Episode: That night full of silence
- Você é um pouco imprevisível, não acha? - Styles indagou, porém já aceitando o braço erguido de Tomlinson e se juntando a ele em direção ao centro do salão, para que valsassem.
Honestamente ele ainda estava perturbado com tudo aquilo.
- Por quê? - Louis questionou, reverenciando-o conforme as normas para então acabar com a distância entre seus corpos, entrelaçando os dedos direitos de Harry nos seus e descansando sua mão na cintura fina do outro.
Styles suspirou antes de dizer com uma careta óbvia:
- Porque você sabe exatamente o que isso significa, não se faça de i****a Príncipe William, está sujeitando sua reputação ao dançar comigo. - Harry explicou.
E ele parecia tão...
Sentido.
Sentido de várias formas.
Havia uma clara mágoa ao o proferir, como se doesse admitir que ele não era uma companhia digna.
Mas também, na borda de suas emoções, estava um resquício de comoção. O que era raro e quase milagroso flagrar Harry comovido por algo. Ele estava genuinamente aliviado - sim, aliviado era a palavra - que alguém o escolheu. Que alguém o puxou daquele canto solitário e vergonhoso de se estar.
Alguém quis algo além de se aproveitar de seus convites hedonísticos.
E isso era... Era uma coisa.
Styles se viu de repente suprimindo um sorriso bobo nos lábios pelo quão grato estava - mesmo que jamais fosse engolir seu orgulho para verbaliza-lo.
- É apenas uma dança, vossa alteza. - Tomlinson afirmou, como para diminuir a proporção.
Naquele segundo seus corpos se sincronizaram em um arraste lento para trás e para frente.
Harry piscou amolecido diante a afirmação, abaixando levemente a cabeça.
- Às vezes. - sussurrou, talvez mais para si próprio do que para o entendimento de Louis. - Tudo que as pessoas precisam são de pequenas demonstrações.
- Fico honrado de lhe proporcionar esta, então. - Tomlinson inferiu, fazendo com que Styles o direcionasse um olhar firme e um pouco inseguro, enquanto o moreno puxava o canto de seu lábio em um meio sorriso terno.
Ele parecia quente. Não no sentido lascivo do termo - okay, Louis Tomlinson sempre seria quente nesse sentido - mas, por ora, quente no propósito afável. Acolhedor.
Acolhedor.
Ele era como o primeiro dia de primavera em países de zona temperada, igual o Canadá, após um longo inverno rigoroso, quando os raios de sol finalmente tendem a surgir pela manhã e derreter as espessas camadas de neve sobre o solo.
Louis parecia um cobertor quente envelopando um sem-teto, protegendo-o das brisas frias da madrugada ao se morar na rua.
As lagoas azuis não aparentavam neutras e monótonas como usualmente, neste momento havia uma emoção intencional nelas, como se Tomlinson soubesse exatamente que Harry precisava de qualquer afeto nesse instante.
Aquele sorriso. Aquele olhar. Era definitivamente o verão. O calor irradiado aquecia Styles em partes que ele nem percebera estarem congeladas.
- Você está sempre tentando me salvar. - Príncipe Edward alegou, engolindo uma grande quantidade de saliva em seguida para recobrar a consciência. - Eu não sou uma donzela em apuros.
- Você não precisa ser uma donzela pra estar em apuros.
Suas mãos esquerdas se uniram em um toque escasso, suspensas entre o eixo de seus rostos, à medida que giravam em torno do contato, o braço direito de ambos posicionado atrás das costas, mantendo seus olhares presos.
- Mas eu não estou.
Tomlinson suspirou, mordendo o interior da bochecha imperceptivelmente.
- Eu acho que todos nós estamos um pouco quebrados. Todos nós fazemos pedidos mudos de socorro. Todos nós, às vezes, estamos silenciosamente esperando sermos resgatados. - Louis proferiu, um pouco distante, sua pronúncia soando perdida entre os acordes dos violinos e os passos sincronizados da valsa.
- Diga por você. - Styles contestou, buscando transparecer alguma confiança (que não sabia de onde tirar). - E-eu estou bem.
No entanto aquilo soou francamente como um miado. Um miado de um gatinho birrento e teimoso, que não tinha donos, e morava na rua. Um gatinho machucado, e muito agressivo.
Você o ignoraria e o deixaria passando frio no canto da calçada porque ele ameaçava te atacar? E se talvez lhe transmitisse raiva?
Ele é um risco para a sua saúde caso se aproxime.
Mas, se você o larga, quem o pega?
Quem realmente se predisporia a cuidar dele?
Ninguém, obviamente.
- Oh, jura? - havia uma gota de ironia na voz de Tomlinson (o que foi uma surpresa para ambos, porque o herdeiro de Riverland nunca abria mão de sua austeridade e cordialidade). - E por que você não pode simplesmente ser você hoje?
- Não sei do que está falando. - Harry reverberou, seus dentes rangendo, transmitindo uma raiva iminente através das gramas de verão, ou musgos, já que as esferas verdes estavam mais escurecidas que o usual.
- Não estou vendo um único diamante em todo o seu traje.
- E? - indagou desdenhoso, suprimindo um suspiro quando Tomlinson o girou em seu eixo, grudando seu corpo em suas costas, segurando-o suavemente, um contato ralo porém inesperado.
- Não sorriu uma única vez desde que entrou no salão. Nem mesmo os seus sorrisos falsos.
Eles rodopiaram novamente, Harry se virando de frente para Louis, franzindo a sobrancelha.
- Não preciso estar sorrindo para demonstrar que estou feliz. - defendeu, desviando sua atenção das lagoas profundas e levando-as para o horizonte, em direção nordeste, avistando com facilidade o rei Franco sentado em seu grande 'trono' improvisado enquanto assistia ao baile atentamente.
Harry tropeçou no próprio pé, recompondo-se e piscando o desconcerto para fora.
- Onde está Carolina? - Louis questionou, seu tom delatando desafio implícito.
- No canto do salão. - respondeu-o com um ar vitorioso, sentindo-se bem por te-lo driblado neste último questionamento.
- E o Harry? Onde ele está? - Tomlinson finalizou, quase penetrando-o com aquele olhar inquisidor e conclusivo.
Esse filho da p**a.
A sensação de vitória que Harry saboreava foi imediatamente substituída por uma amarga, ácida, azeda, a qual ele engoliu pela garganta como se fosse uma enorme bola de pelo, inspirando com dificuldade.
Suas palavras haviam sumido.
Ele desejou - com todo o seu ser - berrar "eu estou bem aqui, seu merda", mas.... Ele estava?
A pele já branca de Styles empalideceu. Os olhos que encararam as lagoas azuis estavam nebulosos, atordoados e de repente sentindo-se hidrofóbico.
Como Louis conseguia derruba-lo tão facilmente?
E o Harry? Onde ele está?
Onde?
- Honestamente, eu não estou o vendo nesse instante. - o príncipe de Riverland adicionou. - E não acho justo que Harry Styles esteja ausente deste baile incrível só porque um rei francês não o aceita como és.
Se você o topar por aí, avise que o estarei esperando nos jardins, à meia-noite.
Dito isso, Tomlinson fez uma reverência final para o espantado Harry Styles e recuou os passos, prestes a se afastar, pois a valsa havia se encerrado e os príncipes teriam um intervalo para degustarem melhor os queijos, vinhos, socializarem e apreciarem a música clássica.
Harry não parecia consciente do que fazia quando agarrou o antebraço de Louis ao notar que o moreno se distanciava, impedindo-o de prosseguir.
Tomlinson piscou atordoado pela intervenção física repentina e informal, virando-se para o príncipe de cachos que tinha uma expressão desesperada esculpida nos traços delicados de seu rosto.
- Não me deixe sozinho.
Parecia muito para se suportar. Parecia que não ter sua usual fantasia extravagante o recobrindo o deixava completamente vulnerável e frágil.
Talvez diamantes fossem uma armadura.
Talvez deboche fosse seu escudo.
Talvez arrogância fosse sua espada.
Porque atacar é mais fácil do que se defender.
Porque se defender exige estabilidade, e, sinceramente, havia alguém mais instável que Styles?
- Príncipe William? - uma voz o saudou, era um duque francês, não só um qualquer, mas Grand Pierre.
O pai da majestosa francesa Diana.
Louis cedeu-o seu foco durante um minuto, enquanto escutava-o proclamar sobre o quanto Diana falava bem dele, que era um príncipe especial e honrado.
Isso porque você não sabe sobre os retratos que fiz de sua filha nua. Tomlinson pensou, uma onda de culpa aglutinando sua pose de futuro rei, sorrindo educado para o monólogo incessante de um dos franceses mais ricos e influentes.
Ao conseguir uma breve brecha entre um assunto e outro, ele se esgueirou da conversa pedindo licença e virando a cabeça na direção que Harry estava.
Estava.
Porque o príncipe havia sumido. Não só daquela posição, como de todo o salão do Baile.
Quase meia hora depois o próprio rei Franco o puxou para um diálogo.
- Meu caro Príncipe William, quanto tempo! Como estão as coisas em Riverland? Como Johanna e Mark estão? - o soberano saudou, sua coroa vistosa de diamantes pendendo mais para a esquerda de sua cabeça.
Uma súbita vontade de respondê-lo rude com um 'Como eu vou saber se não estou lá?' o atingiu. E Louis se chocou ao perceber, porque esse era o tipo de ímpeto que jamais acontecera, nunca foi de sua persona nem sequer realizar uma réplica tão crua, afiada e desrespeitosa como aquela - ainda mais com o rei Franco que sempre o tratou com tanta gentileza.
Mas então um apito vermelho chacoalhou sua mente o alertando que talvez ele não fosse tão honesto e gentil assim já que era capaz de intimidar o inabalável Príncipe Edward.
Deveria ter acometido um grave crime para gerar tal proeza - não que Harry não tenha provocado talvez, mas..
- Presumo que estejam bem, vossa majestade. - Louis disse ao invés, reverenciando-o um pouco contrariado. (Contrariado?).
- Fico contente em escutar isso, sua família é bela. Tenho plena convicção que quando Mark lhe passar o trono manteremos relações amistosas, Príncipe William. Será um rei faustoso.
O sorriso que o menor o ofereceu quase não alcançava o próprio rosto, falhando miseravelmente em parecer natural.
- Sei que sim, vossa majestade.
- Se posso lhe aconselhar algo, meu caro, é que mantenha distância do herdeiro de Malta. Ele não é uma boa companhia ou influência. - alertou em um sussurro, espalmando amigavelmente as costas de Louis, que concordou com um aceno, em silêncio.
****
Era meia-noite.
Era uma meia-noite de névoas.
Ao finalmente sair para o jardim de modo discreto começou a caminhar sem rumo entre os canteiros.
De longe, o avistou.
Avistou as curvas de sua sombra solitária.
Sentou-se ao seu lado no banco, percebendo o quão frio o metal estava.
Harry não se manifestou de primeira, embora.
Permaneceu com o rosto abaixado, curvado para frente com seus braços apoiados sobre os joelhos.
- Ele nunca gostou de mim - Styles eventualmente proferiu, entrecortando o silêncio. E esse foi um ótimo começo de diálogo.
Tratava-se claramente do rei Franco.
Louis manteve-se calado, piscando seu campo de visão para o horizonte onde estrelas beijavam os precipícios e a lua cheia, redonda, enaltecia a eternidade diluída no céu.
- Acho que meu jeito descomedido o incomodava. - Styles continuou após alguns segundos, batucando a ponta de seus sapatos elegantes na terra compacta. - De acordo com sua opinião eu era excêntrico de um modo r**m.
Ele suspirou. Havia claramente uma dor contida em sua fala, havia nostalgia também e uma pitada de desdém (porque não seria Harry se não houvesse desdém).
- Eu não acho que exista um modo bom ou r**m de ser. - Louis eventualmente se pronunciou. - Você é o que é apenas.
Styles o encarou em silêncio por breves segundos, para retomar seu olhar ao chão.
- Ele e meu pai são muito amigos, sempre está nos visitando em Malta. Desde que eu era uma criança ele me perseguia em suas estadias. - proferiu penosamente, imitando a voz julgadora do rei. - "Muito afeminado, muito extravagante, muito expressivo".
Um corvo solitário entrecortou em um voo rasante pela trilha de coníferas, pousando delicadamente na borda de uma fonte vitoriana. Styles passou a fita-lo com a feição neutra, distante, quase avoada.
- Por que você o teme? - Tomlinson indagou intrigado. - Qual a razão do seu medo?
- Não é medo. É trauma. - Harry disse em um fio de voz, inspirando lentamente. - Avisava-me que seus conselhos eram para o meu próprio bem, e que... As punições também seriam caso eu não p-progredisse. Se eu fosse substituir meu pai, para o trono de Malta, e quisesse ser bem sucedido, devia... ser normal.
Uma brisa gelada alcançou a superfície de suas epidermes, arrepiando suas espinhas. Louis conservou sua postura ereta, Harry, porém, se curvou e se encolheu um pouco, abraçando-se com os próprios braços em busca de calor.
O que soou dois minutos de quietude passados, o maior quebrou-o por fim:
- Como eu não mudei, durante minha adolescência ele.... Ele... - mas suas palavras não se soldavam em sua língua, uma trava mental as impediam de serem libertas. - Me punia, ele...
Seu rosto, embora, o delatou.
Seu rosto contorcido em um pânico branco, um desespero traumático, foram o bastante para traduzir o que a parcial revelação não pôde.
Harry literalmente se congelou, sua respiração quente formando fumaça ao passo que era expirada por sua boca, em contato com o ar gelado da madrugada.
Tomlinson se sentiu totalmente atordoado.
Pior, ele não foi capaz de conter sua indignação, abandonando a pose inexpressiva para arregalar os olhos, amostrando a incredulidade das lagoas azuis.
- Ele o visitava, intimamente, em seu quarto? - Louis se viu questionando, colérico, no entanto esforçando-se para não se demonstrar tão alterado.
Styles não o respondeu.
Não verbalizou sua resposta.
Mas engoliu a seco.
E isso o bastou para revela-lo a verdade.
Louis ficou revoltado.
Em toda a sua existência nunca presenciou tamanha desumanidade dentro de seu Reino. Assediadores eram indubitavelmente condenados - algumas vezes à pena de morte - e pagavam pelo crime monstruoso que cometiam.
Sua mãe, rainha Johanna, jamais permitiria tamanha podridão ocorrendo nos limites de seu território, muito menos rei Mark.
Assim, descobrir que Harry era abusado em seu próprio palácio de seu próprio reino pelo rei Franco era repugnante.
Foi uma faísca que ateou fogo no pavio de Tomlinson. Uma raiva primitiva consumindo seus dogmas e boa conduta.
O garoto era constantemente estuprado em sua adolescência e ninguém fazia absolutamente nada?
Antes que pudesse solidificar sua reação e inúmeras perguntas, Harry se virou com um olhar de súplica e o pediu:
- Por favor, eu lhe peço, não diga nada a respeito, nem agora ou nunca. É um assunto encerrado. E morto.
Isso era muito injusto.
Isso era muito terrível.
Isso era muito nojento.
E Louis estava suposto a concordar com um aceno de mãos atadas?
Ok, Harry tinha trauma e não queria tocar na ferida.
Mas, p***a, aquele rei era vangloriado por toda a nação, tido como exemplo, sendo que havia gritos de dor e súplica de Harry escondidos por baixo de sua impecável coroa.
E os pais de Harry Styles?
Nada fizeram?
Ao menos sabiam?
Louis Tomlinson nunca se nominou alguém curioso ou intrometido, mas ele não podia simplesmente saber de uma informação impactante como essa e apenas menear a cabeça em um aceno, forçando-se a esquecer o dito e seguir com sua vida.
Era frustrante. Era frustrante se sentir impotente.
Ele não conseguia.
Portanto, tudo o que fez, quase ao próprio pedido de Harry, foi se levantar do banco rígido e gelado e se afastar, encaminhando seus passos pesarosos para dentro do palácio e guardando-se em seu aposento.
Tudo sem proferir uma sílaba.
Styles o implorou para não proferi-la.
Ele apenas acatou.
Chegando em seu grandioso quarto, no entanto, acabou por aceitar uma xícara de chá quente de Lorena, que antes dormia sentada na poltrona do canto.
Ele se assustou com sua presença no recinto àquela hora da madrugada, ainda mais que a garota estava adormecida de modo tão desconfortável na poltrona. Mas sorriu. Não reprimiu um sorriso ao perceber que talvez ela tenha ficado lá o vigiando, pelo cuidado e ligação que os dois desenvolveram nessa temporada.
Louis a sentia como uma irmã mais nova, sempre querendo protegê-lo e esperando retornar ao quarto para garantir que estava bem.
Ao acorda-la ela o ofereceu para trazer uma xícara de chá, o qual aceitou de bom grado, e foi finalmente se deitar em seu próprio lugar, no quarto dos empregados.
Enquanto assoprava a fumaça densa que evaporava do líquido quente, Tomlinson se escorou na grande janela de seu quarto, assistindo ao cenário de Harry ainda sentado no banco do jardim, na mesma posição, sendo engolido pela neblina e talvez pelos seus próprios demônios.