Na sexta, Madison e eu estávamos sem trabalho. Consequência? O assunto sobre o Halloween voltou à tona. Mentir estava no sangue da família — Mad já tinha um plano para acabar com o dia das bruxas do nosso filho.
Segundo ela, não aguentava mais ouvir falácias da velha, a sua mãe, que reclama o empo todo que Todd não parecia ser filho de uma nutricionista. E, quando uma coisa se repete diversas vezes, Mad parece entrar em colapso: rotina sempre foi um dos seus maiores pavores. Costumo dizer a ela que casamento não foi uma opção inteligente.
Quando Todd ainda nem existia, nós costumávamos sair quase todas as noites para diversos restaurantes da cidade. Mad sempre procurou inovar os nossos encontros, até mesmo quando ainda morávamos em NY. A cena gastronômica de New Briston é bem ativa, e todos aqui se orgulham muito disso. Comida de todos os tipos, gostos e preços.
Madison nasceu na Geórgia, e viveu parte da infância em um dos bairros de New Briston. Ela foi para NY quando ingressou na faculdade, e acabamos nos esbarrando por lá enquanto eu era apenas um estagiário no NEWS! Um dos jornais prestigiados da Cidade Que Não Dorme. Quando nos casamos, eu me mudei, e ela, voltou ao seu lar, New Briston.
Eclética, a cidade também esbanja diversidade e atividade cultural. Além disso, NB parece mais aconchegante do que é, pela sua enorme divisão em bairros ultra pequenos. Devido a isso, quase sempre, Phoebe, And, eu e todo o resto do elenco costumamos sair pelas ruas sem preocupação do estrelismo. A cidade é pacata, as pessoas são extremamente educadas e provavelmente nem metade assiste a série.
O clima ameno ajuda para quem prefere passar mais tempo fora de casa do que dentro, assim como eu. Já para quem não está acostumado com o calor, pode ser um problema: os verões de New Briston são quentes pra c*****o.
A arquitetura é relativamente nova, aliás. Quando turistas passam por aqui, costumam comentar que "a cidade parece ter sido inaugurada há pouco". Apenas reflexos da Guerra Civil Americana, de quando a cidade foi quase completamente destruída.
Sinto falta da agitação de NY, admito. Aqui, encontrar alguém na rua após as seis da tarde é praticamente uma missão impossível. Tirando isso, é um bom lugar para se criar crianças.
Agora, chega de aula de história. Eu era péssimo nessa matéria da escola, aliás.
O B. Highway Market é a personificação da diversidade de New Briston — um mercado onde você pode encontrar todo o tipo de culinária do mundo inteiro. Ir ao B. High é sempre divertido. Seja observando uma família mexicana escolhendo uma pinãta, ou senhoras holandesas ricas com suas sacolas caras e recicláveis.
Os corredores são divididos por país. É possível encontrar produtos oriundos de quase todo o canto do mundo num só lugar. Para quem curte sabores diferentes, o lugar é um prato cheio.
Todd, por exemplo, estava na ala Argentina, caçando seu adorado pote de doce de leite.
— Ele vai reclamar por trocar de dentista, mas, nós somos os pais. Combinei com Lacey de mentir na consulta. Ela vai dizer que Todd está com cárie.
— E vai proibi-lo de comer qualquer tipo de doce. — completei.
— Exatamente. — Mad suspirou. — Preciso de paz e sossego. Todd já está grande. Talvez ele entenda. Mamãe está me deixando furiosa.
— Pelo menos você se esforça para não magoar nosso filho — sorri para ela. — Se fosse a velha, trancaria o garoto no quarto em todo Halloween. Ou qualquer dia que ele queira comer doces.
— Ela já fez isso uma vez. Comigo.
— Achei! — Todd gritou do seu corredor, feliz. Estávamos a poucos metros quando ele veio correndo entregar os seus 500g de açúcar-marrom-pastoso-gorduroso, como a avó preconceituosa de Todd costuma dizer. "Porcarias latinas".
— Bem, boa sorte. — disse, quando a criança nos olhou, confusa.
— Todd, não. Até o Halloween, esqueceu? E você tem dentista semana que vem. Não quer aparecer com os dentes feios lá, quer? — Mad balançou a cabeça.
— Podemos pedir pizza hoje? — Todd perguntou avoado.
— Não. Meu Deus. Sua avó nem pode sonhar que você come esse tipo de coisa o tempo todo.
— Eu vou à Alemanha. — disse, deixando Todd, o pirracento, com a sua mãe, a controladora alimentícia.
Particularmente, eu quase sempre visito o Highway pelo Leibniz, um Biscoito Premium da Alemanha, de chocolate. A minha surpresa no corredor alemão dessa vez não foram os preços, e sim uma mulher, funcionária do mercado, que procura algo nas prateleiras superiores. Eu a observo, mas os olhos dela continuam focados nos produtos. Está com as mãos na cintura, cabeça levantada, pés flexionados. Procura por algo.
Pego dois pacotes de Leibniz e me aproximo aos poucos. Meu raciocínio é interrompido por Todd chorando, implorando por um San Luis.
A mulher me nota. Encara-me. Ela desvia o olhar e Todd me puxa. Olho para suas mãos, confuso. Sinto que já as vi antes.
Já as vi em meus sonhos.