Capítulo 4 - Ensaio para o Inferno

2023 Words
Sophia passou o dia inteiro observando o relógio, como se pudesse retardar o tempo através da força de vontade. Cada tique era uma gota de chuva numa janela, escorrendo inevitavelmente em direção ao fim. Catherine havia tentado conversar durante o almoço, mas as palavras morriam entre elas como flores cortadas — bonitas por um momento, depois murchas e inúteis. Às dezoito e trinta, começou a se arrumar. Não porque queria, mas porque a alternativa era ser arrancada da cama em camisola — e Lorenzo Romano era capaz disso e muito mais. O vestido vermelho estava estendido sobre a cama como uma confissão de pecados ainda não cometidos. Sophia o vestiu devagar, sentindo cada fibra do tecido deslizar sobre a pele como promessa e ameaça. O decote era um convite perigoso, a saia abraçava os quadris como mãos possessivas. Era o tipo de vestido que uma mulher usava quando queria ser lembrada. Ou quando não tinha escolha senão ser inesquecível. Aplicou batom vermelho — da mesma cor do vestido, da mesma cor do vinho que beberia, da mesma cor do sangue que sentia pulsando nas têmporas. Os cabelos caíam em ondas sobre os ombros nus, moldura dourada para um rosto que tentava esconder o medo atrás de uma máscara de desafio. O colar — aquela maldita placa com a letra "R" — descansava contra a clavícula como marca de propriedade. Ela havia tentado tirá-lo três vezes. Três vezes suas mãos hesitaram, como se o metal tivesse se fundido à pele. O carro preto estacionou diante da mansão Bennett exatamente às dezenove horas, pontual como morte marcada. O som do motor ainda vibrava no ar quando Nico emergiu da escuridão e abriu a porta dos fundos. — Senhorita, o Don espera. Sophia quase riu. O Don. Como se Lorenzo Romano fosse mais título que homem, mais lenda que carne e osso. Mas as mãos dela tremiam enquanto pegava a clutch dourada, e o riso morreu na garganta como animal ferido. — Claro que espera — murmurou, mais para si mesma que para Nico. O trajeto através de Boston foi silencioso como procissão fúnebre. As luzes da cidade passavam pela janela tingida, criando padrões hipnóticos que não conseguiam distraí-la do destino. Sophia observava as pessoas nas calçadas — casais caminhando de mãos dadas, famílias voltando do trabalho, jovens rindo em grupos — e se perguntava como era viver sem que cada respiração fosse contada, cada movimento medido, cada escolha uma ilusão. O endereço no papel não indicava restaurante caro como da primeira vez. Era um palacete no alto da cidade — propriedade privada, vigiada, isolada do mundo como fortaleza medieval adaptada para os tempos modernos. Os muros eram altos demais para ser escalados, os portões grossos demais para ser arrombados. Até o vento parecia pedir permissão antes de passar pelos jardins perfeitamente organizados. Quando o carro parou, Sophia sentiu o peso do momento descer sobre os ombros como manto de chumbo. Este seria o último jantar antes do casamento. A última vez que se sentaria diante dele como Sophia Bennett. Amanhã, seria outra pessoa completamente. A entrada do palacete era imponente — colunas de mármore sustentavam um teto alto decorado com afrescos que contavam histórias de conquistas antigas. Cada detalhe gritava poder, dinheiro, influência acumulada através de gerações que sabiam pegar o que queriam e manter o que pegavam. Dentro, o silêncio era quase sagrado. Mármore e cristal refletiam luzes douradas de lustre que parecia ter sido roubado de algum palácio europeu. Os tapetes absorviam qualquer som de passos, criando uma atmosfera onde cada palavra ecoaria como decreto imperial. Havia apenas uma mesa posta no centro de um salão imenso — uma ilha de i********e forçada num oceano de espaço vazio. Uma mesa para dois, decorada com rosas vermelhas e velas que projetavam sombras dançantes nas paredes. Cristais de Baccarat capturavam a luz e a devolviam em fragmentos coloridos. Pratas antigas refletiam rostos distorcidos. Guardas ficavam discretos perto das portas, sombras obedientes vestidas de preto que fingiam ser invisíveis mas cujos olhares nunca perdiam um movimento. Eram homens treinados para m***r sem hesitação, e todos eles respondiam a uma única voz. Ele já a esperava. Lorenzo levantou-se quando ela entrou, movimento fluido como predador que ouviu a aproximação da presa. O terno escuro estava moldado ao corpo como armadura feita sob medida por alfaiate que entendia a diferença entre vestir um homem e criar uma obra de arte. Cada linha enfatizava a largura dos ombros, a estreiteza da cintura, o poder contido nos músculos que se moviam sob o tecido caro. A taça de vinho entre os dedos longos capturava a luz dos candelabros, o líquido vermelho escuro como sangue de reis. Quando ele sorriu Sophia sentiu o ar ficar mais rarefeito. — Principessa. — A palavra saiu como saudação e sentença, carregada de promessas que ela não queria entender. — Veio. — Não tive escolha — respondeu, erguendo o queixo numa demonstração de coragem que sentia mais convincente do que realmente era. — Sempre há escolhas — disse ele, o olhar descendo até o colar que ainda carregava no pescoço como marca de propriedade. Os olhos se demoraram ali, possessivos, satisfeitos. — Algumas simplesmente mais inteligentes que outras. Ela se sentou sem pedir convite, segurando o garfo de prata como se fosse adaga pronta para o ataque. A cadeira era confortável demais, almofadada em veludo que abraçava o corpo como convite ao relaxamento — mas Sophia manteve as costas retas, os músculos tensos, pronta para lutar ou fugir a qualquer momento. A refeição veio em silêncio carregado de eletricidade: pratos perfeitos preparados por chef que provavelmente custava mais por mês que a maioria das pessoas ganhava por ano. Aromas sofisticados que deveriam despertar apetite, sabores que ela não conseguiu processar porque o estômago estava fechado em nó apertado. O apetite estava preso em algum lugar entre o coração acelerado e a garganta seca. Lorenzo comia com elegância estudada, cada movimento calculado para mostrar refinamento e controle. De vez em quando, erguia os olhos para observá-la por cima da taça de vinho, e nesses momentos Sophia sentia como se estivesse sendo avaliada, medida, catalogada para uso futuro. — Está nervosa — ele disse entre uma garfada e outra. Não perguntou. Afirmou, como quem conhece os sintomas de cor. — Está acostumado a mulheres que se derretem aos seus pés? — ela retrucou, tentando injetar veneno na voz. — Estou acostumado a mulheres que sabem quando perderam o jogo — disse, cortando um pedaço de carne com precisão cirúrgica. — Você ainda acha que pode ganhar. É... encantador. O vinho queimava na garganta como verdade inconveniente. O olhar dele queimava mais, deixando rastros de fogo em cada lugar que tocava. Sophia bebeu mais vinho do que deveria, tentando criar uma barreira líquida entre a realidade e o que estava sentindo. — Conte-me sobre amanhã — disse, porque o silêncio estava se tornando insuportável. — O que quer saber? — Tudo. Já que aparentemente não tenho voz nas decisões, pelo menos posso saber o que me espera. Lorenzo pousou os talheres e se recostou na cadeira, estudando-a com intensidade que fez a pele dela se arrepiar. — Catedral de Santo Antônio. Dez da manhã. Trezentos convidados — homens que fazem a cidade funcionar, mulheres que sabem manter segredos. Padre que não faz perguntas inconvenientes. Fotógrafos que sabem quais ângulos mostrar. — E depois? — Depois, principessa, você descobre o que significa pertencer a mim completamente. A temperatura do salão pareceu subir dez graus. Sophia apertou o guardanapo de linho até que os nós dos dedos ficaram brancos. Quando o jantar terminou, quando os pratos foram retirados por criados invisíveis e ficaram apenas o vinho e a tensão entre eles, Lorenzo se levantou. Estendeu a mão em convite que soava mais como ordem. — Dance comigo. — Não. — Não é convite. — A calma dele era mais perigosa que qualquer grito. — É ensaio. Sophia hesitou, então cedeu, porque ceder em público era menos humilhante que ser arrastada como criança birrenta. Além disso, havia algo na postura dele que prometia consequências desagradáveis para desobediência. As mãos de Lorenzo envolveram sua cintura com firmeza de quem segura algo que já lhe pertence por direito. O corpo dele se pressionou contra o dela em medida exata — próximo o suficiente para que ela sentisse o calor que emanava através do tecido, longe o bastante para manter a pretensão de civilidade. A música não vinha de orquestra escondida — era som de violino solitário, tocado por músico invisível em algum canto escuro do salão. As notas eram tristes, melancólicas, como lamento por algo perdido para sempre. Era trilha sonora perfeita para um funeral elegante. — Está gelada — Lorenzo murmurou, o hálito quente roçando a orelha dela e criando arrepios que desceram pela espinha como dedos fantasmas. — Mas sei exatamente como aquecê-la. — Nunca vai me ter de verdade — ela sussurrou de volta, tentando injetar convicção em palavras que soavam ocas mesmo para seus próprios ouvidos. Ele riu baixo, som rico e perigoso que vibrou contra o peito dela. — Engano seu, principessa. Amanhã, diante de Deus e de toda a cidade, terá meu sobrenome. E na mesma noite... — a voz desceu para sussurro que era quase caricia — terá meu corpo dentro do seu. O coração dela disparou como animal tentando fugir da jaula do peito. O rosto corou, não de vergonha, mas de raiva misturada com algo que não queria nomear. — Não sou mercadoria — disse entre dentes cerrados. — Não — concordou ele, girando-a com destreza de dançarino experiente, obrigando-a a ceder espaço, a seguir o ritmo que ele ditava. — É muito melhor que isso. É prêmio. A cada volta, Sophia sentia o mundo encolher até restarem apenas os braços fortes que a guiavam, a música triste que contava histórias de perdas inevitáveis, e o cheiro masculino dele — especiarias caras, couro italiano e algo indefinível que cheirava a perigo e promessas sombrias. Quando ele a puxou de volta contra si após um giro, inclinou-se o bastante para que só ela escutasse as palavras: — Hoje é apenas ensaio, principessa. Amanhã, a jaula se fecha para sempre. Os olhos dele brilhavam com promessa obscura que fez o sangue dela esfriar e esquentar ao mesmo tempo. — Vai descobrir o que significa tremer comigo em vez de contra mim. Vai aprender a diferença entre medo e prazer. — A boca dele roçou a concha da orelha dela, quase beijo, quase mordida. — E vai descobrir que seu corpo é muito mais honesto que sua boca. Sophia ergueu o queixo, tentando sufocar o pânico crescente com ironia afiada. — E se eu fugir? E se simplesmente desaparecer antes de amanhã? — Então vai conhecer uma das minhas habilidades favoritas — disse ele, a voz suave como veludo sobre aço. A boca dele roçou a têmpora dela, deixando rastro de calor que contrastava com a frieza das palavras. — E, principessa... eu sempre caço para vencer. Sempre pego o que quero. E sempre mantenho o que é meu. A música terminou, mas ele não a soltou imediatamente. Manteve-a pressionada contra si por mais alguns segundos, tempo suficiente para que ela absorvesse completamente a sensação de estar presa, de ser dominada, de pertencer a alguém contra sua vontade. Apenas quando quis, apenas quando já a havia marcado com presença, voz, silêncio e promessas não cumpridas, Lorenzo permitiu que ela se afastasse. Na porta do palacete, antes de deixá-la voltar para a última noite na casa que fora sua vida inteira, ele se inclinou uma vez mais. Os olhos escuros cravaram-se nos dela como lâminas afiadas. — Descanse bem, esposa — a palavra saiu carregada de possessividade que fez o estômago dela se contrair. — Amanhã o altar espera. E depois... eu espero. Sophia entrou no carro com as pernas bambas, o coração ainda batendo descompassado. Do lado de fora, a cidade seguia seu curso noturno. Do lado de dentro do carro que a levava de volta para a prisão temporária, ela já não era mais só Bennett. Era uma noiva em contagem regressiva para o próprio fim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD