wanderson: — Perdão, perdão, milorde! — A voz cantada, esganiçada e exageradamente aguda do Bobo da Corte ecoou pelas paredes de pedra. As damas ao redor esconderam risinhos atrás de seus leques de penas. Wanderson estava agachado, fingindo espanar as botas do Duque com as próprias mãos enluvadas. — Meus pés idiotas tropeçaram na vossa... enorme arrogância. Ou seria na vossa barriga? Juro pelos deuses, confundo sempre os dois de tão inflados que são!
O salão explodiu em uma onda de gargalhadas contidas. O rosto do Duque de Harrington foi do vermelho ao roxo em questão de segundos. A veia em sua testa latejava de pura humilhação, e ele murmurou uma série de maldições impronunciáveis enquanto se afastava a passos pesados, não querendo se tornar o alvo principal das piadas cruéis do palhaço do Rei.
Kysha, no entanto, não deu um único sorriso.
Seus olhos castanhos, treinados para serem dois blocos de gelo, encontraram o rosto do homem agachado à sua frente. Metade do rosto de Wanderson estava coberta por uma pintura teatral prateada, esculpindo um sorriso exagerado e feliz. Mas os olhos sob a pintura... Os olhos dele não tinham absolutamente nada de submissos ou divertidos. Eram buracos negros. Sombrios, afiados, inteligentes e venenosos.
Kysha: — Você passou dos limites, palhaço. — Ela sussurrou por entre os dentes trincados. A voz saiu tão baixa que apenas ele pôde ouvir. — Mais um insulto a um convidado do meu pai, e eu mesma mandarei açoitá-lo no pátio amanhã cedo. Saia da minha frente.
O sorriso pintado de Wanderson pareceu se alargar nas sombras.
Em um movimento fluido, silencioso e assustadoramente predatório — nada parecido com os tropeços desajeitados que ele fingia dar no meio da corte —, ele se levantou. Como Bobo da Corte, era esperado que ele andasse curvado, encolhido, como se fosse menor que os nobres. Mas ali, afastados da multidão pelas grossas cortinas de veludo das pilastras de sustentação, onde ninguém prestava atenção, Wanderson ficou ereto.
E a realidade a atingiu como um soco no estômago: ele era muito, muito mais alto que ela.
Ele deu um passo à frente. O espaço de ar entre eles simplesmente desapareceu. Não havia a distância de um braço, como mandava a rigorosa etiqueta da realeza. Havia apenas centímetros separando o peito largo dele dos s***s ofegantes da princesa.
O ar ao redor de Kysha sumiu. Seu coração deu um solavanco violento nas costelas, martelando com tanta força que ela temeu que ele pudesse ouvir. A boca dela ficou seca instantaneamente.
Wanderson: — Mande me açoitar, Vossa Alteza... — Ele sussurrou de volta.
Mas a voz não era a do Bobo da Corte. O tom fino e esganiçado desapareceu por completo. A voz que saiu da garganta dele era um cascalho áspero, grave, aveludado e perigosamente letal. Soava como um trovão distante. Soava como um homem acostumado a dar ordens que terminavam em morte.
Wanderson: — Mas admita que eu fiz um favor do c*****o pra você. — Ele inclinou o rosto para mais perto, a respiração quente e com cheiro de vinho forte batendo contra a pele do pescoço de Kysha. — Mais um minuto ouvindo aquele porco velho respirar no seu pescoço, e você mesma ia esfaquear a garganta dele com o seu prendedor de cabelo de ouro. Não ia?
Kysha engoliu em seco. Um suor frio e irracional brotou na nuca dela. Era aterrorizante como ele a lia. Era revoltante como a proximidade dele fazia suas pernas, antes tão firmes, ameaçarem ceder.
Kysha: — Eu conheço os meus deveres para com a coroa. E eu não preciso da proteção de um... de um serviçal. — Ela tentou recuar, mas as costas bateram contra a pedra fria da pilastra. Ela estava encurralada. — Você serve apenas para pular, rolar no chão e fazer barulho com esses guizos ridículos. Coloque-se no seu lugar!
A provocação foi o maior erro que ela poderia ter cometido.
A temperatura no canto sombrio em que estavam pareceu despencar. Os músculos sob a túnica de veludo vermelho e preto de Wanderson ficaram retesados. Ele não recuou. Pelo contrário. Ele avançou o milímetro que faltava, as pernas longas e musculosas dele roçando contra a seda pesada do vestido dela.
A mão direita dele, enorme, calejada e sem nenhuma luva, ergueu-se devagar no escuro.
Kysha deveria ter gritado. O protocolo exigia que ela gritasse. O toque da mão nua de um homem sem título na pele de uma princesa solteira era o suficiente para arruiná-la perante toda a sociedade. Era o escândalo da década. Mas a voz simplesmente sumiu da garganta de Kysha quando os dedos quentes e ásperos do Bobo da Corte tocaram a base do pescoço desnudo dela.
O toque queimou. Foi como se alguém tivesse encostado um ferro em brasa no gelo da pele dela. Kysha ofegou baixinho, os lábios entreabertos, os olhos arregalados enquanto o polegar dele deslizava de forma lenta, possessiva e torturante sobre a sua clavícula.
Wanderson: — Meus guizos, doce princesa... — ele murmurou, a voz rouca arranhando o ouvido dela, enviando um arrepio elétrico direto para o baixo-ventre de Kysha. — Eles servem apenas para distrair os idiotas desta corte. Enquanto eles olham para os sininhos balançando no meu chapéu... eles não percebem o quão perto as minhas mãos estão do tesouro mais bem guardado deste castelo de merda.
Ele pressionou o polegar contra a veia acelerada no pescoço dela. O olhar feroz e escuro que ele lançou por cima do ombro de Kysha, encarando os lordes que dançavam ao longe, era um aviso sanguinário. A energia que emanava do corpo dele gritava: Se tocarem nela, eu mato todos vocês.
Wanderson: — Você não vai se casar com o Harrington, Kysha. — Foi a primeira vez que ele usou o nome dela. Sem título. Sem Vossa Alteza. Apenas o nome dela pingando daquela boca de forma possessiva. — Nem que eu tenha que incendiar as portas deste palácio e queimar todos eles vivos lá dentro.
A respiração de Kysha estava tão errática que o espartilho parecia feito de chumbo. Ela queria empurrá-lo, queria estapear o rosto cínico dele, mas seu corpo a traía miseravelmente, inclinando-se de forma imperceptível em direção ao calor bruto que emanava daquele homem.
Antes que ela pudesse recuperar o fôlego para proferir uma única palavra de repreensão, o som estrondoso de botas metálicas batendo no chão de mármore quebrou a bolha sombria que os envolvia.
Guarda Real: — Vossa Alteza!
O guarda parou a dois metros de distância.
Em uma fração de milésimos de segundo, a aura letal desapareceu. O predador sumiu. O cascalho na voz evaporou. Wanderson caiu de joelhos no chão com um baque sonoro, soltando uma risada aguda e maníaca, balançando a cabeça violentamente para que os guizos fizessem o máximo de barulho possível.
Wanderson: — Nenhum problema, senhor Guarda! — ele gritou com a voz fina de palhaço, curvando-se até quase encostar o rosto no chão, fingindo polir as pontas dos sapatos da princesa com a manga da própria roupa. — Apenas admirando os calçados minúsculos de Vossa Alteza! Sapatos caros! Muito brilhantes para os olhos de um pobre bobo! Hihihi!
Kysha olhou para o guarda armado e, em seguida, desceu o olhar para o homem ajoelhado aos seus pés.
Seu peito subia e descia violentamente. A pele do pescoço dela, onde ele havia acabado de tocar, formigava e ardia como se estivesse marcada a fogo. Se ela abrisse a boca e dissesse a verdade ao guarda, Wanderson seria arrastado para as masmorras e enforcado antes do amanhecer. Ela tinha o poder da vida e da morte dele nas palmas das mãos.
Ela engoliu em seco. A máscara de Princesa de Gelo voltou ao lugar, congelando as próprias emoções.
Kysha: — Está tudo bem, soldado. O palhaço do meu pai apenas exagerou no vinho barato da criadagem e escorregou perto de mim. Volte ao seu posto.
Ela mentiu.
Kysha deu as costas para o guarda e olhou uma última vez para baixo. Wanderson ainda estava agachado. Mas, quando o guarda virou as costas, o palhaço ergueu os olhos para ela. O sorriso prateado estava lá, mas o olhar predador, faminto e cheio de uma promessa suja a perfurou de ponta a ponta.
Ela havia acabado de proteger o homem que jurou destruir o casamento dela. E, pior ainda... Kysha percebeu, com um pavor gélido que se espalhou por suas veias, que parte dela não via a hora de descobrir como ele faria isso.