A costureira chegou às onze, pontual como a ameaça. Trazia alfinetes nos lábios e respeito nos gestos. A estilista falava pouco, mas anotava muito. Medidas de tudo que podia ser medido sem indecência. Tecido roçando pele, fita passando pela cintura, pela coxa, por cima da clavícula.
— Postura — a estilista dizia, sustentando o decote com as mãos. — Queixo um pouco mais alto. Ele gosta de mulheres que sabem onde está o teto.
— Ele gosta de mulheres sobre as quais pode levantar o teto — Sophia retrucou.
— É um teto que paga contas — a mulher respondeu, sem ironia.
Quando as duas foram embora, a mesa do closet estava coberta de opções que ela não escolhera. Perfumes que não eram seus, uma clutch tão pequena que não caberia nem um sim. Sophia empurrou tudo para o canto, irritada com a própria curiosidade.
O telefone vibrou novamente. Mensagem.
"Às 18h, o motorista toca. Se não abrir, eu entro."
Não havia emoticon que traduzisse aquilo.
Na hora do almoço, chegaram caixas térmicas com etiqueta de restaurante caro. Catherine forçou sopa, e Sophia aceitou duas colheradas para que a mãe parasse de tremer. Richard não apareceu. Talvez estivesse no escritório, contando pecados sozinho.
Às quinze, Bianca voltou, sozinha desta vez. Trouxe um livro fino.
— Italiano básico — avisou. — O senhor Romano prefere que você entenda as ordens que não foram dadas diretamente.
— Ele tem medo de segredos?
— Tem alergia.
Sentaram-se na sala de música, ironia número dois do dia. Aprenderam "sim", "não", "pare", "venha", "fique". Verbos que cabiam numa coleira.
— Diga "eu entendo" — Bianca pediu.
— Io capisco.
— "Eu não pertenço a você."
— Io non... appartengo... a te.
Bianca olhou para ela por cima do livro. O canto da boca moveu um milímetro.
— Bonito de ouvir. Perigoso de dizer.
— Vai anotar?
— Anoto o que faz diferença. E o que é bonito.
— E o que é meu?
— O que é seu, Sophia, ninguém anota. Se perde.
A aula acabou às dezesseis e cinquenta e cinco. Tempo suficiente para um banho. Sophia entrou no chuveiro como quem entra numa igreja: pedindo absolvição por pensar o que não devia. A água caiu quente no couro cabeludo, desceu pelas costas, trouxe uma paz emprestada. Tocou o pescoço e, por um instante, imaginou o colar. A placa na garganta como um contrato. A mão no metal. A mão dele.
Saiu do boxe irritada com a própria cabeça. Enrolou-se na toalha, secou o cabelo no limite do prático, vestiu o vestido vermelho porque recusar seria ceder de jeito menor. Ajustou o tecido nos ombros, alisou a saia. Olhou-se no espelho. Parecia outra mulher. Ou a mesma, só que do lado de fora.
Catherine entrou sem bater. Parou na porta, a mão na boca.
— Você está... — procurou a palavra e achou um sinônimo de medo — linda.
— É uma armadura — Sophia disse.
— Vermelha?
— Para o touro.
A campainha tocou às dezoito em ponto. Nico já estava no hall. Sophia pegou a clutch vazia, olhou de relance para o colar sobre a cômoda e, num impulso que ela mesma não soube explicar, prendeu a corrente no pescoço. O metal gelado pousou sobre a pele quente como um arrepio bem comportado.
— Vamos? — perguntou a si mesma e ao mundo.
Desceu os degraus com o queixo no ângulo que a estilista aprovara. O motorista aguardava com a porta aberta. O carro era preto, claro. O interior cheirava a couro e a decisões tomadas por outros.
O trajeto até o endereço enviado passou por ruas que Sophia conhecia de olhos fechados. Hoje, todas pareciam novas. As pessoas caminhavam, riam, carregavam sacolas. Ninguém olhava para o carro. Talvez porque a cidade já tivesse visto tudo. Ou porque a invisibilidade de quem detém poder é parte do próprio poder.
O prédio de Lorenzo ficava no alto, com vista para o mar e para a própria importância. O elevador subiu sem barulho. Quando as portas se abriram, havia outro mundo: mármore escuro, luz baixa, silêncio de caixa-forte. Um corredor curto levava a um salão que parecia capa de revista. Uma parede inteira de vidro. E, diante dela, Lorenzo Romano.
Ele usava preto. Claro. O terno caía com a inevitabilidade de uma lei. As mãos nos bolsos, o corpo relaxado o suficiente para enganar, a cabeça ligeiramente inclinada como quem escuta música. Quando ela entrou, virou-se. E, por um segundo, a cidade inteira desapareceu do outro lado do vidro.
— Principessa.
— Senhor Romano.
Ele caminhou até ela, devagar, um caçador que respeita o ritual do primeiro passo. Parou tão perto que o perfume dele encontrou o perfume dela e brigaram no ar.
— O vermelho — falou, a voz um elogio em linguagem de comando. — É uma cor honesta.
— Honestidade não é sua reputação.
— Tenho muitas reputações. Escolha a que mais te assusta.
— A que faz sentido — ela retrucou.
Os olhos dele desceram até a placa no pescoço. Brilharam.
— Vejo que gostou do presente.
— Gosto de lembrar por conta própria a quem digo não.
— "Não" é uma palavra linda em sua boca. Vai ficar ainda mais linda quando eu te ensinar o "sim".
Ela deu um passo para trás, o suficiente para respirar.
— Que horas acaba essa encenação?
— Quando você parar de fingir que é encenação.
Ele estendeu a mão, sem tocar.
— Venha.
— Para onde?
— Para a parte em que você para de tremer sozinha e começa a tremer comigo.
— Não tremo.
— Treme — respondeu, e um meio sorriso apareceu, predador satisfeito. — E eu adoro.
Levantou a mão outra vez, agora um pouco mais próximo. Os dedos tocaram, de leve, o metal na garganta dela. Não houve força. Houve uma pergunta sem palavras. Sophia não recuou. O toque desceu um centímetro, dois, parou na clavícula, subiu como quem devolve o que pegou emprestado.
— Hoje, jantar. Conversa. Regras — disse, retirando a mão, cortando o fio invisível. — Amanhã, treino. Depois de amanhã, escolhas.
— Escolhas?
— Liberdade vigiada ou cárcere protegido. Você decide o nome. Eu decido as paredes.
— Você é um monstro.
— Sou o homem que vai mantê-la viva. E, se me deixar, feliz.
Ela riu do jeito que se ri diante de uma tempestade: de puro nervo.
— Você acha que felicidade é algo que se arranca à força.
— Acho que é algo que se oferece. E se aceita — respondeu, e, por um instante, não pareceu monstruoso. Pareceu apenas um homem acostumado a vencer.
Um garçom apareceu do nada, porque homens como ele têm garçons que aparecem do nada. Colocou duas taças sobre o aparador. O vinho tinha a cor do vestido dela. Lorenzo pegou uma, estendeu a outra.
— Às três semanas.
— Ao fim delas.
As taças bateram com um som pequeno que pareceu grande. Sophia levou o copo aos lábios, e o vinho mordeu de leve antes de acariciar. O coração seguia fora de compasso, mas agora parecia música.
Lorenzo inclinou-se para dizer algo, e o interfone do hall tocou. Ele não desviou os olhos. O som ecoou de novo, insistente como fome. Por fim, afastou-se um passo, pressionou um botão no bolso. A voz de Bianca saiu por um alto-falante discreto.
— Chegou o documento, senhor.
— Qual?
— O que pediu para hoje. A... autorização.
Ele fez um som breve que poderia ser aprovação.
— Traga.
Sophia pousou a taça, devagar.
— Autorização para quê?
Lorenzo observou-a como quem mede prumo antes de bater o martelo.
— Para alterar o contrato de seu pai. E criar o seu.
— O meu?
— A partir de agora, cada visita sua cancela um pagamento. Cada obediência, um perdão. Cada fuga, uma punição.
Ela sentiu o chão mudar um grau.
— Você transformou minha vida numa planilha.
— Melhor que num obituário.
Ele deu meio passo, outra vez. Não encostou. Não precisou.
— Começamos agora — disse, suave e perigoso. — Diga "sim", principessa.
Ela abriu a boca. O "não" veio com pressa. Esbarrou em algo no caminho.
— Eu...
A campainha do apartamento tocou, cortando a frase. Nico ergueu-se do sofá do hall como um mecanismo. A porta se abriu. Bianca entrou com um envelope preto e o colocou no aparador. Lorenzo não olhou para ela. Continuou olhando para Sophia, como se o mundo tivesse se reduzido a um centímetro de sua pele.
— Diga — insistiu, a voz no ponto exato entre ordem e convite.
O coração dela batia em lugares que não sabia possuir. A garganta pesava um pouco sob o metal. A cidade, do outro lado do vidro, respirava.
— Não — disse.
O sorriso que apareceu foi lento. Não de derrota. De promessa.
— Então vou ter que tentar de novo.
Ele pegou o envelope sem desviar os olhos. Rasgou a ponta com o polegar. Tirou dois papéis de dentro. Assinou um. Empurrou o outro em direção a ela.
— Leia depois do jantar.
— O que é?
— Um adiantamento do destino.
Ela abriu a boca para outra provocação. Não saiu nada. O mundo ficou quase quieto. Quase. Porque, ao fundo, do interfone, a voz de Bianca voltou, bem baixa, quase pedindo licença para existir.
— Senhor... a imprensa viu o carro. Querem saber se é oficial.
Lorenzo não virou o rosto. Mas o que disse não foi só para ela. Foi para o mundo que insistia em ouvir.
— Ainda não. — E então, apenas para Sophia, mais baixo, mais perto do que devia: — Amanhã.