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Quem Ela É

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Blurb

Com sua carreira de ator à beira da morte, a vida de Jasper Stanford muda completamente por conta de um "acidente" envolvendo uma adolescente desconhecida. Entre a sua busca pela garota, família e trabalho, Jasper passa ter sonhos misteriosos com uma mulher que ele transou, mas não se lembra. Quem ela é?

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O ambiente é levemente obsceno. Há fumaça, álcool, mulheres nuas, música soul. Uma mão desliza sobre o meu peito. Outra, mais áspera, passeia por minhas costas. Descubro uma terceira quando sinto meu pescoço ser acariciado, e, logo depois, a mesma toca os meus lábios de maneira excitante. Sinto um gosto amargo em minha boca. Alguém massageia os meus ombros de maneira intensa. Um beijo, meus cabelos são bagunçados. Gemidos. Não vejo nada, não claramente. Abro os olhos para saber onde estou. Descubro. Estou em minha mente. — Acorda pra morrer, Ned — uma voz impertinente pousa em meus ouvidos. Aos poucos, a imagem à minha frente torna-se nítida. É Phoebe. — Vai se f***r, Phoebe. — resmungo. Levanto do sofá azul apertado, onde eu dormia, com dificuldade. — Quem vai se f***r é você. — ela joga umas dúzias de folhas em cima de mim. — Ah, o roteiro... — pego o compilado. "The Truth - Temporada 02, Episódio 09". — Eu vou te dar um tempo. Depois você fala com o David, sei lá. Eu sinto muito mesmo, cara. Ela sai antes mesmo de eu formular uma pergunta para aquilo. Começo a ler o roteiro do episódio de maneira rápida. A série fala tráfico de drogas, investigação, amor. O meu personagem não é um dos principais. Esse é o meu primeiro papel de verdade. E, chegando à penúltima página, entendo o que Phoebe quis dizer. Vou até a sala de David, o diretor, tentando manter a calma. Afinal, ele não era o roteirista. Aquele filho da p**a do Bill Raymond. A sala do diretor era uma mistura de templo Hollywoodiano e fotos em preto e branco de todos os tamanhos de Hitchcock. Além de uns artefatos caros do cinema. E olha que ele nem ganha isso tudo. — Imaginei que viria. — ele diz, cínico, sentado em sua poltrona de Poderoso Chefão. — Mas eu não. Que p***a é essa, David? — falo, levantando o roteiro no ar, indignado. — Eu também não queria que fosse dessa forma, acredite. Sente-se, acho que lhe devo algumas explicações. — Você me deve um relatório completo de Que p***a é Essa? Você leu isso, David? — Li. Sente-se, Jasper. — ele pede serenamente. — Vamos com calma. — Não estou calmo. — E nem deveria. — Por que o Ned vai morrer nesse episódio? Por que eu vou morrer nessa droga de episódio, nessa maldita temporada, David? — Acho que você sentou no meu maço de Lucky. Respiro fundo. Levanto a minha perna em 40 graus até alcançar os malditos cigarros da sorte de David. O pego, e o entrego em seguida. — A audiência despencou nessa temporada, como você sabe. Precisamos de um Plot para que voltemos à mídia. E a morte é sempre chocante, senhor Stanford. Você sabe muito bem disso. Seja na ficção, seja realidade. — o diretor disse enquanto beliscava o seu isqueiro preto. Acendeu, tragou, fechou os olhos. Inalou fumaça. Sorriu. — E por que o meu personagem? Essa morte estava programada para a quarta temporada. — Preciso de um Plot para esse final de temporada, como eu disse, e eu simplesmente não posso matar um dos meus personagens principais agora. Temos mais uma ou duas temporadas pela frente, você sabe. E, para o que eu preciso para a próxima, a série pode seguir sem o Ned. O seu papel foi mais importante na primeira temporada, Jasper, agora nem é mais tão importante assim. E nem tão cedo você conseguirá um grande, então, da próxima vez, não fique surpreso quando isso acontecer. É mais corriqueiro do que imagina. — É que... Eu fiquei muito. — Sem chão, surpreso, chocado, pasmo. — cortou-me. Tragou, fechou os olhos. Sorriu. Inalou fumaça. — Exatamente, David. — Funcionou, não? E esse é o nosso objetivo com o público, Jasper. A morte é sempre chocante. — tragou, e dessa vez não sorriu em seguida. Phoebe veio tentar me consolar, sem sucesso. A filha da p**a é uma das principais. Após a revelação da audiência do episódio 09, ela certamente estará junto com os produtores e o resto do elenco comemorando a minha morte. Viro o rosto para a sua cara de pena e sigo em frente, para o estacionamento da emissora. Entro em meu carro, parto. Sem rumo. Eu só quero gritar e fumar ao mesmo tempo, beber ou t*****r, quem sabe. Ligo para a minha esposa. Dou a notícia. Madison finge que se importa. Eu finjo que não percebo o seu descaso. Ela me pede para que eu compre um remédio. Desligamos. — Phill? — é a próxima ligação. Um amigo. — E aí, famoso. Como anda a vida de estrela? — Fodida. — Estou ansioso para a terceira temporada. Eu acho que Chad e o Seth devem ficar juntos. Mas tem a Elizabeth, aquela mulher desgraçada. — Eu morro no penúltimo episódio. O Ned, quero dizer. — Nossa. Obrigado pelo spoiler, seu filho da p**a. — É sério, Phill. Tô na rua. Eu preciso voltar pra NBS. Meus dias aqui na CBC estão contados. — Cara... Olha, eu vou falar com o chefe. Talvez você volte pra redação, porque agora tem repórter de sobra. É sério. — Qualquer coisa. — Você já gravou o esse episódio aí? — Não. Só sexta. — Não quero saber como você morre. Mas, Jasper. Sinto muito mesmo. E, p***a, você vai arrumar outro papel. Em uma série mais f**a ainda, okay? Ou um filme. — Eu vou cair do décimo segundo andar em meio a um tiroteio com o Chad. — Vai se f***r! É segunda. Começa a chover no momento em que paro para comprar um remédio para a tosse de Todd, a pedido de Mad. Paro o carro na calçada, em frente à farmácia. Antes de sair do carro, um detalhe em meu porta-luvas. Meu velho boné preto e óculos escuros; meu disfarce fajuto quando não estou muito a fim de chamar atenção na rua. A atendente do caixa me lembra dos vultos de pessoas em meu sonho. Suas mãos parecem com as mesmas que rodearam minhas costas. No momento em que pego de suas mãos uma única sacola, com remédios e cigarro, minha pele desliza sobre os seus dedos. Dedos ásperos. — Michelle. — digo, ao ler o seu nome no crachá preso em seu peito esquerdo. — Sim? — ela pergunta, semicerrada, sorrindo de lado. — Acho que sonhei com você. —digo, enquanto nos observamos por alguns segundos. Pausa não tão demorada, suspiro. — Mas isso não faz sentido. — ... — Boa tarde. Boa tarde. Desculpa. O sonho vem à tona. Entro no carro, ponho o cinto. Ligo o rádio. Música soul? Olho para a sacola, mas não para o remédio, para o cigarro. Fumaça, álcool, mulheres nuas. Uma mão desliza sobre o meu peito. — Jasper? — levemente assustado, olho para o lado. Uma adolescente meio punk- descolada bate na janela do meu carro. — Nos conhecemos? — digo, sem descer a janela elétrica. — Não e sim. Você é o Ned de The Truth. — Hm. É. — sorrio, olhando de relance para a sacola mais uma vez. — Posso tirar uma foto? Saio do carro com muita vontade. Tiramos uma foto ridícula. Mal sorri. Ajo como se isso acontecesse sempre, mas não. Meu personagem é esquecido, e se isso aconteceu umas dez vezes foi muita. Eu só estou de mau humor. Eu sei que a garota não tem culpa nenhuma dessa p***a toda. E quem disse que o meu mau humor faz acepção de pessoas? — Posso te contar um segredo, garota estranha? — Sobre a série? — O Ned. Eu, você sabe. O Ned vai morrer no penúltimo episódio da próxima temporada. Nós já estamos terminando de gravar. Sexta, gravamos a minha morte, aliás. — Cara... Qual o seu problema? Isso é spoiler. p***a, eu não queria saber disso. — Eu estou lhe contando uma coisa grandiosa, garota. Grandiosa. É assim que agradece? Quem te educou? — Você é um babaca. — Isso é um segredo nosso. — e sorri. — Cuzão. — a garota diz, balançando a cabeça, e some. Chego, quinze minutos depois, a minha casa. Deixo o maço de cigarros no porta-luvas. Sou recebido por um abraço apertado de meu filho. A cópia-miniatura do Sr. Stanford tem seis anos. É muito bonito, obviamente. Tem os olhos, boca e cabelos do pai. Como diria minha mãe, "sorte a dele". — Trouxe o que pediu, Mad. Pelo preço, ele deve engolir e ficar bom. — i****a. — ela pega a sacola somente com o remédio. — Como você tá? — diz, e me abraça. Abraça. — Ótimo, amiga. Estava precisando do seu abraço. — digo, e então ela percebe a indelicadeza. — Herpes. — ela pousa seu indicador próximo à ferida em seu lábio inferior. — Hm. Sorte a minha. — lamento, rindo forçado. Todd fala aleatoriamente, enquanto puxa a borda de minha camisa social azul. A televisão está ligada. NBS, minha antiga casa de trabalho. O jornal das seis está começando. A âncora, uma amiga, Emily Holden, informa as notícias. A última chamada, de notícias da internet, é sobre o Twitter. — Um dos últimos destaques é o primeiro lugar dos trends nesse momento. Uma jovem, que tirou essa foto com o ator Jasper Stanford, da série The Truth, — nesse momento, a nossa foto ridícula aparece na tela durante alguns segundos — revelou que, no suposto encontro desta tarde, o próprio ator lhe contou que o seu personagem morrerá na próxima temporada. Não demora muito para que meu celular toque. É David. Eu atendo. Ele me xinga. Eu o xingo também. Estou de volta.

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