REBECA
O Vidigal não dorme, nunca.
Mesmo quando começa a chover forte e as vielas viram rios, mesmo quando tudo parece calmo demais... ainda tem barulho. Aqui o silêncio grita. E eu já me acostumnei com isso. Os sons, os passos, os gritos abafados, tudo. Parece que virou parte de mim.
Meu nome é Rebeca.
Tenho vinte anos e uma vida inteira no morro.
Meu pai sumiu quando eu era pequena, envolvido numas coisas com uns caras perigosos — tinha a ver com veneno. Desde então, minha mãe aprendeu a engolir o choro e minha irmã, a rir pra não chorar. Cresci no meio dessa bagunça toda, tentando me virar.
Hoje em dia, eu vendo quentinha na entrada da comunidade. Acordo bem cedo, antes do sol, e começo a rotina: panela no fogo, marmita na mão e pensamento longe. Às vezes, penso no que poderia ser diferente. Mas aí volto pro chão de novo. E é nesse chão que ele pisa.
Felipe, ou Veneno, como a galera chama.
O dono do morro. O cara que manda em tudo aqui. Ele tem aquela postura de quem sabe que o mundo gira ao redor dele. A primeira vez que vi ele de verdade foi num dia qualquer. Tava ali, encostado num carrão preto, fumando devagar, com aquele olhar que atravessa tudo. Sério... parecia cena de filme.
Falam que ele é frio.
Que não pensa duas vezes antes de mandar alguém pro saco. Que tem o demônio na alma e uma arma no pensamento. Mas naquele dia... naquele segundo em que nossos olhos se cruzaram, eu não vi nada disso. Eu vi calor. Um calor estranho, que começou no peito e se espalhou. De tão nervosa, deixei a quentinha cair no chão.
E ele? Só abaixou, pegou, me entregou de volta e soltou um "cuidado aí", com a voz rouca e um sorrisinho de canto que parecia carregar pecado.
Eu sabia que era cilada. Mas meu coração nem quis saber.
Desde então, ele vive passando por mim.
Sempre com o mesmo olhar enigmático. Sempre com aquela cara de quem tá se divertindo vendo o mundo queimar. E eu? Finjo que tô nem aí. Que não espero ele passar. Que não fico tentando entender o que ele quer.
Mas hoje... hoje foi diferente.
Ele parou.
Na minha frente. Me encarou como se quisesse enxergar tudo que eu escondo.
— Tu mora aqui há quanto tempo? — ele soltou, com aquela voz baixa, perigosa.
— Desde sempre. — respondi, tentando parecer forte.
— Nunca te vi antes.
— Talvez porque você só olha pro que te interessa. — joguei de volta.
Ele deu um sorriso lento, daqueles que bagunçam tudo por dentro.
— E se agora você for o que me interessa?
Aí pronto.
Foi ali que começou.
No meio da confusão, da minha rotina cansada, no coração do morro... ele me viu.
E eu, que já tava cansada de passar despercebida, deixei me verem.
Talvez... só talvez... eu tenha deixado esse fogo acender.