Cap. 17:
Passei alguns minutos mergulhando e levantando, tentando lavar o cabelo. Já estava ali há tanto tempo, mas não importava quantas vezes me lavava, ainda sentia a temperatura daquela água quando caiu sobre mim. Não tinha mais vertigens, enquanto isso, ele esperava, impassível.
Saí da água sentindo meu corpo dormente. Estava tão tensa outrora que não havia percebido o quanto aquela água estava gelada, a ponto de espirrar violentamente e atrair o olhar dele.
— Você é tão fraca assim? Como alguns minutinhos podem te deixar doente? — ele perguntou, demonstrando indignação.
— Bom... eu não me lembro... minha madrasta sempre diz que a minha imunidade... — expliquei, em seguida espirrando.
— Ah, claro, sua imunidade está funcionando muito bem, parece bem forte.
— Está caçoando de mim, Kaleu? — perguntei, tentando me manter firme, mas meus dentes batiam freneticamente.
— Você é a pessoa mais patética que já conheci. Um criminoso quase te matou, e agora a água está quase te matando. Não posso fazer nada contra isso — disse ele, indiferente, virando o rosto.
— Não pedi para fazer nada quanto a isso, eu vou para casa — disse, enquanto tentava me aquecer ao abraçar meu corpo, mas parecia que estava em uma geladeira industrial. "A imunidade vai fazer seu trabalho? Vou morrer de frio!"
Kaleu seguia na frente, mas parou bruscamente, me encarando com uma expressão impenetrável.
— Tenho a impressão de que você não vai chegar viva em casa — ele resmungou, parando e desabotoando a camisa que estava usando.
— Não é só o frio, você acha que aquela briga não machucou minhas costas? Além de alguns hematomas nos braços, como vou explicar isso?
— Nunca vi alguém tão complicada — ele resmungou, tirando a camisa e ficando com uma regata branca sem manga. Jogou a camisa de flanela grossa, macia e quentinha para mim, como se se livrasse de um fardo. Era uma camisa de botão, de manga longa até os pulsos.
— Tire essa roupa e use essa — ele avisou, mantendo-se de costas.
Sorri, desconcertada. Estava travada de frio e agora de constrangimento. Como assim, vestir a camisa dele? Mas não consegui conter o frio. Escondi-me atrás de uma árvore, tirei o fardamento encharcado e vesti a camisa. Senti um calor reconfortante me envolver. Tinha um cheiro leve de sabonete e algo indefinível, mas reconfortante. Jurava que ele tinha cheiro de floresta ou... fumaça e gente morta.
Ele se virou e esperou, mantendo-se de costas. Continuei seguindo até reconhecer o caminho.
— E se me perguntarem por que estou com sua camisa? — perguntei.
— Vão te matar? Mas nada comparado ao que aconteceria comigo. Continue andando, vamos resolver isso de uma vez — ele respondeu com indiferença.
Voltamos para o território dele, e ele abriu a porta de sua casa. "Ele vai finalmente me deixar entrar?" Isso seria estranho, mas, em vez disso, ele pegou minhas roupas encharcadas e entrou, batendo a porta com força, demonstrando que estava fazendo algo contra a sua vontade.
Então, esperei, sentada em um dos troncos próximos à fogueira.
Quando ele voltou, trouxe minhas roupas limpas e aquecidas, não estavam mais úmidas.
— Troque de roupa e devolva a minha camisa. Saia daqui, e espero que não volte. Esse lugar não está seguro, como você já viu — ele avisou, de mau humor.
Ele não me deixou entrar, e ainda tive que procurar um lugar confortável para me trocar. Em seguida, devolvi sua camisa.
— Obrigada, Kaleu — agradeci, recuando e seguindo meu caminho, receosa. Afinal... aquele corpo lá com certeza me assombraria.
Desviei o caminho e consegui chegar em casa por um atalho.
— Onde esteve? — Karmelia me perguntou assim que entrei. Ela tocou meu cabelo ao mesmo tempo que o cheirou.
— O que há de errado? — perguntei, receosa.
— Nada, seu cabelo está molhado, o que aconteceu?
— Nada demais, eu só encontrei um lago e molhei o cabelo lá.
— Mas tem um cheiro peculiar também, eu não gosto — ela disse, afastando-se de mim.
— Está falando sério?
Peguei uma mecha e cheirei, buscando o cheiro conhecido, e estava ali, sutil, mas estava. Então subi para o quarto. Sei que Vando não estava em casa naquela hora. Não sei o que ele estava fazendo, mas não tem estado em casa como antes. Se não estiver em casas de aposta, agora ele acha que as coisas vão se resolver e que sua dívida será paga com meu sangue.