Episode: Talking to the Moon
Os passos afundados nas poças profundas do solo faziam com que as barras de sua calça se encharcassem.
Louis nem reparara, embora.
Ele piscava determinado com seu guarda-chuva preto velho (foi o único que encontrou no fundo do armário de mogno, onde as criadas guardavam itens básicos) protegendo-o superficialmente da enxurrada que condenava a região - não que isso evitasse com que se molhasse, pois honestamente o vento soprava de tal forma que a tempestade torrencial atingisse-o por inteiro.
Inevitavelmente tremia de frio, enquanto que a franja molhada insistia em cair sobre seus olhos e dificultar a visão - que já era limitada.
Toda a nobreza e resplandecência do jardim de inverno se transformara em um covil de sombras místicas e tenebrosas, um lugar frio que ninguém diria ser a mesma paisagem gloriosa que és quando o sol ilumina o exterior e realça a beleza dos canteiros de flores frescas.
Se havia um ponto bom na dada circunstância era que o olfato poderia deliciar-se com o aroma da terra molhada pela chuva, um típico cheiro prazeroso e bucólico.
Príncipe William sentia o sufoco enquanto se arrastava cegamente próximo à trilha de coníferas. Estava muito escuro, a água embaçava o caminho, e a penumbra das árvores desorientava-o visualmente.
Quanto mais se afastava no longo corredor de coníferas em direção norte, menos enxergava qualquer coisa.
Mas ele não desistiria.
Era um Tomlinson.
Louis William Tomlinson.
Desistir nem foi uma hipótese considerada em sua mente.
Quando se dispunha a algo, ia até o final.
E o inconsequente príncipe de Malta era esse tal algo do momento.
Entre um suspirar e outro, buscando aflitamente oxigênio em toda essa situação asfixiante, ele flagrou um vulto, alguns metros a diante, de uma figura ajoelhada próximo a uma árvore.
Harry.
Pela localização exata da figura, Tomlinson teve que sair do trajeto asfaltado e se submeter a pisar no solo argiloso que, por conta da tempestade, estava completamente lamacento, mergulhando suas chinelas e parte da calça na terra pastosa.
Aproximando-se o suficiente do corpo ajoelhado, pôde escuta-lo.
Escutou perfeitamente...
Seu choro.
Um choro soluçado, estrondoso e quase descontrolado, parecia a consequência de um desespero tremendo o qual Harry não era capaz de conter.
Não mesmo.
Styles resfolegava e retornava a choramingar, enterrado com suas pernas no solo viscoso, ora desferindo socos no próprio colo e ora apoiando as palmas da mão no chão para se sustentar.
Sustentar-se é complicado quando você carrega um peso que não pode suportar.
Ele resistia bem.
Sim, ele resistia.
Mas nesse momento ele podia se libertar. Ele podia se afundar sem que o impedissem, sem que o vissem, se que o julgassem.
É como se ele quisesse se afogar naquilo, nele próprio.
É como se ele quisesse ser parte daquela tempestade, porque dentro de seu corpo havia uma pior. Intermitente. Constante. Estrondosa. E eterna.
É como se ele fosse um pedregulho arremessado no rio, e agora estivesse afundando... Afundando.
Suas lamentações não seriam ouvidas.
Suas súplicas não seriam atendidas.
E ele não pararia de afundar até que repousasse de vez no fundo do rio.
Se estava escuro lá fora, imagina em seu interior.
Quando Louis se aproximou, pairando atrás de si, Harry não notou. Ele provavelmente estava alheio de qualquer realidade além da sua.
Tomlinson não queria invadir sua privacidade, não pretendia ultrapassar seu espaço e muito menos ouvir sua lamúrias.
Mas Styles começou a praticamente berra-las ao alento, e foi inevitável não atentar-se para as palavras balbuciadas aos prantos pelo jovem ajoelhado na lama.
- Geeeeem!
Ele estava a chamando.
Possivelmente bêbado - ou só farto de viver muito sóbrio.
- Geeem, Geeeem, Geeem. - cantarolava ofegante, pegando punhais de terra e espremendo-as em suas mãos enquanto os cachos ensopados grudavam-se por todo o rosto.
Após murmúrios estridentes semelhantes - todos chamando sua irmã - o choro penetrante se atenuou, dando lugar para uma torrente desolação emocional.
Harry ergueu sua cabeça para cima, apontada para o céu. A tempestade tornava impossível que abrisse os olhos, então os manteve fechados.
Ele respirava tão profundamente que parecia em iminência de ceder.
- À-Às vez-vezes.... - o inconsolável príncipe começou a dizer, em tom casual, como se estivesse dialogando (ou tentando, se suas tremedeiras permitissem) com ninguém específico, ainda que a ouvinte fosse extremamente específica e só não estivesse fisicamente presente.
Resfolegou, engolindo saliva e forças para prosseguir seu monólogo.
- Às vezes, quando está chovendo, eu penso sobre você, G. Eu penso sobre você em toda essa distância, todas as nuvens e anos entre nós. - Harry abaixou a face, contendo o desespero. - Eu penso se você está bem, como o céu se parece, se está aproveitando algo aí. Eu penso sobre os tempos em que não havia nenhuma nuvem nos separando, e a sua felicidade era a minha felicidade.
Tomlinson se encontrava em uma guerra interna entre se afastar e provê-lo aquele desabafo pessoal (que não era de seu direito ter acesso) ou permanecer ali.
Não sabia o que valia mais naquela hora: ter suas revelações particulares em paz (ele não devia simplesmente tossir a seco para interromper seu momento), ou não ser abandonado por outra pessoa.
Talvez um novo abandono não pudesse ser cogitado para alguém prestes a se perder (se já não estivesse perdido) e contrair hipotermia.
- Eu penso sobre quando éramos pequenos e você vivia me perguntando se flores sentiam dor quando suas folhas eram arrancadas... nunca chegávamos a uma conclusão. Hoje eu saberia responder.
Um relâmpago clareou a paisagem, iluminando sua face enfestada por gotículas.
Inspirando, exausto, Harry finalizou:
- Às vezes, quando está chovendo, eu fico imaginando se também chove onde você está agora.
Isso teria sido um desfecho bonito, se a tragédia não implementasse, pois Styles voltou a chorar descompensado, curvando-se para a frente de modo que pressionasse o braço em seu estômago para inibir uma faca invisível sendo introduzida continuamente através dele.
- Hipotermia certamente não o ajudará.
Seus ombros imediatamente pararam de se chacoalhar.
Ele ficou estático, embora não pudesse conter as lágrimas e muito menos os soluços cortantes que ainda escapavam.
Seu peito ardia.
E alguém havia presenciado este seu estado deplorável.
Pela voz, soube que não era qualquer alguém.
Era o pior que poderia intervir naquele instante.
A dor agravou-se.
- Eu vou lhe dizer uma vez. Apenas uma vez. - Harry sussurrou fracamente, sem sequer se virar para trás para encara-lo, olhando fixo para baixo. Sua voz quase não podia ser ouvida devido ao barulho dos trovões que entrecortavam impiedosamente o céu. - Vá embora.
Mas, aparentemente, sua ordem não foi atendida. Talvez tenha surtido efeito reverso pois passou a perceber que a chuva não o atingia mais, e sim a área que excedia à circunferência de proteção ao seu redor.
Não precisou se mover para entender que havia um guarda-chuva suspenso sobre si.
Ele não conteve nem outro suspiro antes que seu choro voltasse, mais forte ainda, se possível. Embrulhou seus braços em torno de seu torço, buscando autoproteção, agarrando-se com medo de cair.
Ali estava Harry Edward Styles.
Talvez, o verdadeiro Harry Edward Styles.
Em que as joias não o alcançavam e sua colcha de fios egípicios não poderia aquecer realmente as partes que precisavam de calor.
Louis não interviu em sua crise. Nem ao menos tentou levanta-lo de lá e abriga-lo no Palácio já que havia um temporal arruinando o sistema imunológico dos dois e ameaçando-os de contrair pneumonia.
O Príncipe William era uma estátua. Não se mexia. Não dizia. Apenas segurava o guarda-chuva e protegia-os minimamente do dilúvio c***l.
Isso porque... Porque naquele instante Harry não precisava de palavras, de conforto alheio, de vestes de seda ou bengalas de cobra.
Ele só precisava sentir sozinho suas dores - sem estar de fato sozinho, e batalhar contra seus demônios.
Talvez tenha se transcorrido quase uma hora e meia dado ao fato do céu antes selado pelo breu da madrugada estar finalmente alvorecendo. A chuva havia se diluído para chuviscos.
As pernas dormentes de Tomlinson permaneciam erguidas na posição original, e seu braço - que formigava fazia alguns bons minutos- nunca falhou ou retrocedeu na missão de firmar a umbrela preta entre seus corpos.
Fadiga e resistência possivelmente jamais foram postas tão a prova quanto naquele dia. Eles eram atenuados somente pela distração do cheiro revigorante de terra molhada. Era tudo.
As sombras monstruosas acabaram por se revelarem árvores conforme o preto acizentado dava lugar para o marrom, o verde, a vibração da palheta reconfortante que coloria a natureza.
Nenhuma sensação de sufoco vai embora de súbito. São estágios. Aquilo era um estágio imediatamente sucessor do pânico e prévio da calmaria. Quando ainda não estão estáveis ou nem muito instáveis.
Você poderia sentir o frio. Apesar do término da tempestade, a brisa úmida era completamente nostálgica e servia como lembrete da devastação.
Soava exatamente como uma fase de abrandamento cálido e lacônico.
A figura encolhida e ajoelhada no solo lamacento também não realizara movimentos consideráveis, mantendo-se contraído em uma espécie de casulo humano.
Harry não chorava ou emitia ruídos. Seus choramingos se encerraram há um período e agora o tremelicar de seus ombros se cessava gradualmente.
- Por que ainda está aqui? - sua voz completamente rouca eventualmente o indagou.
A primeira resposta que veio à mente de Louis, para ser sincero, era um raso 'não sei'.
Mas ele podia fazer melhor que isso desde que 'não sei' é um termo fora de seu vocabulário.
Ele precisa sempre saber. É uma necessidade. Um vício.
Ele tinha controle sobre suas ações e 'não sei' lhe parecia uma réplica preguiçosa e porca a qual ele prometeu nunca se submeter.
Divagando a fundo, ele concluiu saber.
Sua mãe o ensinara a ser educado, atencioso e, sobretudo, solidário.
Johanna traspassou para os cinco filhos a virtude do amor, seja por conhecidos ou pelo próximo.
Tomlinson cativava uma compaixão incrivelmente grande no coração.
Ele só era reservado demais. E quieto.
Mas sua inexpressão e certa neutralidade facial não implicavam no impulso altruísta de ternura que guardava para os outros.
Calado, em seu próprio canto e personalidade, observava o mundo, atentava-se ao que importava, preocupava-se e emendava as pontas soltas que estavam sob seu alcance.
Com o Príncipe Edward não seria diferente.
Ele era um humano. Agora mais do que nunca.
Ele era importante.
E tinha pontas soltas.
Talvez muitas delas.
Devido a sua demora, perdido em divagações, Harry se virou, ainda ajoelhado, direcionando seu olhar impaciente para ele.
Seu rosto estava inchado. E tinha algumas espinhas - o que significava que todos os dias cobria a pele com maquiagem para esconde-las.
Mas, com a luminosidade crua e pura do nascer do sol, até mesmo suas imperfeições pareciam belas. Seus olhos verdes estavam claros, cansados, e perdidos. Harry dispunha de uma beleza natural injusta, e seus cachos, que começavam a se secar - ficando bagunçados e armados -, assemelhavam-se a cascatas fartas adornando a epiderme pálida feita de porcelana fina.
Um autêntico príncipe que nunca se aparentou tão príncipe quanto agora, ao que cosméticos não o mascaravam e sua luz intrínseca era muito mais brilhante que qualquer safira de sua posse.
- Por que ainda está aqui? - repetiu a pergunta, transparecendo irritação e, principalmente, impaciência.
- Porque você importa. - Louis respondeu, simples e direto. - Você importa, Harry.
Styles não era capaz de dizer o que mais o abalou na frase.
Só o fato de tê-lo chamado por 'Harry' - assim, familiar e casual - já era algo a se discutir. Porque aquilo foi tão... Tão relevante, sabe?
Príncipe William havia abandonado as etiquetas, ignorado as normas, ultrapassado formalidades porque ele teve sensibilidade de perceber que a situação era delicada. Que ele não estava lidando com um colega de trono, herdeiro de um Reino.
Ele estava lidando com um cara que passara as últimas horas chorando e que precisava de conforto, de qualquer forma. E usar 'Harry' revelava um tratamento íntimo e afetuoso.
Uma vela aquecera seu interior, descongelando uma pequena porção do iceberg.
Tomlinson flagrara o pontual segundo em que sua feição se quebrou em um misto de espanto e transtorno. O segundo em que as orbes de esmeraldas enfraqueceram e sua postura tipicamente orgulhosa recuou, visivelmente afetado, enquanto as pupilas dançavam cegas e confusas digerindo inquietamente a sinceridade do moreno.
Harry não conseguiu dizer nada.
Talvez porque não desejasse.
Ou talvez porque as palavras houvessem evaporado de sua boca ao que suas veias experimentavam de uma adrenalina queimante, e ele estava desconcertado e tocado demais para falar.
De qualquer modo, aquilo se tornou denso. E estranho.
Styles em uma espécie de paralisia.
Louis não alterando de fato a neutralidade de suas expressões mas devolvendo-o um olhar firme e fiel, e que, incerto da situação, limitou-se a baixar o guarda-chuva e sacudi-lo, dispersando o excesso de umidade para fecha-lo de vez - já que o clima finalmente dera-os uma trégua e os raios solares iniciais os aqueciam superficialmente e se dispunham a secar as vestimentas encharcadas.
Mesmo depois de embalar a lona preta e amarra-la com a cordinha, usando o cabo da umbrela de apoio ao braço cansado - uma bengala improvisada - Louis notou que Harry não havia se movido, meio inerte da realidade.
Os pássaros cantarolavam as melodias da manhã como se fossem despertar as flores e árvores de um longo sono. Era revigorante o cheiro fresco da natureza. As cores vibrantes deixavam a paisagem mais prazeirosa, especialmente quando o sol banhava-as com um iluminar dourado, o verdadeiro ouro da existência.
Lindo, lindo, lindo.
Reconfortante.
Harry Styles foi se levantando, estendendo-se de pé com uma careta - de fatiga e formigamento nos membros, expondo seu vestuário totalmente sujo de terra pastosa.
Ali, erguido, eles se encaravam de igual para igual, com suas alturas alinhadas e a exaustão entregue na feição de ambos.
Eles precisavam dormir.
Precisavam se despedir e dormir.
Após um oblíquo silêncio - entrecortado pelos pingos solitários vindos das folhas das coníferas nas poças de água remanescentes, Tomlinson indagou em um cochicho.
- Qual foi sua descoberta? Para a sensibilidade tátil das flores em questão de dor? Disse a ela que teria uma resposta sobre assunto de que sentem ou não dor igual humanos...
Ele se referia ao monólogo anterior de Harry para Gemma.
Styles demorou a compreender, piscando confuso e torcendo levemente o nariz.
Mas logo que captou a menção, abaixou a cabeça - sim, era complicado e o constrangia horrores, ele estava sem seus escudos habituais.
- Eu tenho uma teoria própria, em que o fato de flores não possuírem células sensoriais não impede que verdadeiramente se aflijam como nós.
- Isso é cientificamente improvável. Ainda menino, eu mesmo testei e conclui.
- E como chegou a tal conclusão?
- Eu fiz um experimento. Plantei um roseiral e removi quase todas as suas folhas. Ainda assim elas se desenvolveram. Se houvessem sofrido pela perda de uma parte de seus corpos, haveriam murchado. Elas não sentem dor quando as ferimos.
- Você não é uma planta pra ter certeza. - Styles criticou.
- Eu provei cientificamente.
- Mas isso não significa que você deve machuca-las para descobrir, talvez elas só não demonstrem. Pessoas seguem em frente mesmo quando estão debilitadas, por que rosas não poderiam?
- Porque são rosas... - Tomlinson disse de cenho sutilmente franzido, como se fosse óbvio.
- E pessoas são pessoas... - Harry rebateu, com jeito similar ao de Louis, contra argumentando-o no mesmo nível para indicar que elas são tão importantes quanto seres-humanos.
Príncipe William piscou intrigado, sentindo-se subitamente desarmado pela veracidade de sua tese - e a profundidade dela.
Ele vivia constantemente lendo livros dos mais diversos tópicos, se inteirando em áreas científicas, políticas, econômicas.
Estudava e absorvia informações que lhe proporcionavam uma visão erudita do mundo.
E muitas vezes esquecida de injetar um pouco de sensibilidade nela.
Acostumado a solidificar tanto as coisas, limita-las a respostas máximas, esquecia-se que a vida deveria ser um equilíbrio entre extremos, embora odiasse o pensamento de mediação esta era essencial.
- Parece que eu lhe roubei as palavras, vossa alteza. - Styles ralhou com um pouco de orgulho nas bordas, pronunciando 'vossa alteza' de sua típica maneira desdenhosa e debochada, contudo, não suprimiu o surgir de um pequeníssimo sorriso lateral (que parecia verdadeiro e honesto - o oposto de qualquer outro esboçado anteriormente).
Aquele sorriso diluiu a seriedade da sua fala.
E ela não era encenada.
Nem cantarolada.
Nem sátira.
Ou arrogante.
Sua fala era curta, uma pitada atrevida, com um toque de insolência programada mas comedida, havia um tempero de humor e cheirava a audácia.
Ela era Harry Styles. Pura e cruamente.
Harry Styles -aparentemente- recuperado e restabelecido.
- Touché. - Tomlinson proferiu divertido em rendimento, assistindo o sorriso do Príncipe cacheado ampliar-se genuíno.
Eles se encararam um último momento, e seus olhares selaram um acordo silencioso de que aquele episódio estava encerrado.
Harry despediu-se com um breve aceno de cabeça - que continha um 'Obrigado' não verbalizado -, afastando-se a passos lentos e largos de um Louis estático, em direção ao Palácio.
Sua sombra solitária e imprevisível se distanciando entre os canteiros do jardim.
Louis proferira "Touché" da mesma forma que Harry o fez ao ser derrotado pelo Príncipe de Riverland no Esgrima.
Harry.
Perdeu naquele dia.
Mas, de uma maneira estranha, ganhou agora.
E não ganhou apenas a discussão sobre o sentimento das flores.
Ganhou algo a mais.