Cap. 16:
Miliane.
Lutei até minhas forças se esgotarem e meu corpo desfalecer enquanto sentia as mãos daqueles homens segurando meus braços com força, o peso da violência já machucando minhas costas.
— Alguém... — tentei gritar, mas o pânico apertava minha garganta como uma corrente invisível. Minha voz se perdeu, e o desespero me arrastou para o passado, para memórias que preferia esquecer: ser punida tantas vezes, sem conseguir pedir ajuda. Aquela sensação voltou com força, me paralisando.
Quando aquele desconhecido ergueu a faca de forma ameaçadora, fechei os olhos, esperando o fim. O fim que, um dia, pensei querer, mas não agora... Não assim.
De repente, fui arrancada de meus pensamentos por algo quente que jorrou sobre mim, seguido de um som gutural. Abri os olhos, ainda tonta de terror, e me deparei com uma cena que nunca conseguiria apagar da memória.
O homem estava ajoelhado perto de mim, com as mãos de Kaleu presas ao redor de seu pescoço. Em um instante grotesco, Kaleu o soltou, deixando um corte profundo em sua garganta. O sangue jorrou como um jato, cobrindo meu rosto e meu uniforme.
Soltei um grito agudo, tão longo que pareceu rasgar minha garganta. O homem caiu morto no chão, e eu só conseguia olhar, horrorizada.
E Kaleu? Ele estava sorrindo. Um sorriso sádico, como se aquilo fosse a coisa mais prazerosa do mundo.
Continuei gritando, feito uma louca, enquanto o cheiro metálico do sangue e sua textura quente me encharcavam dos cabelos até os pés. Era como estar em um filme de terror, mas sem a chance de acordar no final.
Meu estômago não aguentou. Tudo que eu havia comido veio à tona, e a bile misturada ao cheiro do sangue parecia tornar tudo ainda mais insuportável. Eu só queria gritar, chorar e me encolher em um canto, mas ele me observava com uma calma assustadora.
Kaleu se agachou à minha frente, analisando-me como um predador que estuda sua presa.
— É nisso que dá desobedecer — disse ele, sorrindo mais uma vez. — Pode acabar afogada em uma poça de sangue.
Senti meu cabelo encharcado cair sobre a testa. A temperatura do líquido que impregnava cada parte de mim era insuportável.
— Você fez isso de propósito? — balbuciei, a voz embargada e os olhos ardendo de lágrimas.
— Agora você acredita, Andrômeda? Está com medo de mim? — ele perguntou, inclinando a cabeça como se quisesse decifrar minha alma.
Tremendo, me levantei com dificuldade. Era a primeira vez que via alguém ser morto diante de mim, e a pior coisa que já tinha presenciado.
Olhei para Kaleu por alguns segundos, deixando minha raiva transparecer. Ele parecia se divertir com meu estado, como se cada lágrima que caía pelo meu rosto ensanguentado fosse combustível para seu ego distorcido.
— Não estou com medo de você! Estou com tanta raiva! — esbravejei, minha voz falhando em meio ao choro. — Tudo bem, você me convenceu! — gritei, batendo o pé no chão antes de passar por ele na tentativa de sair dali.
— O que eles vão dizer quando virem você chegando assim? — perguntou ele, sua voz calma como se nada tivesse acontecido.
— Vão ver que acabei de passar pela situação mais aterrorizante da minha vida!
— Então quer ir assim? Quer que todos te vejam desse jeito?
Naquele momento, parei, sentindo-me sem saída. O que eu vou dizer? Que estou fugindo para a floresta? Que tenho encontrado esse homem misterioso e, de repente, ele matou um homem bem em cima de mim? No mínimo, vão pensar que estou fazendo algo errado. Afinal... não posso me aproximar de ninguém do sexo masculino. Karmélia deixou bem claro: eu não poderia ter amigos, não importa a situação. Com certeza, serei punida.
— Tudo bem, venha comigo. Só desta vez, vou ser legal com você. Mas guarde segredo de tudo isso. Afinal... você me deve sua vida. Pode ficar com raiva de mim, eu não ligo. — Ele disse com indiferença.
Minha única reação foi abaixar a cabeça e me entregar ao choro, balbuciando como uma criança pequena. Podia sentir as lágrimas lavando meu rosto aos poucos, misturando-se com o sangue que pingava no chão.
— Kaleu... da próxima vez, pode chegar antes de eu apanhar que nem um cachorro abandonado? Minhas costas doem... — murmurei, minha voz embargada.
Notei quando ele se aproximou, e, em seguida, senti sua mão deslizar pela minha testa, limpando o sangue e afastando os cabelos grudados no meu rosto.
— Eu deixei você apanhar. Eu estava te seguindo desde que saiu e esperei o momento certo para pegá-lo. É isso que eu faço, Andrômeda. Mato tudo que invade minha floresta. — Ele falou com autoridade, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Agora me siga.
Sem alternativa, obedeci. Ele caminhou por um longo trecho até chegarmos a um lago com uma cachoeira. O lugar parecia um pequeno pedaço de paraíso, isolado de tudo. Kaleu sentou-se em uma rocha próxima a uma árvore e apontou para o lago.
— O que foi? — perguntei, confusa.
— Lave o sangue e vá para casa. — Ele disse, atraindo meu olhar desconfiado.
— Você não tem água em casa? — questionei, tentando entender.
— Não tenho água encanada, se é isso que quer saber. Afinal... se ainda não percebeu, estamos no meio de uma floresta.
— Ah... e você vai me esperar aqui? — perguntei, sentindo-me constrangida.
— Eu vou sair. Ficar longe. — Ele se levantou da pedra, como se aquilo resolvesse tudo.
— Não mesmo! Por favor! Como pode querer me deixar sozinha? E se algo acontecer? E se alguém tentar contra mim de novo?
Ele massageou as têmporas, claramente impaciente.
— Não tem ninguém aqui. Não agora.
— Primeiro, eu estou suja de sangue assim porque você achou que essa era a melhor forma de me assustar. Já atirou em mim antes! O que é pior do que isso? — perguntei, emburrada, virando-lhe as costas e indo em direção à água.
Ele ficou em silêncio. Encostou-se à árvore, desviando o olhar, enquanto eu entrava na água. A cada passo, via o sangue se dispersar, tingindo a superfície até sumir completamente.
Quando finalmente cheguei à parte mais funda, virei-me para observá-lo. E me senti estranha. Quem diria que um dia eu estaria tão próxima de alguém tão perigoso? Ainda assim... quando olho para Kaleu, é como se visse um homem preso em uma gaiola que ele mesmo criou.
Não sei por que ele insiste em se afastar tanto das pessoas, mas uma coisa é certa: o que ele faz aqui não é r**m. Muitos pensam que ele torna este lugar perigoso, mas, na verdade, ele é quem mantém a floresta segura.