Charlotte
À medida que os pais foram chegando para buscar as crianças, o número de pequenos na escola começou a diminuir. O choro incessante do início do dia deu lugar a despedidas animadas, algumas acompanhadas de abraços apressados, outras com relutância infantil e lágrimas de última hora. Quando restavam apenas alguns, deixei Grace com eles na sala e fui tratar das burocracias. Não demorou muito para que a minha paciência começasse a esgotar-se. Com o início do ano letivo à porta, seria de esperar que estivesse tudo organizado… mas claro que não.
Abri o computador do gabinete de Melissa e comecei a procurar. Nada. Nenhum planeamento feito. Nenhuma estrutura preparada. Suspirei, sentindo a frustração crescer. Peguei no telemóvel e liguei-lhe.
"Tens o planeamento feito ou não?" perguntei, sem rodeios.
Houve um longo silêncio antes de Melissa finalmente responder: "Não."
Franzi os lábios. "Tens aí o do ano passado."
Revirei os olhos. "Pensei que fosses mais profissional, Melissa." As palavras saíram antes que conseguisse contê-las, mas nem tentei pedir desculpa.
"Charlotte! Eu…" começou, mas não estava com disposição para ouvir desculpas esfarrapadas. Desliguei rapidamente, tentando manter o foco no que precisava ser feito.
Trabalhar com crianças era a minha paixão, mas lidar com a incompetência de certos adultos? Isso já era outra conversa. Peguei no telemóvel para verificar mensagens e vi uma de Emily. Ia jantar na casa de Ethan e provavelmente dormir lá. Sorri ao ler, mas uma pequena preocupação surgiu. Só espero que ela não se magoe. Pelo que parecia, os dois queriam coisas bem diferentes.
Voltei minha atenção para o computador, planejando verificar o plano letivo do ano anterior para adaptá-lo ao novo ano. Precisava agendar as reuniões com os pais, que geralmente eram feitas em grupo, exceto em casos específicos onde julgasse necessário um encontro individual. Estava prestes a começar quando Grace apareceu na porta do gabinete, trazendo Zane pela mão.
"Charlotte, só faltam os pais do Zane virem buscá-lo," disse ela. "Podes ficar um pouco com ele? Preciso buscar a Millie também."
"Claro, Grace," respondi com um sorriso. Millie era a filha adolescente de Grace, mas acho que nunca a tinha conhecido. "Anda cá, pequenino," chamei Zane com gentileza.
Ele veio timidamente para perto de mim, e eu o peguei ao colo, sentando-o comigo na cadeira da secretária. Não resisti e dei-lhe um abraço apertado. Grace sorriu ao ver a cena, despediu-se rapidamente e saiu.
Com Zane ali, sentado comigo, tornou-se impossível continuar qualquer trabalho. Ele encostou a cabeça no meu ombro, segurando o seu livro com firmeza, como se aquilo fosse o seu tesouro mais valioso. Suspirei, aceitando que o plano letivo teria de esperar.
"Bem, Zane," sussurrei suavemente, acariciando os caracóis dourados do seu cabelo. "Parece que vamos passar um tempinho juntos, só nós dois."
Ele aconchegou-se mais nos meus braços, e eu segui pelo corredor, carregando-o com cuidado.
Estava a meio do caminho para a sala dos meninos de três anos quando o vi.
Parei no instante.
Ele estava ali, a poucos metros de distância, e parecia que todo o espaço ao redor diminuía apenas para destacá-lo. A presença dele tinha peso.
Cabelos pretos como a noite, olhos igualmente escuros que percorriam cada detalhe com precisão. O olhar dele era intenso, atento, como se pudesse perscrutar tudo ao seu redor sem esforço.
Alto. Ombros largos. Postura rígida e impecável. Exalava mistério e autoridade.
O ar ao redor parecia carregar tensão, como se a sua simples presença fosse suficiente para silenciar qualquer conversa ou desviar todos os olhares. E, de alguma forma, foi exatamente isso que aconteceu.
Então, os seus olhos negros encontraram os meus.
Senti-me presa naquele olhar por um breve instante. Avaliada. Analisada.
O deus nórdico.
O choque percorreu-me como um raio. Mesmo que naquela noite no clube eu tivesse bebido, não havia espaço para dúvidas. Reconhecia-o imediatamente.
Cada traço do rosto, a postura firme, aquele olhar cortante que parecia atravessar-me.
A garganta secou.
"Zane."
A voz dele era profunda e controlada, carregando uma serenidade que contrastava com a seriedade da sua expressão.
Foi então que percebi. Ele era o pai de Zane.
O meu coração deu um salto, e um pensamento desconfortável atravessou-me como uma faca afiada. Raios. Envolvi-me com um homem casado.
Senti o estômago revirar, mas mantive a expressão neutra. Ajustei Zane nos meus braços, tentando parecer profissional enquanto a surpresa ainda borbulhava dentro de mim. Como se sentisse a tensão no ar, ele agarrou-se mais ao meu pescoço, os pequenos braços apertando-me com força, como se quisesse desaparecer dentro de mim.
O homem à minha frente ficou imóvel por um instante. Houve uma breve mudança na expressão dele – um vislumbre de algo que desapareceu tão depressa que quase achei que tivesse imaginado.
"É o pai de Zane?" consegui perguntar, lutando para manter a voz estável.
Se ele me reconhecia, não o demonstrou. Talvez eu também devesse fingir que aquela noite nunca aconteceu.
Zane apertou-se ainda mais contra mim, o rosto escondido no meu ombro, como se aquele simples movimento pudesse protegê-lo de algo invisível.
O homem manteve o olhar fixo em mim, intenso e avaliador, mas não deu qualquer sinal de reconhecimento.
"Sim, sou o pai dele." A resposta foi curta, direta, acompanhada de uma expressão séria e indecifrável.
Ele estendeu os braços, esperando que Zane viesse até ele, mas o pequeno não se moveu. Pelo contrário, os seus bracinhos apertaram-me com mais força, como se quisesse deixar bem claro que não ia a lado nenhum.
"Zane." A voz dele soou firme, mas sem dureza. Era um tom calculado, sereno, carregado de uma calma que parecia ensaiada. Transmitia autoridade sem ser agressivo, mas naquele momento, não surtiu qualquer efeito.
"Está tudo bem," sussurrei para Zane, afagando-lhe as costas numa tentativa de o acalmar. Ele permaneceu agarrado ao meu pescoço, o rosto escondido como se quisesse desaparecer do mundo.
Levantei o olhar para o homem à minha frente e, esforçando-me para manter um tom profissional, acrescentei:
"Às vezes, eles só precisam de um tempinho."
A tensão entre nós era quase palpável, preenchendo o espaço como uma corrente invisível que apertava o ar ao redor. Ele não disse nada. Apenas assentiu, os olhos negros fixos nos meus.
Por um momento, perguntei-me o que lhe passava pela cabeça.
Mordi o lábio, reprimindo o impulso de falar algo que não devia.
O silêncio prolongou-se entre nós, carregado de algo indefinível. Então, ele ajustou ligeiramente a postura, um movimento pequeno, mas carregado de intenção, como se estivesse prestes a dizer algo importante.
Liam
Reconheci-a antes mesmo de ela me ver.
Estava com o meu filho nos braços, segurando-o com uma naturalidade desconcertante, como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo. O meu peito apertou ao vê-lo agarrado a ela daquela maneira. Comigo, Zane sempre foi mais reservado, mais distante. E eu compreendia porquê.
Os caracóis ruivos dela caíam sobre os ombros, e a luz da tarde parecia dançar em torno deles, destacando cada detalhe do rosto que me parecia tão familiar. Aquela mulher. Aquela presença inegável, impossível de ignorar.
O corpo dela parecia desenhado para provocar reações – e eu sabia disso. Tinha aprendido isso da pior forma.
Lembrei-me da primeira vez que a vi. No clube. Inesquecível.
Eu nunca ia àqueles lugares, mas Bryan insistiu naquela noite, como se soubesse que algo inesperado aconteceria. E aconteceu.
Será que ela me reconheceu?
Naquela noite, percebi que tinha bebido. Não sou homem de me aproveitar de situações assim, mas ela… Ela era puro fogo. Determinada, selvagem, e completamente irresistível.
E eu? Eu deixei.
Deixei-a puxar-me, deixei-me perder naquele desejo repentino e intenso. Por um momento, abandonei todo o controlo que sempre me definiu.
Agora, o destino parecia rir-se de mim.
Ela estava ali, segurando o meu filho nos braços, enquanto uma onda de memórias e desejo me atingia em cheio.