Infância

1668 Words
Bianca – Aos Cinco Anos Corro atravessando o gramado apressada com os pés formigando, e as bochechas doendo pela risada contida, pelos fundos da casa consigo vê-lo passando algo no carro como de costume, parando ao notar a minha aproximação afoita erguendo uma sobrancelha ao manter o semblante rígido, o blazer do terno de grife que mamãe nos fez aprender a diferenciar para saber os valores estava jogado numa banqueta como senão custasse caro. Os fios escuros molhados e a camisa social marcada com o colete cinza por cima, achei engraçado não estar usando o suspensório que sempre reclama com Hunter ao não o ver usando. — O que está aprontando Bianca? A sua voz reverberou como uma trovoada fazendo os meus passos estancarem, olhei para os dedos dos pés buscando controlar a respiração olhando para grama, ergui a cabeça renovando as forças dando mais dois passos em sua direção ganhando total atenção, falei sussurrando de forma conspiratória. — Giuseppe pode me ajudar a esconder da Beatrice? — Questionei quase perfeitamente, mesmo sabendo que a professora provavelmente é capaz de achar um erro na frase. Ele não respondeu com palavras, apenas apontou para trás do carro, o soldado responsável por nossa segurança parece ser o único que se importa conosco. Corro dando a volta, agachando perto da placa do carro colocando a mão sobre a boca para cobrir os risos e não ser descoberta. Ela não demora muito para chegar, tinha consciência dos meus atos era sempre assim, unidas em tudo, escutei o bufar irritado e as batidas do pé contra o piso, provavelmente fazendo uma pose para exigir respostas do homem. — Giuseppe, mio amico, por acaso viu Bianca? - As palavras educadas saindo com facilidade, ela é a mais inteligente de nós, capaz de arrancar até elogios da professora de etiqueta. — Senhorita Beatrice, não a vi. Apertei um pouco mais a mão contra a boca segurando a risadinha, abaixei um pouco mais o corpo conseguindo ver as pernas longas cobertas pela calça social de corte reto e os sapatos lustrados encobrindo perfeitamente a minha localização. — Senhorita, o que tem escondido nas costas? Já sabia o que era, caminhei devagarinho para trás apoiando o pé com cuidado sobre a caixa de ferramentas para alcançar a gaveta tremendo pelo barulho que provavelmente me entregaria. — Ora Giuseppe, como posso dizer se está acobertando minha irmã? Esse era o sinal, puxei a gaveta no mesmo instante que o estalo alto do carro se fez ouvir junto com o alarme que logo foi desligado. — Beatrice, acabei de polir o carro dessa dai! Essa era sua voz de aviso a qual sempre obedecemos, ou quase sempre, comprimi os lábios puxando a caixa de chocolates para fora, agarrando como se estivesse abraçando Stuart meu urso de pelúcia. Desci da caixa de ferramentas fazendo um pouquinho de barulho, atraindo a atenção do homem que logo percebeu a gaveta aberta arregalando os olhos. — Bianca! Antes que pudesse dizer mais alguma coisa virei correndo pelo outro lado do carro escutando seus gritos furiosos enquanto Beatrice ria sem parar usando a arma carregada com água, a mesma que ele nos deu essa semana, o deixando sem reação pelos únicos segundos que precisávamos. Olhei para trás e ela já estava pulando de cima do carro correndo com tudo na minha direção, enquanto Giuseppe demorou uns cinco segundos para se recuperar e começar a correr atrás de nós. Entramos pela entrada principal, minha irmã parou ofegante arrastando os pés sujos de lama por todo piso, entendi o recado e fiz o mesmo, logo voltamos a correr pela casa limpando os pés no tapete vermelho que a professora sempre faz questão de falar que pertenceu a algum rei bobo. — Suas diabinhas — Rimos juntas do grito que reverberou pela casa. Dobramos no corredor chegando à cozinha, arregalando os olhos ao dar de cara com Lúcia e as mãos na cintura em cima do avental, ela abriu a porta da dispensa indicando uma prateleira alta, cerrando os olhos com os lábios torcidos disse: — Quero um chocolate desses, e eu nunca vi as duas. Rimos balançando a cabeça entrando dentro da dispensa usando uma escadinha para subir, até o local vago, espremi o corpo contra a parede fria puxando minha irmã pela mão, fazendo silêncio até com medo da respiração. — Aquelas Diabinhas pegaram a caixa de chocolates Lúcia e tenho certeza que ainda nem almoçaram. Foi possível escutar a chateação na voz dele, fiquei com o coração um pouco apertado, apertei a mão de Beatrice, sabia que ela estava se sentindo do mesmo modo, nossos olhares se encontraram e logo se voltaram para a caixa cheia, abrimos um sorriso em conjunto sabendo que a culpa fora ignorada. — É claro que elas ainda não almoçaram, não vê que ainda estou preparando a massa. — A cozinheira respondeu firme o irmão. — Além disso, avisei para colocar os chocolates em outro lugar. — As pestinhas conseguiram me enganar. — Abafamos o riso cobrindo a boca uma da outra. — Per Dio, elas crescem rápido demais. — Elas aprontam do mesmo jeito. — Mesmo com a voz baixa escutei Lúcia. — Elas têm a quem sair. — Pare com isso irmã e me ajude a achar as duas antes que devorem aquela caixa de chocolates. Diante da fala indignada dele, escutamos a risada dela em resposta. — Um homem da máfia enganado por duas garotinhas de cinco anos, deveria b*******a foto dessa sua cara. — Ah sorella ­— Gritou revoltado. — Elas têm a quem sair — Respondeu rindo. Não saímos do esconderijo, apenas abrimos a caixa de chocolates separando dois para Lúcia e começamos a comer a sobremesa antes do almoço. ♦ Fecho e abro as mãos buscando controlar a respiração enquanto os olhos atentos de Giussepe analisam cada detalhe da minha aparência. — Padrinho... — Theodoro volta a ser Frank murmurando com uma voz entristecida. — Tem noção do quanto sua irmã tem chorado todos os dias acreditando na sua morte, Frank? — O velho soldado assume aquele tom de voz capaz de fazer-nos curvar os ombros. Desvio o olhar deles dois querendo diminuir a sensação de estar errada, poucas coisas nos últimos anos foram capazes de desestabilizar o personagem que criei para sobreviver dentro do mundo da máfia. Mas o olhar desolado de Guiseppe como se tivesse falhado em algum momento conosco, consegue atormentar os pensamentos daquela garotinha de cinco anos que corria no gramado verde da grande mansão segurando um urso. — Sabe o que preciso fazer, padrinho. — Frank carrega um tom de tormento em sua voz. O soldado leal acena com a cabeça como se ainda estivesse pensando em uma resposta, nossos olhares se encontram outra vez e com a dor que vejo brilhando na íris verde, ele dá um passo a frente deixando o afilhado segurar seus braços para trás e o arrastar pela cozinha até chegarmos na sala destruída. Giácomo com um brilho c***l no olhar estava ponderando no próximo passo, seguir os planos como Beatrice gostaria ou se atirar no fogo pela garota quebrada, quando ergueu a cabeça, notei a decisão que havia tomado nos poucos minutos e em silêncio iniciei uma pequena prece. Com alguns raios de sol iluminando o apartamento como aquela cena na qual Deus salva Constantine do d***o. Jackson se manteve calado a um passo de distância, qualquer palavra que tenha dito foi somente para os ouvidos dos dois soldados, sua postura quase relaxada com o tornozelo cruzado pode até parecer livre de qualquer maldade, mas é a mão próxima demais a cintura, local em que prende sua adaga, que faz o meu coração palpitar. Uma palavra, uma frase, uma ordem do mais velho entre nós e a vida de alguém que amei como um pai será jogada no cemitério dos nossos sacrifícios para manter a família intacta e unida. — Jackson, dê um jeito de apagar todas as câmeras da mansão De Angelis. —Sua voz sai grave e incontestável — Giuseppe você vem comigo, Theo e Katarina, sigam para o apartamento, quando Diana aparecer, avise que teremos uma mudança de planos. Aceno em silêncio sem questionar nada, desejando que a prece que fiz minutos atrás seja atendida e Giuseppe continue vivo. Encaro o olhar tenso de Frank, dando um breve aceno para o soldado que tenho como um pai, antes de sair caminhando com os ombros levemente virados para a frente, exibindo pela primeira vez em anos a tensão que carrego presa entre os ombros e o pescoço. O efeito que espero chega tão rápido quanto o elevador de serviço da cobertura, é o calor da mão de dedos longos aquecendo meu ombro. — Não se preocupe tanto com eles, seus irmãos são homens feitos. — A voz grave tão próxima chega fazer minha pele arrepiar. Paro de andar, deixando Frank ficar ainda mais próximo, seu olhar furtivo até mesmo um pouco preocupado, aumenta a minha libido. O mundo da minha família está por um único fio de se partir e todos os planos da Beatrice podem ir por água a baixo essa noite e ainda assim, só consigo pensar no desejo que sinto. — É impossível não ficar preocupada. — Abaixo o rosto fingindo uma dor que não sinto aproveitando a chegada do elevador. — Agora, você como está com esse encontro com o seu padrinho? Ergo os olhos para ele, sua postura caída e o homem tão forte derrotado por sentimentos tão simples, sentimentos que considero banais. O amor é algo inexistente dentro do que fui criada para ser, ter e viver. — Sinto que o decepcionei, mas já sabia que um dia isso iria acontecer. Aproveito o momento para dar um passo a frente envolvendo a cintura larga com as minhas mãos e deitando a cabeça sob seu peitoral. O problema é o maldito elevador que chega rápido demais, Frank ou Theo decide segurar minha mão e voltamos para o apartamento em silêncio dentro do carro.
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