Cap. 13: segundo dia.
Miliane.
— Me confirme só mais uma vez, te deixaram na frente da escola e você não encontrou a sua turma, porque eles não disseram? E então você se trancou no banheiro e ficou lá? — ele perguntou mais uma vez sem conseguir acreditar.
Se bem que agora ele falando, parece que sou a pessoa mais patética do mundo. Eu confirmei com a cabeça e ele me encarou cético.
— Você é a pessoa mais burra que eu já vi em minha vida, as pessoas te maltratam e você se vitimiza. — ele disse cruzando os braços, me encarando com desprezo. — Simplesmente é assim, eu vivia na p***a de um cativeiro e por algum motivo agora eles querem que eu vá para a escola, eles penteiam meu cabelo, me dão bons perfumes e me vestem das melhores roupas e tudo que eu faço é continuar me vitimizando. — ele sorriu cético, ainda com o mesmo desprezo.
— O que você quer que eu faça? — perguntei sem saber se sentia raiva dele ou de mim.
— Você só tinha que entrar na escola e perguntar! — ele asseverou, me fazendo parecer burra. — Você tem o comprovante de matrícula e ele tem todas as informações.
Ele avisou e me senti ainda mais i****a. Pela primeira vez, eu senti vontade de sair de perto dele, com a vergonha que ele é capaz de causar.
— Mais alguma coisa, senhor Kaleu? — perguntei de forma irônica, ainda sem reação.
— Claro que sim! — ele disse com firmeza, apontando o dedo para mim com um olhar de fúria. — Você já parou para pensar? Você recebeu a sua liberdade, pela segunda vez conseguiu sair e de todos os lugares você corre para o mais perigoso, isso não faz o mínimo sentido, por que de todos os lugares, logo aqui? — ele perguntou demonstrando indignação. Então me levantei, o encarando com dureza.
— Isso é r**m? Eu correr para cá? — perguntei deixando algumas lágrimas escaparem.
— Não está óbvio?
— Eu não ligo para sua opinião, eu vou continuar vindo! — berrei enquanto ele ficava sem reação. — Eu vou continuar, porque…
— Por quê? — ele esbravejou, me fazendo sentir calafrios.
— Porque eu tenho medo! Eu tenho medo das pessoas que me criam como filha… medo de saber que posso estar em uma situação perigosa sem chances de fugir sem ser encontrada, por isso eu corro para cá, porque acredito que você vai me proteger! — confessei envergonhada. Eu já tinha ido ao meu limite com Kaleu, apenas me virei e corri entre as árvores.
— Não venha amanhã, ou você vai comer carne de cobra! — ele esbravejou ainda irritado.
— Tá! — gritei irritada enquanto corria entre as árvores.
Assim que cheguei, antes que pudesse entrar, a porta da casa se abriu e eu instintivamente me escondi na mesma moita do jardim onde, em outro momento, eu e Karmelia já tínhamos nos escondido. Ele estava acompanhado de sua esposa Ananda e pareciam com pressa.
— Quanto tempo você acha que ela pode durar nas mãos de um homem como ele? — Ananda perguntou, parando apreensiva.
— E é para ela durar? Nas mãos de um homem como ele, supostamente não vai permanecer viva uma semana e isso não importa, porque foi para isso que eu a comprei, para livrar nossa filha desse fim, por isso não fique com essa cara. — ele avisou enquanto eu… eu tinha perdido as forças.
— Não sei… é assustador saber que o filho do Don escolheu a pior pessoa com quem ela poderia ficar. — Ananda comentou e Vando soltou uma gargalhada perversa.
— Sabe o que é engraçado? É que os destinos deles já tinham se ligado há alguns anos, e isso é assustador. Será que ele se lembra dela? — ele perguntou e fiquei confusa.
Como assim nossos futuros já tinham se ligado? Será que esse homem já veio aqui quando eu era mais nova?
Tentei buscar em meus pensamentos alguma lembrança, alguma memória, mas agora eu estava em pânico demais para pensar. Tenho dois anos antes de ir parar nas mãos desse tal estranho e apenas uma semana de vida quando estiver nas mãos dele? Essa é a dedução?
Quanto mais penso nisso, mais me sinto desesperada. Deve haver um modo de fugir, mas agora que eles me conhecem como a noiva desse homem, Karmelia já se livrou.
Quando entrei, Karmelia me recebeu ansiosa e preocupada, me puxando pelo braço e me levando até o sofá onde sentou ao meu lado.
— Eles já escolheram a pessoa com quem você vai se casar. Infelizmente, você não teve muita sorte. Ouvi que esse homem é um tipo de assassino em série, supostamente seu hobby mais divertido é matar. Soube também que estavam até mesmo investigando ele, e que supostamente ele matou a sua antiga família. Imagina, sua esposa de vinte anos e um bebê que nem mesmo tinha três meses.
Quanto mais ela contava, mais horrorizada eu ficava.
Ela não sabia o medo que se instalou em meu peito. Se eles pensam que eu vou ser entregue a um homem desse tipo, eu nunca vou aceitar, não! Não mais. Já sei o que vou fazer: vou aproveitar esse período de escola para conhecer esse lugar e pensar em como fugir. Sei que é um bairro bastante isolado e bem vigiado. Depois que saio dos limites do território de Vando, ainda tenho muito o que enfrentar se eu não tiver cuidado, assim Karmelia sempre conta.
Passei a noite sem conseguir dormir, tendo pesadelos constantes, um atrás do outro. Pela manhã, Karmelia me acordou bem cedo e já tinha trazido uma série de coisas para meu quarto. Parecia que era algo muito importante eu me cuidar.
Mais uma vez, ela escovou meu cabelo e me ajudou a me arrumar. Ela até mesmo passava um pouco de maquiagem que ficava bem sutil, ainda assim dava um tom delicado.
Dessa vez, eles não me levaram para a escola. Tive que andar até lá, mas dessa vez não vou correr. Kaleu tinha razão, eu tinha toda a informação que precisava, então comecei a procurar minha turma por conta própria.
Depois de andar por mais de dez minutos por todas aquelas instalações, eu já estava exausta. Os corredores pareciam um labirinto infinito e o barulho dos alunos conversando ecoava pelas paredes, me deixando ainda mais confusa.
— Está perdida? — escuto uma voz masculina atrás de mim. Viro-me e meus olhos se encontram com os de um garoto que parecia ter saído de uma revista de moda. Alto, de cabelos escuros e um sorriso que iluminava todo o rosto, ele me observava com um olhar curioso.