Katarina Alexander
Bato o pé impaciente dentro do elevador suspirando com a visão do caos estabelecido dentro do apartamento, dizem que existe algo r**m dentro de cada homem em decorrência do primeiro pecado, alguns são capazes de esconder outros se deixam se corromper. Por um momento fugaz fico dividida entre a beleza da destruição e a loucura desse lugar.
Então consigo enxergar o homem quebrado por baixo da fachada de demônio, cada pedaço de vidro quebrado pela sala em contraste com a alma quebrada do irmão mais velho, meu escudo uma torre pronta para manter suas princesas seguras. Dentre os vários erros cometidos por Giácomo nenhum deles foi capaz de diminuir a dor compartilhada que sinto ao vê-lo tão fora de si.
Adentrei no apartamento com calma, ignorando o medo crescendo pela espinha com o olhar de reconhecimento do Giuseppe, continuo caminhando em direção aquela alma que precisa de mim, que precisa de algo para retomar a consciência e vestir o seu terno de homem da máfia. Quando pronuncio seu nome vejo a chama se acendendo junto com a compreensão passando pelos seus olhos e no fundo a dor corroendo cada traço do homem.
Em tantos anos, sempre observei cada um dos três montando os personagens perfeitos cumprindo suas obrigações com honra, servindo a organização mesmo que isso significasse colocar a própria vida em risco. As palavras saltaram do meu coração pelo simples desejo em ver o homem real, por debaixo das encenações ser amado como merece.
Consegui convencê-lo a sentar comigo no chão, admirei cada uma das fotos destruídas tomando consciência da complexidade da obsessão que Diana falou, em cada um dos retratos uma Giulia diferente, festas da organização, momentos no jardim ou na janela da grande mansão dos De Angelis. Puxei o corpo imenso na minha direção o obrigando a deitar a cabeça no colo, antes que a minha própria raiva tentasse tomar o lugar, segurei em seus cabelos escuros fazendo um carinho lento, ignorando a conversa tensa entre Theo, Jackson e Giuseppe, o homem que fez de tudo para proteger uma inocente. Mas a realidade para mim é que pouco importa como Giulia se sente, meu irmão fez sua escolha anos atrás e nesse momento Beatrice é a prioridade.
Nem sempre a família de sangue cumpre seu papel em ser uma rede de apoio, em ser seguro o suficiente para acolher as nossas dores e só eu sei como as escolhas de Giácomo enfraqueceram um elo que deveria ser forte como aço.
Mesmo que sua obsessão fale mais alto e qualquer coisa que exista no seu coração por essa mulher possa causar um empecilho aos nossos planos, esse é o verdadeiro motivo para estar aqui no chão com os dedos entrelaçados aos fios macios.
Continuar o movimento das peças quando a Rainha não pode reger.
— Soube que jogou o lixo fora. — Puxei um assunto diferente
— Quem disse?
— Jack — Confesso, a presença do soldado ao nosso lado no carro jamais impediria uma simples troca de olhar.
E os sacos de lixo espalhados pelas calçadas de Fort George pareciam mais atrativos do que o trânsito para o meu irmão sarcástico.
As ondas de raiva percorrendo o corpo musculoso cheio de pequenos cortes causados pelos vidros, completamente quente provavelmente aquecido pelo ódio, um contraste claro com o frio doloroso da madrugada entrando pela varanda sem portas.
Ergo os olhos para os homens que se afastam discutindo alheios ao nosso momento.
— Você se esforça demais para manter a aparência de uma boa família. — Falo com calma lembrando com detalhes das atitudes do nosso pai.
Minhas lembranças infantis sempre se mesclando com a cena montada por Giacomo para criar e educar duas meninas dentro das obrigações da organização, assumindo papel de pai, lugar do homem que deveria proteger suas princesas. Existe um termo na psicologia, em que os cientistas estudam o comportamento humano com base nas relações parentais, honestamente, somos apenas reflexos dos nossos genitores.
A maldade incrustada como uma capa espessa de gordura nas nossas almas, já vieram de fábrica e o meio, só se encarregou de alimentar os monstros.
— Alguns de nós precisam se iludir com um comercial de margarina para ter pelo que lutar.
Sou pega desprevenida pelo comentário áspero.
O passado gira rapidamente nos pensamentos com o homem que deveria ser meu pai se infiltrando pela madrugada em passos calmos no quarto com os toques provocando arrepios pela minha pele até a madrugada, aquela madrugada em que Giacomo entrou no quarto impedindo os planos dele, tomando o meu lugar.
Com a mesma força que guardei essas dores durante anos, Salvatore em poucos meses de casamento foi capaz de despertá-los e criar novos monstros no meio dos meus sonhos, roubando a minha paz e a pouca sanidade.
— Irmão, nós não precisamos mais disso. — Traço o caminho da sua barba com tranquilidade tentando confortar o homem machucado, o adolescente quebrado de joelhos ao pé da minha cama.
— Vocês não, mas preciso de algo para me segurar pequena.
Sinto o ardor das lágrimas se formando com a confissão sussurrada, uma declaração de fraqueza em meio ao grande homem.
A dor em saber que ele precisa criar e idealizar uma família que nunca existiu para ter um motivo pelo qual se manter vivo, dói muito mais do que qualquer tortura dos últimos anos.
Dói ao lembrar que me protegeu se entregando aquele monstro e mesmo com a certeza da morte dele, as lembranças não se apagam assim. Ele foi marcado, molestado e usado, para os objetivos de Antônio e Donatella, entretanto pintou um grande enredo para aguentar viver com a dor, se perdendo dentro dos próprios ensinamentos do nosso pai.
Um camaleão com tantas personalidades que nem consegue reconhecer a si mesmo, não sabe quem é. Imaginei que com a ideia do casamento poderia mudar algo, criar algo dentro dele, mas tudo que consigo enxergar são as peças quebradas.
Busco as palavras, com a boca seca pela tristeza organizando os pensamentos, a revelação de Jack ao falar com frieza da noiva de Gia sendo tomada pelos próprios irmãos, mesmo que o vídeo possa mostrar uma aceitação algo brilha dentro do meu âmago acusando não ser assim. A verdade é que ela foi escolhida não só por ser a obsessão de Giácomo, mas por ser o principal alvo para desestabilizar os irmãos De Angelis, sinto uma dor profunda pelas dores do que a princesa da máfia sofre, entretanto, acima dela está a minha própria irmã.
E eu....
Eu ...
Ao contrário de Giácomo, jamais, abriria mão da proteção de Beatrice por qualquer outra pessoa, incapaz de coloca-la em perigo prefiro abrir mão do próprio coração.
E esse...
Esse é o castigo do meu t**o irmão...
A minha própria e pequena vingança por ter machucado a outra metade da minha alma com suas escolhas tolas.
Se confirmando pela lembrança dos olhos da minha gêmea brilhando ao enxergar aquele nome na lista de solteiras da organização, ela sabia ou imaginava, o pior de tudo é constatar a manipulação em convencê-lo a casar com Giulia pelos nossos interesses, mas foi só a união do útil ao agradável.
Giácomo sempre soube que seria necessária a morte de um dos grandes capos para ter a chance de se tornar uma escolha, para se tornar o candidato perfeito a marido dentro da organização, cobiçado pelas mães das mulheres solteiras. Para infelicidade dele, os pais de Giulia foram mortos pelos próprios filhos homens, Vicenzo e Giovanni orquestraram de maneira perfeita para assumirem a segurança da irmã.
Como sempre as melhores mentiras se baseiam em uma verdade sólida, principalmente contra homens desconfiados ou cegos pelo desejo.
A obsessão de Gia, os pedaços destroçados do nosso irmão e uma garota completamente quebrada, tanto quanto ele. Um motivo para ir de contra ao que foi ensinado na iniciação, mais um motivo para quebrar a honra, puxei o ar com força, Diana tem um objetivo, corromper nossos irmãos das suas crenças dentro da famiglia e em nenhum momento pensou nas consequências ou na dor que pode causar neles.
Montou o tabuleiro e jogou as peças.
Queria poder dizer que não entendo, que não concordo conforme as horas foram se passando pela madrugada no apartamento frio pelo aquecedor quebrado, velei o sono da minha muralha, pesando cada uma das consequências, cada uma das opções e todas as dores. Foi por isso que quando o sol nasceu, fechei os olhos abraçando as cicatrizes que ainda sangram dentro do peito.
Nós não somos gêmeas apenas pela aparência e mesmo que Diana tente me proteger ela não pode negar, somos metades da mesma moeda.
Analiso os olhares dos homens que finalmente apareceram com alguns copos de café, despertando Gia, encolho diante do olhar carinhoso estampado no rosto do soldado de confiança de Antônio.
É como se ele não tivesse palavras para expressar o que a descoberta da minha ‘não’ morte significa, Giuseppe sempre esteve lá, mas nunca próximo o suficiente para entender os horrores da casa dos Costello, acenei com um sorriso curto para ele, agradecendo pelo café da manhã e sob os olhares atentos.
— Gia. — Chamei
Os olhos escuros repletos pela dor e pela escuridão se abriram para o novo amanhecer, sabia que as palavras da noite anterior o ajudaram a criar e tomar uma decisão, mas não é apenas isso que quero, preciso ter a certeza de que essa vingança seja a única droga a corromper nossas almas e se para isso precisarei sacrificar Giulia no caminho, que seja.
Continuei com ao ter a certeza da sua atenção.
— Aquela mulher foi moldada por dois monstros, ela sabe lidar com a escuridão, consuma ela com a sua e a traga para o nosso lado.
— E se ela os escolher de novo? — A insegurança na sua voz ainda estava lá junto com o medo da rejeição.
Coloquei o café no chão ficando de joelhos segurando o queixo marcado pela barba áspera nascendo, os olhos fundos pela noite m*l dormida encarando a jaula na qual o monstro se esconde em mais um amanhecer.
— Corte as asas daquele belo anjo, Giácomo, lembra do que lhe disse no apartamento. — Parei analisando a compreensão dos seus olhos. — Ela não espera um bom homem, faça ela amar o pior em você, às vezes dói ser tirado da comodidade, irmão.
O brilho da certeza brilhou na escuridão como uma declaração clara, o anjo dos seus sonhos em breve se tornará um anjo caído, como todos nós.
Fui incapaz de esconder um sorriso quando o celular brilhou com a mensagem dela pedindo para ser salva sem imaginar que o d***o sempre exige algo em troca.