Capítulo 4: A Primeira Faísca

1606 Words
Liam Depois veio a gargalhada – cheia, solta, sem reservas. Uma gargalhada que ocupava espaço. Ela estava rodeada de amigas, provavelmente depois de algum jantar em grupo, mas a energia dela era diferente. Todos pareciam notar a sua presença. Eu também notei. E eu, que geralmente evitava mulheres tão chamativas e extrovertidas, encontrei-me inexplicavelmente atraído por ela. Por algo mais do que apenas a aparência. Bebi o meu whisky, mantendo-me no canto do bar, mas sem conseguir desviar os olhos. Algo nela puxava-me, como se tivesse um magnetismo próprio. Bryan percebeu e fez questão de me incentivar a ir até ela. Devia? Há quanto tempo não me envolvia com alguém? A minha vida tinha mudado muito nos últimos meses, e parecia que qualquer distração seria bem-vinda. Então, os nossos olhares cruzaram-se. O que aconteceu em seguida foi imediato: uma tensão carregada de algo indescritível. Nenhum de nós desviou o olhar. Ficámos assim, a medir-nos à distância, sem palavras, sem gestos. Apenas os olhos a sustentarem uma promessa silenciosa. O tempo pareceu suspenso até que uma das suas amigas a puxou para fora do meu campo de visão. Minutos depois, vi-a afastar-se do grupo. Um homem interceptou-a rapidamente, claramente interessado, e tocou-lhe na cintura. O gesto foi casual, mas algo na forma como ele se inclinou para falar com ela fez-me franzir o sobrolho. Ela não pareceu incomodada. Mas eu fiquei. Observei cada movimento, incapaz de desviar os olhos. Ela sorriu. Disse algo ao homem, e seja lá o que foi, ele recuou rapidamente, parecendo surpreendido – ou intimidado. Isso despertou ainda mais a minha curiosidade. O que raio lhe tinha dito? Antes que pudesse questionar mais, vi-a seguir na direção oposta ao grupo. Não sei bem em que momento me levantei do meu lugar. Apenas dei por mim a segui-la, os meus passos calculados, mas guiados por algo irracional. Ela saiu por uma porta de correr para uma varanda ao ar livre. Parou ali, respirando fundo, absorvendo a noite. E eu parei também. Fiquei a alguns passos de distância, observando-a. Ela ainda não me tinha visto. Ou, talvez, estivesse a fingir que não tinha. A postura dela era relaxada, mas havia algo naquela presença… algo que me fazia querer ficar ali, simplesmente a observá-la. O tempo deslizou. Ela continuou de costas para mim, como se estivesse a absorver a paisagem, mas eu sentia. Ela sabia que eu estava ali. E então, finalmente, virou-se. Os seus olhos verdes prenderam-se aos meus. Desceram pelo meu corpo, avaliando-me com a mesma calma e intensidade com que eu a avaliara antes. Havia um desafio ali. Um jogo silencioso. Não sei por que motivo senti necessidade de quebrá-lo primeiro. “A minha cara é aqui em cima.” A minha voz soou baixa, mas carregada de um tom provocador. Ela estava a olhar-me da mesma forma que eu a tinha olhado minutos antes. E a única resposta que encontrei para aquilo foi desafiá-la. Ela sorriu. Um sorriso lento, enigmático, cheio de significado. “Ia chegar aí… eventualmente.” A resposta dela fez-me perder o foco por um instante. E eu não perdia o foco facilmente. Os olhos dela mantiveram-se nos meus. Seguros, controlados. Mas havia algo ali, algo por trás daquela postura despreocupada. Um instinto primitivo dentro de mim reconheceu aquilo. E eu soube que ela era um problema. Um problema para o qual, naquela noite, não quis procurar solução. “Olá.” A palavra escapou num impulso, um som rouco que não consegui conter. O desejo já se instalava no meu corpo, insidioso, impossível de ignorar. “Liam Harper.” Apresentei-me, estendendo a mão num gesto que tentava parecer casual, mas que, na verdade, era tudo menos isso. “Olá.” O sorriso dela surgiu primeiro nos olhos e só depois nos lábios. Algo na sua postura mudou – relaxou, como se já estivesse à vontade comigo. Quando aceitou a minha mão, o contacto foi breve, mas suficiente para um choque percorrer o meu corpo, um prazer inesperado, intenso demais para algo tão simples. “Charlotte.” O nome dela escorregou dos seus lábios como um segredo, mas o olhar que me lançou não tinha nada de inocente. O sorriso que me dirigiu era mais do que sedutor; era uma promessa, uma armadilha bem montada. Esta mulher mexia comigo. E depois, sem aviso, a pergunta. “Beijas bem, Liam?” A minha mente parou. A pergunta caiu sobre mim como um murro no estômago. Direta, ousada e absolutamente desconcertante. Por um segundo, não consegui reagir. O que raio se responde a algo assim? As palavras dela eram uma armadilha, mas o verdadeiro perigo estava no facto de eu não ter a certeza se queria fugir… ou cair de cabeça. Ela avançou. Cada passo dela foi um ato de domínio silencioso. Como uma leoa a encurtar a distância para a presa, sem pressa, mas com uma certeza inegável. E eu fiquei ali, completamente imóvel. A observar. A antecipar. Quando parou, estava perto demais. O suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo irradiar para o meu, como uma corrente elétrica prestes a incendiar tudo. Os olhos dela não saíam dos meus. Não havia hesitação ali. Havia desafio. Como se quisesse ver até onde eu aguentava antes de quebrar. A tensão entre nós tornou-se cortante. E qualquer tentativa de manter o controlo já era inútil. Os braços dela rodearam o meu pescoço, e o perfume que emanava da sua pele envolveu-me num golpe final. Acabou-se. Não hesitei mais. Os meus lábios encontraram os dela com urgência, devorando-os como se toda a espera tivesse sido insuportável. E talvez tivesse. As minhas mãos deslizaram pelo corpo dela, puxando-a para mim com uma intensidade que não tentei esconder. Não havia espaço para arrependimento ou contenção. Apenas o momento. Apenas desejo puro. O sabor do álcool nos seus lábios misturava-se à suavidade da sua boca deliciosa. Por um instante, o pensamento racional tentou infiltrar-se. Era o álcool que lhe dava essa ousadia? Talvez. Mas, mesmo com essa perceção, não consegui afastar-me. Não queria. Não conseguia. Ela era fogo. E eu estava a deixar-me consumir. Empurrei-a contra a parede, não com brutalidade, mas com uma necessidade crua e descontrolada. A minha boca não deu trégua à dela. O beijo intensificou-se, mais profundo, mais urgente. As minhas mãos exploraram o corpo dela como se quisessem memorizar cada curva, cada contorno. E então, senti as mãos dela fazerem o mesmo. Movendo-se sobre mim com uma lentidão desconcertante. Ela não tinha pressa. E isso apenas intensificava tudo. Eu estava desesperado. Ela, não. Ela saboreava cada momento, como se estivesse a saborear o próprio controlo. E isso deixava-me ainda mais rendido. Perdi a noção de onde estávamos. Tudo o resto desapareceu. O mundo desvanecia-se, como se só existíssemos nós dois, presos num vórtice de desejo insaciável. A minha mão desceu lentamente, explorando cada curva do corpo dela, até ao centro, por cima do vestido. E então senti. A forma como ela reagiu instantaneamente ao meu toque, o corpo arqueando-se contra o meu, procurando mais, querendo mais. Queria dar-lhe mais. Precisava de dar-lhe mais. Ela era uma chama viva, e eu, um homem à beira de ser consumido pelo fogo que ardia entre nós. As minhas mãos deslizaram sob o vestido, explorando sem hesitação, até encontrarem o calor dela. Suavidade. Húmido. Pronto. Senti o corpo dela estremecer. A respiração ficou mais irregular. O desejo dela era palpável. Quando introduzi um dedo, ela deixou escapar um gemido baixo, a cabeça inclinando-se contra a parede. Movi-me devagar, provocando-a com toques certeiros, ritmados, testando os seus limites. Os sons que ela fazia... Misturavam-se com a música distante do clube, mas a única melodia que importava era a dela. O meu nome nos lábios dela. O seu corpo a render-se ao meu toque. A minha boca alternava entre os seus lábios e o pescoço, explorando cada pedaço de pele quente e arrepiada. Saboreei-a como um homem faminto. Ela puxava-me para mais perto, os dedos enterrados nos meus cabelos, as unhas arranhando ligeiramente a minha pele, como se tentasse fundir-se comigo. E eu estava prestes a cruzar um limite do qual não havia volta. De repente, ouvi um barulho ao longe. Ignorei-o no início, demasiado perdido no corpo dela, no calor dela, mas quando algo bateu com força na porta da varanda, o momento foi arrancado de nós. Ergui-me de imediato, o instinto de proteção a falar mais alto, colocando-a atrás de mim sem sequer pensar. Abri a porta. O caos tinha-se instalado no clube. Dois homens lutavam violentamente, corpos a colidirem com brutalidade, enquanto outras pessoas corriam em todas as direções, tentando escapar do tumulto. O som abafado da música misturava-se com gritos, passos apressados, vidro a partir-se algures. A confusão crescia como uma tempestade, e a minha mente já tentava calcular a melhor saída dali. Os meus olhos procuraram Bryan no meio da multidão. Quando finalmente o avistei, afastado da confusão, senti um alívio momentâneo. Mas ao virar-me para trás, o meu coração falhou um batimento. Ela tinha desaparecido. O furacão ruivo, que segundos antes estava nos meus braços, já não estava ali. Olhei em volta, os sentidos em alerta, o desejo substituído por frustração. Como raio tinha ela escapado tão rápido? Mas ela tinha desaparecido. Como uma sombra. E deixou-me ali. Deixou-me com a pele ainda a queimar do toque dela, o gosto dela na minha boca, e uma sensação absurda de vazio. E agora, passados mais de três meses, ela estava ali à minha frente com o meu filho no colo. Mantive a expressão séria, gélida, recusando-me a deixar qualquer emoção escapar. Mas por dentro…? Por dentro, o caos tinha voltado.
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