Pesadelo e presente

1683 Words
Sinto o suor escorrendo no canto da testa, a respiração forte causa tremores nas minhas pernas preciso conseguir fazer isso, é tão simples, Beatrice consegue, encontro o seu olhar do outro lado da sala, sentada no sofá. Temos essa coisa que gostamos de chamar de super poder das gêmeas, nesse momento ela está enviando força para continuar, sim, ela acredita em mim e como sei disso? Porque ela é a minha melhor amiga. Pisco afastando as lágrimas que desejam escapar, inspiro fundo mantendo o queixo erguido e dou outro passo, solto o ar e dou o segundo passo, o toque estridente do telefone me assusta e acabo paralisando ao notar que o meu pé escapou para fora da faixa branca. Não quero olhar para o lado, sei o que vai acontecer, por isso fecho os olhos esperando, mas fico surpresa quando sinto o toque e encontro os lindos olhos escuros da nossa mãe. Seu sorriso por um momento acalma o turbilhão que se passa na minha mente. — Bianca, o que lhe ensinei? — Sua voz suave é como uma carícia. — Uma dama precisa andar corretamente. Ela abre um sorriso ainda maior, é uma regra da qual não posso esquecer mamãe nos faz repetir antes de dormir. — O que acontece quando não se anda corretamente? — Ela questiona e o tremor retorna as minhas pernas. — Castigo. —Murmuro baixinho, vendo o olhar da minha irmã assustada. — Porque acredita que fechando os olhos não receberá o castigo? — Olho para Beatrice sem saber o que falar e ela acena com a cabeça atraindo a atenção da nossa mãe, mas ao olhar para ela não percebe nada, esse é o sinal, essa é a nossa comunicação silenciosa. Mesmo correndo o risco de ser castigada ela sempre dá um jeitinho, assim, não cometi nenhum deslize a mais, fico calada. Mamãe se ergue, os cabelos dourados caindo por cima dos ombros dando a aparência de uma fada. Caminhando em direção a mesinha que fica no canto da nossa sala de estudos, as nossas coleguinhas tem quartos de brinquedos, mas a mamãe diz que está nos ensinando a ser melhores, maiores. Ela retorna com o cinto na mão, se colocando ao meu lado, sinto as lágrimas se formando antes mesmo do castigo enquanto Beatrice mantém o olhar sobre o cinto, aquele olhar que pedi para não fazer pois me assusta. Ela sente o quanto fico apavorada, então, balança os ombros suspirando alto, atraindo a atenção da nossa mãe, desfaz as pernas cruzadas, mamãe diz que devo seguir o exemplo dela para melhorar as posturas. Logo, minha irmã está caminhando em cima do salto de 5 cm com a graça de uma princesa e apenas essa visão diminui as batidas aceleradas do meu coração. — Beatrice, tem algo a dizer? — Mamãe ergue a sobrancelha em um tom que não aceita desafios. Dessa vez sou eu que tento sinalizar para que ela não faça nada, mas esse é o problema da minha irmã, ela sempre vê os meus pedidos, mas no final faz o que deseja. Sei que ela quer me proteger, mas eu sou a mais velha, não ela. — Bianca não errou o passo. — Diz de forma tranquila. Mamãe abre um sorriso enorme, balançando a mão para que ela continue. — Estive observando o tempo todo, e ela não desviou da faixa em compensação no mesmo momento a senhora desviou sua atenção para o telefone. — Está me chamando de mentirosa Beatrice? — Não sei o que nossa mãe vê que não para de sorrir. — Jamais faria algo assim mamãe, estou dizendo o que aconteceu. Eu errei o passo, sei que errei porque ela faz isso? Não consigo encontrar os seus olhos, não consigo entender o que ela tenta provar. Mamãe se abaixa ficando na nossa altura. — Querida, se esforce um pouco mais, apenas um pouco mais Beatrice. — Mamãe sorriu, traçando a bochecha dela. Quando seus olhos me encontraram novamente estremeci. — Bianca, se sente no sofá. Estremeci com seu tom indo em direção ao sofá, sentando como a dama que mamãe espera recebendo seu olhar de aprovação. Finalmente encontrei os olhos da minha irmã, e por mais estranho que pareça entendi o que fez. Entendi o que planejou antes mesmo do cinto atingir as suas pernas curtas como as minhas, em meio ao estalo do couro contra a sua pele e a forma como ela estava sendo castigada por me defender. Sentada no sofá o sangue começa a manchar o vestido azul delicado criando uma cor estranha no tecido, meu coração acelera, tanto quanto o sangue começando a surgir nas minhas mãos. Ao erguer o olhar buscando por Beatrice encontrei o espelho e vi nos meus próprios olhos aquele mesmo olhar doentio que minha irmã carregava antes de receber uma punição. ♦ Estremeço com a lembrança da infância, é incrível a forma como cair no sono entre os braços do Theo faz com que as lembranças sejam as mais fáceis de lidar. Suspiro escorregando para fora do sofá, usando algo que aquelas aulas ajudaram a ter, habilidade e agilidade em sair sem acordar ninguém. Passos graciosos não fazem som Bianca!. Escuto a sua voz reverberando em meio a escuridão, a dor do cinto queima outra vez, mas a merda desse sonho me alucina, principalmente agora com tantas coisas em jogo. Aquela foi a primeira vez. A primeira vez em que entendi as palavras da minha irmã, ao dizer que não conseguia controlar aquele olhar, ela suspirava e chorava no nosso quarto à noite ou em um dos nossos esconderijos dizendo que queimava dentro do seu coração. Naquela tarde, meu coração também queimou as coisas que se passavam pela minha mente ainda que infantil não deveriam passar pela cabeça de ninguém. Dou a volta na bancada apoiando as mãos contra o mármore escuro da bancada, Beatrice passou dois dias rangendo os dentes com a dor quando se levantava para andar, queria deixá-la na cama, mas não podia. Foi outra lição que aprendi naquela sala e nas consequências dela, finja. Minha irmã pode ter aprendido primeiro, mas eu estava ali ao seu lado aprendendo com ela, ensaiando passos durante a madrugada, em cima do meio fio, buscando a perfeição exigida pela nossa mãe. Demorei para entender o motivo dela ter sido castigada no meu lugar. Um Costello é tão perfeito em suas mentiras que uma pessoa sã, duvidaria da sua sanidade Bianca, se esforce mais. Estremeci engolindo o nó que se formou na minha garganta, solto o ar sentindo a queimação no peito. Esse fogo que nasce do desgosto e se fortalece com o ódio, Beatrice foi castigada naquele dia por ser a p***a de uma espectadora, sempre analisando todos e observando tudo, apanhou, mas no dia seguinte mamãe a colocou em uma aula que dava apenas para os meninos. Queria estar com eles, queria brincar com a minha irmã. Abro um sorriso curto, era apenas uma brincadeira para Beatrice sempre era, por mais que estivesse sempre um passo à frente ela gostava de estar um passo atrás. Se não tinha ninguém em casa, então me convencia a brincar de "Me faça acreditar". Eu nunca consegui ganhar, mas todos os dias ela tentava, minha irmã sempre estava me puxando para dentro do ciclo. Para dentro da nossa irmandade de irmãos fodidos. Ainda lembro como foi saboroso o dia em que consegui fazer alguém acreditar. — Pesadelos? — A voz grave repercutiu, trazendo a realidade de volta. — Você não gritou, mas está com a mesma feição de quando tem um. Observei as feições curiosas do homem, puxando o ar com força por ter sido pega em um momento desprevenido virando em direção a pia e pegando dois copos, os coloquei na bancada e abri a geladeira retirando a garrafa de água, nos servindo. — Foi um sonho não muito bom. Respondi suspirando e tomando um longo gole do líquido, que no momento ao invés de apagar o fogo apenas o alimentou ainda mais. Ele não fez questão de disfarçar a curiosidade e não fiz questão de falar, terminei de beber água voltando para o sofá e ligando a televisão no jornal local. Quem pensa que existe apenas a verdade por cima da mentira, não entende nada do processo. E isso é cômico, uma verdade sempre pode ser uma mentira e "virse e versa", tudo depende da forma como for usada, da maneira como o emissor age ao emitir a mensagem. A p***a de uma aula de elementos da comunicação sempre cai bem. Para se construir uma mentira, precisa de um planejamento que apenas um sociopata consegue formular tão rápido. Deve ser por isso que Beatrice e Giácomo conseguem se manter o tempo todo com um passo à frente. Os dois gostam de brincar com o c*****o da linha da sanidade e às vezes duvido muito que ainda tenham alguma. Dessa forma, restou a mim a segunda opção, uma verdade sempre sendo usada como uma mentira, é fácil, prático e funciona. Uma semana atrás fiz Dragon vir até aqui buscar Beatrice para sair, no dia seguinte sentei na poltrona da sua casa ao lado de Giácomo fingindo que no mesmo dia, ele não havia 'sequestrado' Giulia. Pequenas mentiras, encobertas por uma boa dose de verdade e alguns peões sendo sacrificados. — Não vou me colocar em risco desde que não volte machucado. — Digo reforçando a sua necessidade de me proteger. Escondo o sorriso olhando a forma como ele ergue um lado dos lábios antes de se afastar, com um balde de pipoca se recostando de volta contra o sofá. Ele é um soldado, da máfia é meio óbvio que ele vai voltar machucado seja um arranhão ou um tiro e mesmo passando por todo o treinamento ele olha nos meus olhos e vê uma princesa fora do castelo. Ele recebeu a mensagem, mas não interpretou.... Então, não posso cumprir um acordo quando o mesmo não é válido. Mudo o canal achando um filme do John Wick passando na televisão, empurro o corpo e fico com seu braço cobrindo o ombro.
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