Após a noite longa, voltei para minha casa, Deshi voltou ao seu hotel, nada aconteceu aquele dia. Minha raiva, decepção e tristeza não me deixariam estar na companhia dele, e eu jamais gostaria que ele sentisse que aquilo era culpa da bebida e dos acasos. Quero estar com ele num momento maravilhoso onde só nós fossemos importantes.
Meu pai havia me enchido de mensagens por toda a noite, e quer saber de uma coisa? Se ele gostava de ter segredos, eu herdei isso dele.
Na manhã seguinte, cheguei de cabeça erguida em nossa empresa. Convoquei outra reunião com os líderes de setores. Infelizmente uma onda de demissões e papeladas se instalariam em minha mesa, mas era melhor por enquanto.
Todos os novos funcionários foram demitidos em uma reunião de emergência. Milhões de dólares saíram em multas de acertos trabalhistas, e mesmo assim, meus anos da Secret me fizeram ter renda para arcar com prejuízos.
Até então nossos investidores não tinham noção de tudo, mas escrevi vários e-mails informando que a empresa havia sofrido um golpe de acionista, que nossa demanda diminuiria por pouco tempo e que nós daríamos conta de nos reerguer e quem quisesse fazer parte disso, seria muito bem-vindo!
Graças a Deus, muitos concordaram em continuar sob nossa demanda de projetos, muitos de nossos funcionários eram expert no que servíamos, e dessa forma fomos prestigiados com a boa ação de cada investidor.
Nossos funcionários foram informados de que nesse ano, infelizmente, não haveriam bônus e nenhum tipo de benefício além de seus salários, e alguns cogitaram desistir. Eu dei um prazo para a desistência deles, afinal de contas o mercado é um caos, mas como nossa empresa tinha um nome gigante, qualquer um ali, com esse cargo no currículo, conseguiria se salvar. Assim que tudo se normalizasse, faríamos férias intercaladas com viagens pagas, o que incentivou alguns dos bons a não desistirem, afinal de contas, nunca fomos líderes ruins.
Era assustador, os valores eram absurdos, e as contas eram imensas. Algumas de nossas filiais de fora conseguiriam se sustentar por um tempo, mas as novas estavam cogitando fechar as portas e aguardar nossa bela crise ser superada. Tivemos que passar alguns pontos para parceiros.
Meu pai esteve na empresa e em todas as reuniões mas, não falou comigo sobre nada além de trabalho, ele me conhecia bem, sabia que não era hora de fazer as pazes. Eu era como ele, dentre esses momentos de botar o trabalho acima de tudo. Era minha forma de sair da zona de caos familiar. A única coisa que o perturbava era "De onde essa conta de fundos de emergência, surgiu?".
Bom, eu lavava dinheiro com uma empresa falsa em uma das cidades de perto, sempre deu certo, sempre bateu com outros espertalhões com dividas de jogo, que eram casados e queriam seu sigilo. Eu dizia que era uma empresa de acessórios de carro, então não tinham com o que se preocupar, assim como o dinheiro ganho era do seguro de acessórios que foram vendidos e não resistiram aos seus objetivos. Parecia muito simples, mas era um inferno manter a papelada da Secret, assim como muito dinheiro de suborno.
(...)
- Então é isso galera, espero que daqui para frente consigamos nos reestabelecer e manter a ordem! - Terminamos a reunião e voltei ao meu escritório.
Papéis e números para serem avaliados, preenchidos e assinados.
-Toc toc... -A voz de Paul ecoou.
-Hey, ainda está por aqui? - Era tarde da noite.
-Estou sim, vim como acionista. Meu pai está uma fera com tudo o que está acontecendo, mas o convenci a não vender ações. - Falou se aproximando de minha mesa.
-Muito obrigada pelo apoio, eu não sei como chegamos a esse ponto. Era uma pessoa muito próxima da família, meu pai tinha grande admiração por ele. -Respirei fundo enquanto guardava os papéis na gaveta da mesa.
- Eu imagino a frustração, a traição sempre é assim, nunca vem de quem nós esperamos. -Falou se sentando no sofá da sala de centro.
Caminhei até o outro lado e me deitei no sofá de lado, o encarando seriamente.
- Você comeu alguma coisa hoje? -Perguntou preocupado.
- Comi sim, belisquei algumas barrinhas aqui na sala. - Sorri.
- Você sabe o que eu tô perguntando, sabe? Comida de verdade? -Riu.
- Em semanas como essa, e dias como o de hoje, não existe tempo para muita coisa, principalmente comer... - Me virei encarando o teto.
- Bom, eu vou parar de cobrar você dessas coisas. Só saiba que me importo, e fico preocupado. Ainda mais quando consigo sentir cheiro de álcool vindo de você, a essa distância.
- Ah, isso é que eu tomei agora, antes de você entrar. Bom, estou fora do horário de serviço, e não estou causando transtornos a ninguém.
- Mesmo assim, barrinhas e uísque não vão te tornar mais qualificada.
- Você está sendo resmungão. - O encarei de novo. Que ódio dessa carinha de preocupação.
- Olha, eu não quero te encher com isso. Mas, estou aqui pra tudo o que precisar. Tipo um gênio da lâmpada. - Sorriu.
- Então eu tenho 3 desejos?
- Você tem 3 desejos? - Me olhou malicioso.
Não consegui responder a ele e apenas me voltei para olhar para cima, como uma adolescente.
-Eu me sinto acabada. Sinto que estou envelhecendo mais rápido com tantos problemas. Faz tempo desde que tirei férias, e agora parece um sonho distante. -Tapei o rosto com as mãos.
Ficamos em silêncio por um bom tempo, até que senti sua mão tocar a minha. Ele estava sentado na mesinha de centro, olhava para mim com preocupação e admiração, tocava em algum lugar do meu coração que eu não sabia o que era.
- Vamos fugir? - Ele riu.
- Eu gostaria, mas não tenho coragem. - Notei seu rosto se aproximar lentamente.
- Encontrei algo aqui... -Ele dizia isso sempre que me beijava.
-Paul, eu não acho que é uma boa... -Ele beijou minha testa, em um gesto gentil me fazendo calar rapidamente.
-Eu sei que seu coração já não me pertence. Mas, o meu sempre será seu. Mesmo que eu encontre alguém no futuro que eu ame muito, você sempre vai ser meu primeiro amor. Assim como o senhor Wang é o seu... -Ele sorriu.
-Como você sabe?
-Nunca te vi olhar ou sorrir tão inocente, como uma criança, olhando para alguém. E é assim que me sinto quando olho pra você. -Ele pareceu mais triste ao proferir essas palavras.
-Sinto muito! - Sorri fraco.
-Tudo bem, você nunca me fez m*l, é isso o que importa. Estamos juntos na parte do trabalho, então é bom eu me acostumar. - Sorriu forçado.
-Jamais faria nada na sua frente.
-Obrigado, Olga! - Eu o abracei apertado, e ouvi um barulho na porta que nos fez olhar no mesmo instante.
Era Deshi, com uma sacola de comida nos olhando abraçados e com cara de sem graça.
-Eu... volto outra hora....
- Não há necessidade, nossa conversa terminou. -Paul falou se levantando rapidamente e indo em direção a porta.
-Paul, obrigada por tudo! -Falei me despedindo.
-Não tem de quê! -Sorriu, apertou a mão de Deshi e saiu pela porta.
-Sério, eu poderia voltar depois. -falou Wang vindo até mim, colocando a comida em cima da mesinha e me encarando um tanto quanto sério.
-O que há? - Sorri
-Não sabia que estavam tendo momentos juntos. -Ele piscou repetidas vezes, estava pensativo.
-Nós não estávamos tendo esse tipo de momento. -Eu sorri.
-Eu não preciso saber.
-Está com ciúmes? - Ri o olhando.
-Olha, eu não tenho mais idade para sentir ciúmes! -Parecia estar irritado.
-Você ainda é jovem, para de falar bobagens.
- Falando em momentos, eu preciso conversar com você, sobre nosso casamento, e eu tô falando bem sério! -Gelou meu coração em segundos.
-Precisamos cancelar esse acordo! -Me sentia na obrigação de o fazer livre.
-Eu não quero cancelar esse acordo, a não ser que você queira! - Sorriu. Ótimo, pois, eu também não queria!!!!!