Capítulo 5 – O Casamento de Sangue

1610 Words
A manhã do casamento chegou como um funeral anunciado. Sophia acordou na penumbra do quarto que não era mais seu, envolta em lençóis que cheiravam a rosas e desespero. O vestido pendia do armário como um fantasma de seda, branco demais para ser inocente. Cada conta de pérola bordada parecia um olho que a observava, cada detalhe de renda uma teia delicadamente tecida para prendê-la. Catherine entrou sem fazer ruído, carregando uma bandeja que ninguém tocaria. Os olhos vermelhos da mãe diziam tudo que as palavras não ousavam. Havia chorado a noite inteira — por ela, pela filha que perderia antes mesmo do sol nascer completamente. — O cabelo... — a mãe sussurrou, tocando os fios castanhos de Sophia como se fossem feitos de vidro. — Você quer que eu...? — Não — Sophia respondeu, a voz saindo mais firme que sentia. — Ele decidiu tudo. Que decida isso também. A equipe de preparação chegou às sete, uma invasão silenciosa de profissionais que transformaram o quarto em um set de teatro macabro. Maquiadora, cabeleireira, uma mulher que se apresentou apenas como "assessora de noivas" — como se houvesse manual para esse tipo de união. Ninguém falava sobre amor. Ninguém mencionava felicidade. Trabalhavam em silêncio respeitoso, como quem prepara um cadáver para velório. O cabelo foi penteado em ondas suaves, presas por um véu de três metros que pertencera à avó de Lorenzo. "Tradição", explicou a assessora, mas Sophia ouviu "propriedade". A maquiagem realçava os olhos, tornando-os maiores, mais vulneráveis — exatamente como ele gostava. Quando vestiram o vestido, quando os últimos botões foram abotoados e os últimos ajustes feitos, Sophia se olhou no espelho e viu uma estranha. Uma mulher linda, radiante, que parecia genuinamente feliz por se casar. A mentira era tão perfeita que por um momento ela quase acreditou. O carro que a levaria à catedral aguardava na entrada. Não era o mesmo dos jantares — este era antigo, clássico, decorado com fitas brancas que tremulavam ao vento como bandeiras de rendição. Richard estava ao lado, vestindo um smoking que não usava há anos. O rosto dele parecia ter envelhecido uma década em três semanas. — Sofia... — ele começou quando entraram no carro, a voz quebrada como vidro pisoteado. — Não, pai — ela interrompeu, olhando pela janela. — Não hoje. Talvez nunca. O trajeto até a Catedral de Santo Antônio passou como um filme em câmera lenta. Boston desfilava do lado de fora — pessoas comuns vivendo vidas comuns, alheias ao fato de que ali dentro uma mulher estava sendo levada ao próprio sacrifício vestida de branco. A catedral apareceu no horizonte como uma montanha de pedra e promessas quebradas. Gótica, imponente, com torres que perfuravam o céu como dedos acusadores. Era linda de uma forma que doía, porque Sophia sabia que estava vendo aquela beleza através das lentes de alguém que perdeu a liberdade. Carros pretos ladeavam a entrada. Homens de terno aguardavam como sentinelas, olhares afiados varrendo cada movimento. Não era segurança para uma festa. Era guarda para um negócio importante. As portas da catedral se abriram, e o som do órgão a atingiu como uma onda. As notas graves tremiam pelas paredes centenárias, cobrindo o coração de Sophia em um manto de chumbo. Não era música de casamento. Era réquiem disfarçado de celebração. O vestido branco pesava nos ombros como correntes disfarçadas em seda. Cada passo rumo ao altar seria uma sentença pronunciada em seus próprios pés. Do lado de fora, ela parou. Uma última vez, uma última respiração de mulher livre. O ar tinha gosto de outono e de escolhas que nunca faria. Então, porque não havia alternativa, porque três semanas haviam sido apenas uma contagem regressiva c***l, Sophia Bennett caminhou em direção ao fim de si mesma. As portas imensas de madeira se abriram completamente, e o corredor se estendeu à sua frente — um rio de veludo vermelho ladeado por fileiras de convidados que não sorriam, apenas observavam com a curiosidade fria de quem assiste a um espetáculo. Não eram parentes, nem amigos. Eram homens de negócios, sócios, cúmplices. Todos vestidos de preto como corvos aguardando carniça. Todos com olhos que mediam seu valor como quem avalia obra de arte roubada. Havia mulheres também — poucas, elegantes, com joias que capturavam a luz dos vitrais e a devolviam em reflexos cortantes. Esposas de homens poderosos, que entendiam exatamente o que estava acontecendo ali. Algumas a olhavam com algo que poderia ser simpatia. Outras, com inveja m*l disfarçada. Sophia apertou o buquê de rosas brancas até sentir os espinhos atravessarem a pele através das luvas de renda. O gosto de ferro subiu à boca, metálico e familiar como medo. No altar, ele a esperava. Lorenzo Romano estava ali como se tivesse nascido para aquele momento. O terno era impecável — italiano, obviamente, cortado com precisão cirúrgica para realçar cada linha de seu corpo. A gravata ajustada com crueldade proposital. O cabelo n***o penteado para trás com gel que capturava a luz dourada dos candelabros. O rosto era impassível como mármore, como se aquilo fosse mais uma transação comercial que um casamento. Mas os olhos — escuros como noite sem estrelas, fixos nela com intensidade que queimava — diziam outra coisa completamente. Possessão. Triunfo. Satisfação. Sophia deu um passo. Depois outro. Cada movimento calculado, cada respiração controlada. O som dos saltos ecoava pela nave como marteladas de juiz pronunciando sentença final. Não havia marcha nupcial alegre, apenas o órgão tocando um réquiem lento, pesado, fúnebre — a trilha sonora perfeita para o enterro de Sophia Bennett. A caminhada durou uma eternidade e um segundo. Cada fileira de bancos que passava era uma despedida silenciosa a quem havia sido. Os vitrais projetavam cores sobre seu vestido — azul como tristeza, vermelho como sangue, dourado como a jaula onde viveria dali em diante. Quando finalmente chegou ao altar, quando Richard a entregou com mão trêmula e se afastou como quem foge de crime cometido, Sophia ficou sozinha diante do homem que comprara sua vida. Lorenzo a estudou por um momento que pareceu eterno. Os olhos desceram pelo vestido, subiram até encontrar os dela, e um sorriso mínimo curvou os lábios — não de alegria, mas de conquista. — Você está perfeita, principessa — sussurrou, baixo demais para qualquer ouvido além do dela. — Exatamente como imaginei. O padre surgiu entre eles como sombra — um homem idoso, pequeno, com sotaque italiano carregado que transformava cada palavra em música sombria. Falava sobre união sagrada, sobre votos eternos, sobre honra e fidelidade como se essas palavras tivessem significado ali. — Lorenzo Romano — a voz ecoou pelas abóbadas — aceita Sophia Bennett como esposa legítima, para amá-la e protegê-la, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte os separe? — Aceito — Lorenzo respondeu, a voz firme ecoando pela catedral como declaração de guerra. — Sophia Bennett — o padre se virou para ela — aceita Lorenzo Romano como esposo legítimo, para amá-lo e obedecê-lo, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte os separe? Sophia abriu a boca. O mundo inteiro pareceu pausar, suspenso naquele momento entre liberdade e prisão. Podia dizer não. Podia gritar, correr, causar escândalo. Podia... Mas não podia. Não realmente. Os olhos de Lorenzo encontraram os dela, e neles ela viu lembrança silenciosa: seus pais, a dívida, as consequências de desobediência. — Aceito — disse, e a palavra saiu como último suspiro de mulher livre. O padre sorriu como se testemunhasse milagre em vez de tragédia. — As alianças. Um menino apareceu carregando almofada de veludo vermelho. As alianças eram ouro maciço, gravadas com iniciais entrelaçadas: L e S, unidos para sempre em metal que não se quebraria. Lorenzo pegou a aliança dela com dedos firmes. Quando deslizou pelo dedo de Sophia, o metal estava frio como gelo, pesado como grilhão. Ela fez o mesmo com a dele, as mãos tremendo imperceptivelmente. — Agora são marido e mulher — a voz do padre quebrou o silêncio carregado. — Pode beijar a noiva. Lorenzo se aproximou devagar, como predador que saboreia a vitória. As mãos grandes envolveram o rosto dela com delicadeza que contrastava com a possessividade do olhar. Quando os lábios se encontraram, foi suave, controlado, público — mas havia promessa ali, ameaça de intimidades que viriam depois. Os aplausos foram secos, calculados. Ninguém gritava de alegria, ninguém sorria genuinamente. Não era celebração. Era a assinatura de pacto de sangue, testemunhada por homens que entendiam o valor de alianças seladas em carne e osso. Sophia tentou respirar. O vestido apertava o peito como se fosse feito de aço forjado em vez de seda. O véu pesava na cabeça como coroa de espinhos. Caminharam pelo corredor de volta, agora como marido e mulher. A multidão os observava com aprovação silenciosa — negócio bem feito, união estratégica consolidada. Lorenzo mantinha a mão na cintura dela, posse anunciada publicamente. Do lado de fora da catedral, fotógrafos aguardavam. Flash de câmeras explodiam como fogos de artifício, capturando imagens que seriam publicadas nos jornais da manhã seguinte: "Herdeiro Romano se casa com filha de tradicional família de Boston." Ninguém mencionaria as circunstâncias. Ninguém falaria sobre dívidas ou acordos. A mentira seria perfeita. No carro que os levaria à recepção, Lorenzo se inclinou para ela. O interior do veículo cheirava a couro caro e consequências inevitáveis. Ele afastou o véu do rosto dela com cuidado estudado, dedos roçando a pele com i********e que agora tinha direito legal. — Agora você me pertence, principessa — a frase foi dita baixo, só para ela, mas carregada de promessas que faziam o sangue dela esfriar. — Para sempre.
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