Respiração ofegante, minha mente estava trabalhando em um misto de raiva e vingança, mas não era eu, não era do meu feitio. Essa era a viúva, impiedosa, a única que conhecia a essência do pôquer, a viúva de luto, a mulher que chorava pelo passado e destruía tudo o que via pela frente.
Desci as escadas, após cobrir o corpo com o manto da mulher obscura, a mulher que eu sou, era como uma armadura frágil e amargurada, que deixava as pessoas inseguras, mas era elegante e misteriosa, ninguém tentava se aproximar, por mais curiosas que ficassem, era assustador imaginar o que cobria esse rosto.
Deshi me encarava com apreço, era engraçado achar que talvez ele também não conhecesse esse coração que eu escondia, mas ele conhecia muito bem, as vezes, até mais que eu.
- Moça, minha amiga subiu lá e até agora não desceu. - Ele sorriu. Que ódio daquele sorriso lindo.
- Para de bobagem! - Estendi a mão e fui descendo, me aproximando, e parei um degrau acima dele, achei que ele continuaria descendo, mas ele simplesmente parou e ficou me encarando. Nessa proximidade já conseguia sentir até sua respiração.
-Vamos?
-Vamos! - Pare coração molenga...
Ele conseguia me desmontar só de me encarar nos olhos, o que era golpe baixo. Já vivi muito, já vi muito e senti muito... mas, perto dele, tudo sempre é novo.
Adentramos ao carro e fomos direto para a entrada secreta do meu cassino. Respirei fundo durante todo o trajeto. Subi as escadinhas e Teddy abriu a porta. Era engraçado pois, entradas grandiosas era o meu forte, então todos sempre estávamos preparados.
Parei na porta, e Deshi que vinha bem atrás me olhou com cara de assustado.
-O que foi? Porque parou?
-Espere...
Um alarde, uma zona, eu adorava o barulho que faziam. Apertei o botão vermelho e o segurei. A mulher estava na casa. A sirene ecoou por todo o ambiente, e logo as fichas começaram a bater na mesa. Eu adorava aquilo, havia uma telinha ao lado da porta e Deshi parecia uma criança sorrindo ao ver como eu era recebida pelos meus lindos clientes. Porém, Phillip estava parado bem em frente a porta do quarto de jogos, era como se fosse um duelo do velho oeste, e eu juro que puxaria a pistola do meu coldre, se não soubesse que fariam um estardalhaço por qualquer coisinha.
Saí pela porta, e andei mais lento que de costume, as pessoas não estavam entendendo o motivo de eu não ter acenado e nem nada do tipo, então, frente que se segue, parei a uma distância segura de Phillip.
-Acho que já falamos sobre cavalheirismo antes... -Falei um pouco ríspida.
-Desculpa Viúva, o que foi agora? - Ele riu, parecia envergonhado.
-Acho que você deveria me pagar um drink, e sair da minha passagem...
-Entendo... - Ele fechou os punhos. Deu um toque em um dos seguranças que foram buscar-me um drink.
Me virei de costas, e localizei os jogadores mais medíocres da noite, eu não queria ninguém tirando o meu foco. Dessa vez, eu não toquei em ninguém, apenas apontei com o indicador, e eles foram caminhando para a sala, dentre eles, Deshi.
-Viúva, sua bebida! - Phillip me olhou com um sorriso sarcástico, segurando uma taça de champanhe.
-Desculpa, esqueci de dizer que só bebo uísque. - Dei de ombros.
-Uma mulher que gosta de uísque... - Um comentário ofensivo.
-Vamos? -Abri espaço para que ele passasse.
-Primeiro as damas! - Estendeu a mão.
-Ah, está aprendendo a ser cavalheiro.
Fomos para dentro, cada um sentou em seu devido lugar, apostas bem altas.
Comecei com alguns blefes para ver em que pé estávamos, e aparentemente haviam muitos covardes naquela noite. Deshi também, estava bem receoso.
Até Phillip aceitar um All-in, mas graças ao bom Deus eu estar com four king e ele apenas de full house.
Alguns milhões foram divididos entre eu e Deshi, e Phillip não estava incomodado, claro, roubou toda a fortuna da minha empresa.
Todos foram saindo aos poucos da mesa, sem dinheiro para continuar jogando. Até que Phillip atingiu a perca de 10 milhões, foi a noite em que mais faturamos, mas ainda não era o suficiente para mim.
-É Viúva, você se provou uma grande jogadora. Vou deixar a mesa para vocês agora. - Não, não!
-Foi muito bom ganhar algum dinheiro de você! - Ergui o copo de uísque.
-Você quase me faliu, garota! -Ele riu alto.
-Obrigada pelo jogo! - Cerrei os dentes, mas tentei manter a classe!
-Foi muito bom finalmente conhecer seu espaço antes de deixar minha querida cidade! -Tocou o couro da cadeira em que estava sentado.
-Viagem de negócios? - Soltei, muito curiosa.
-Você é engraçada! - Como se ele realmente fosse me contar alguma coisa.
-Adeus, Phillip! - Acenei.
-Adeus, querida! - Ele saiu tranquilo, acompanhado por seus vários capangas.
Respirei fundo, óbvio que ele iria dar um passeio para não ser preso. Mas, acho que ele esqueceu que meu pai não trabalha dessa forma. Ele jamais ligaria para a polícia comum, meu pai era conhecido demais, nossa empresa gerou muitos recursos para nossa cidade. Seria suicídio continuar por perto.
Deshi me olhou virar o segundo copo de uísque.
-Hey, não vai querer outro banho gelado, vai?
-Isso é tão frustrante... - Respirei.
-Acho que você não deveria se importar tanto com isso agora.
-E com o que eu deveria me preocupar? - Sorri por baixo do véu.
-Com seu vestido de noiva? - Ele fez minhas mãos tremerem.
-Não. - Ri.
-Sim! - Arqueou a sobrancelha.
-Não, eu não vou envolver você e nem sua família nisso, Wang! - Engoli o amargor da decepção.
-Não foi assim que eu planejei te pedir em casamento... -Ele riu.
-E já considerou isso alguma vez? -O encarei.
-Olha, acho que a única pessoa que me deixa de joelhos, é você! Então, sim! - Ele corou.
-Apesar que... nunca te vi de joelhos. - Sorri.
Ele se levantou colocando a jaqueta em cima da cadeira. Se ajoelhou na minha frente, pegou minha perna e colocou meu pé direito em cima de seu ombro direito, a visão do meu Scarpin, pisando em um homem tão charmoso, de joelhos na minha frente, era poderoso.
- Isso vai ser um pedido de casamento? -Falei tirando o chapéu.
- Não, mas se você quiser... pode ser também! - Olhou lentamente para cima.
Som agudo soa pelo ambiente.
-Temos acesso a sala! -A voz de Lilly ecoou pelo ambiente.
Deshi sorriu frenético. Tirei meu salto de cima dele rapidamente e o estendi a mão para se levantar. Foi constrangedor em um nível que eu não conseguia mencionar. E agora, um novo desejo se iniciou. Tê-lo em cima da mesa de pôquer!
- É, isso foi constrangedor!
- Não olha pra trás, só continua andando. - Falei rindo da situação.