Capítulo 3 - A Cor do Pecado

1605 Words
A costureira chegou às onze, pontual como a ameaça. Trazia alfinetes nos lábios e respeito nos gestos. A estilista falava pouco, mas anotava muito. Medidas de tudo que podia ser medido sem indecência. Tecido roçando pele, fita passando pela cintura, pela coxa, por cima da clavícula. — Postura — a estilista dizia, sustentando o decote com as mãos. — Queixo um pouco mais alto. Ele gosta de mulheres que sabem onde está o teto. — Ele gosta de mulheres sobre as quais pode levantar o teto — Sophia retrucou. — É um teto que paga contas — a mulher respondeu, sem ironia. Quando as duas foram embora, a mesa do closet estava coberta de opções que ela não escolhera. Perfumes que não eram seus, uma clutch tão pequena que não caberia nem um sim. Sophia empurrou tudo para o canto, irritada com a própria curiosidade. O telefone vibrou novamente. Mensagem. "Às 18h, o motorista toca. Se não abrir, eu entro." Não havia emoticon que traduzisse aquilo. Na hora do almoço, chegaram caixas térmicas com etiqueta de restaurante caro. Catherine forçou sopa, e Sophia aceitou duas colheradas para que a mãe parasse de tremer. Richard não apareceu. Talvez estivesse no escritório, contando pecados sozinho. Às quinze, Bianca voltou, sozinha desta vez. Trouxe um livro fino. — Italiano básico — avisou. — O senhor Romano prefere que você entenda as ordens que não foram dadas diretamente. — Ele tem medo de segredos? — Tem alergia. Sentaram-se na sala de música, ironia número dois do dia. Aprenderam "sim", "não", "pare", "venha", "fique". Verbos que cabiam numa coleira. — Diga "eu entendo" — Bianca pediu. — Io capisco. — "Eu não pertenço a você." — Io non... appartengo... a te. Bianca olhou para ela por cima do livro. O canto da boca moveu um milímetro. — Bonito de ouvir. Perigoso de dizer. — Vai anotar? — Anoto o que faz diferença. E o que é bonito. — E o que é meu? — O que é seu, Sophia, ninguém anota. Se perde. A aula acabou às dezesseis e cinquenta e cinco. Tempo suficiente para um banho. Sophia entrou no chuveiro como quem entra numa igreja: pedindo absolvição por pensar o que não devia. A água caiu quente no couro cabeludo, desceu pelas costas, trouxe uma paz emprestada. Tocou o pescoço e, por um instante, imaginou o colar. A placa na garganta como um contrato. A mão no metal. A mão dele. Saiu do boxe irritada com a própria cabeça. Enrolou-se na toalha, secou o cabelo no limite do prático, vestiu o vestido vermelho porque recusar seria ceder de jeito menor. Ajustou o tecido nos ombros, alisou a saia. Olhou-se no espelho. Parecia outra mulher. Ou a mesma, só que do lado de fora. Catherine entrou sem bater. Parou na porta, a mão na boca. — Você está... — procurou a palavra e achou um sinônimo de medo — linda. — É uma armadura — Sophia disse. — Vermelha? — Para o touro. A campainha tocou às dezoito em ponto. Nico já estava no hall. Sophia pegou a clutch vazia, olhou de relance para o colar sobre a cômoda e, num impulso que ela mesma não soube explicar, prendeu a corrente no pescoço. O metal gelado pousou sobre a pele quente como um arrepio bem comportado. — Vamos? — perguntou a si mesma e ao mundo. Desceu os degraus com o queixo no ângulo que a estilista aprovara. O motorista aguardava com a porta aberta. O carro era preto, claro. O interior cheirava a couro e a decisões tomadas por outros. O trajeto até o endereço enviado passou por ruas que Sophia conhecia de olhos fechados. Hoje, todas pareciam novas. As pessoas caminhavam, riam, carregavam sacolas. Ninguém olhava para o carro. Talvez porque a cidade já tivesse visto tudo. Ou porque a invisibilidade de quem detém poder é parte do próprio poder. O prédio de Lorenzo ficava no alto, com vista para o mar e para a própria importância. O elevador subiu sem barulho. Quando as portas se abriram, havia outro mundo: mármore escuro, luz baixa, silêncio de caixa-forte. Um corredor curto levava a um salão que parecia capa de revista. Uma parede inteira de vidro. E, diante dela, Lorenzo Romano. Ele usava preto. Claro. O terno caía com a inevitabilidade de uma lei. As mãos nos bolsos, o corpo relaxado o suficiente para enganar, a cabeça ligeiramente inclinada como quem escuta música. Quando ela entrou, virou-se. E, por um segundo, a cidade inteira desapareceu do outro lado do vidro. — Principessa. — Senhor Romano. Ele caminhou até ela, devagar, um caçador que respeita o ritual do primeiro passo. Parou tão perto que o perfume dele encontrou o perfume dela e brigaram no ar. — O vermelho — falou, a voz um elogio em linguagem de comando. — É uma cor honesta. — Honestidade não é sua reputação. — Tenho muitas reputações. Escolha a que mais te assusta. — A que faz sentido — ela retrucou. Os olhos dele desceram até a placa no pescoço. Brilharam. — Vejo que gostou do presente. — Gosto de lembrar por conta própria a quem digo não. — "Não" é uma palavra linda em sua boca. Vai ficar ainda mais linda quando eu te ensinar o "sim". Ela deu um passo para trás, o suficiente para respirar. — Que horas acaba essa encenação? — Quando você parar de fingir que é encenação. Ele estendeu a mão, sem tocar. — Venha. — Para onde? — Para a parte em que você para de tremer sozinha e começa a tremer comigo. — Não tremo. — Treme — respondeu, e um meio sorriso apareceu, predador satisfeito. — E eu adoro. Levantou a mão outra vez, agora um pouco mais próximo. Os dedos tocaram, de leve, o metal na garganta dela. Não houve força. Houve uma pergunta sem palavras. Sophia não recuou. O toque desceu um centímetro, dois, parou na clavícula, subiu como quem devolve o que pegou emprestado. — Hoje, jantar. Conversa. Regras — disse, retirando a mão, cortando o fio invisível. — Amanhã, treino. Depois de amanhã, escolhas. — Escolhas? — Liberdade vigiada ou cárcere protegido. Você decide o nome. Eu decido as paredes. — Você é um monstro. — Sou o homem que vai mantê-la viva. E, se me deixar, feliz. Ela riu do jeito que se ri diante de uma tempestade: de puro nervo. — Você acha que felicidade é algo que se arranca à força. — Acho que é algo que se oferece. E se aceita — respondeu, e, por um instante, não pareceu monstruoso. Pareceu apenas um homem acostumado a vencer. Um garçom apareceu do nada, porque homens como ele têm garçons que aparecem do nada. Colocou duas taças sobre o aparador. O vinho tinha a cor do vestido dela. Lorenzo pegou uma, estendeu a outra. — Às três semanas. — Ao fim delas. As taças bateram com um som pequeno que pareceu grande. Sophia levou o copo aos lábios, e o vinho mordeu de leve antes de acariciar. O coração seguia fora de compasso, mas agora parecia música. Lorenzo inclinou-se para dizer algo, e o interfone do hall tocou. Ele não desviou os olhos. O som ecoou de novo, insistente como fome. Por fim, afastou-se um passo, pressionou um botão no bolso. A voz de Bianca saiu por um alto-falante discreto. — Chegou o documento, senhor. — Qual? — O que pediu para hoje. A... autorização. Ele fez um som breve que poderia ser aprovação. — Traga. Sophia pousou a taça, devagar. — Autorização para quê? Lorenzo observou-a como quem mede prumo antes de bater o martelo. — Para alterar o contrato de seu pai. E criar o seu. — O meu? — A partir de agora, cada visita sua cancela um pagamento. Cada obediência, um perdão. Cada fuga, uma punição. Ela sentiu o chão mudar um grau. — Você transformou minha vida numa planilha. — Melhor que num obituário. Ele deu meio passo, outra vez. Não encostou. Não precisou. — Começamos agora — disse, suave e perigoso. — Diga "sim", principessa. Ela abriu a boca. O "não" veio com pressa. Esbarrou em algo no caminho. — Eu... A campainha do apartamento tocou, cortando a frase. Nico ergueu-se do sofá do hall como um mecanismo. A porta se abriu. Bianca entrou com um envelope preto e o colocou no aparador. Lorenzo não olhou para ela. Continuou olhando para Sophia, como se o mundo tivesse se reduzido a um centímetro de sua pele. — Diga — insistiu, a voz no ponto exato entre ordem e convite. O coração dela batia em lugares que não sabia possuir. A garganta pesava um pouco sob o metal. A cidade, do outro lado do vidro, respirava. — Não — disse. O sorriso que apareceu foi lento. Não de derrota. De promessa. — Então vou ter que tentar de novo. Ele pegou o envelope sem desviar os olhos. Rasgou a ponta com o polegar. Tirou dois papéis de dentro. Assinou um. Empurrou o outro em direção a ela. — Leia depois do jantar. — O que é? — Um adiantamento do destino. Ela abriu a boca para outra provocação. Não saiu nada. O mundo ficou quase quieto. Quase. Porque, ao fundo, do interfone, a voz de Bianca voltou, bem baixa, quase pedindo licença para existir. — Senhor... a imprensa viu o carro. Querem saber se é oficial. Lorenzo não virou o rosto. Mas o que disse não foi só para ela. Foi para o mundo que insistia em ouvir. — Ainda não. — E então, apenas para Sophia, mais baixo, mais perto do que devia: — Amanhã.
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