Episode: Meeting at Night
- Diga-me, Cindy, como está a dor na coluna esta manhã? - perguntou gentil, caminhando lentamente pelo quarto a procura de seu broche delicado de borboleta.
- Melhorou, vossa alteza. - disse um pouco derretida. Era inevitável não se fascinar pela simpatia adorável de Zayn Malik.
O Príncipe de Arlen possuía um charme sedutor natural. Era irresistível. Nem suas criadas, por mais treinadas para se manterem neutras e formais, conseguiam desviar a atenção do belo par de olhos castanhos, ainda mais quando o dono deles era tão atencioso.
- Tire o próximo final de semana para descanso, sim?
- Não posso, vossa alteza. É contra as regras. Devo me apresentar diariamente junto a Kristen todas as manhãs.
- Kris irá dar conta do recado, não é querida? - Zayn murmurou, mencionando a criada de cabelos presos em coque que arrumava os lençóis do colchão.
- Sim. Sim, vossa alteza.
- Além do que, este será o final de semana do Baile da Borboleta, m*l me haverá tempo para residir este aposento. Estaremos ocupados demais socializando e tudo aquilo a mais... - disse descontraído, uma careta engraçada bordando sua feição ao que as jovens tentaram repreender uma risada.
Ele era divertido.
Cindy saíra para conferir se alguma correspondência havia sido deixada em frente a porta, retornando segundos depois com um papel em mãos.
- Há uma carta para o senhor, Príncipe Malik. - informou se aproximando e estendendo o envelope.
- É de minha família? - perguntou esperançoso, seus olhos brilhando em antecipação.
- Er, não. Diz aí que o remetente é o Príncipe Edward, de Malta.
Malik assentiu em compreensão. Não parecia surpreso, e sim decepcionado por não ser de seus parentes, que até agora não o retornaram uma correspondência sequer.
- Certo. Obrigado, querida. - murmurou, escorando-se na janela e aproveitando a luz natural da bela manhã para lê-la.
Cindy e Kristen se entreolharam curiosas, não podiam fazer muito por isso, era uma ocorrência intrigante. Várias cartas de admiração anônimas e assinadas chegavam diariamente na porta do aposento do príncipe, mas esta era a primeira escrita por Harry.
- O que diz aí?! - Cindy, a garota mais jovem e inquieta, atreveu-se a questionar. Malik vivia dando-as liberdade para participarem de sua vida, incentivando-as a cumprirem um papel mais íntimo e amistoso.
Conforme Zayn finalizava a leitura arqueara uma das sobrancelhas.
- É um poema. - proclamou. - Presumo que tenha mandado para todos os príncipes, visto que não há meu nome específico como destinatário.
- Um poema? - Kristen franziu o cenho. - Fala sobre o quê?
- É de um poeta vitoriano, Robert Browning. Chama-se Meeting at Night.
- Pode nos ler, vossa alteza? - Cindy pediu, iluminada.
- Claro. - Zayn se dispôs sorrindo, segurando firme a carta e recintando em seu melhor tom:
Meeting at Night
The grey sea and the long black land;
And the yellow half-moon large and low;
And the startled little waves that leap
In fiery ringlets from their sleep,
As I gain the cove with pushing prow,
And quench its speed i' the slushy sand.
Then a mile of warm sea-scented beach;
Three fields to cross till a farm appears;
A tap at the pane, the quick sharp scratch
And blue spurt of a lighted match,
And a voice less loud, thro' its joys and fears,
Than the two hearts beating each to each!
- Robert Browning,
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( Encontro à Noite)
(O mar cinzento, a longa terra escura,
Baixa, ampla, meia-lua amarelada,
E as ondas em alarme a se impelir
Em ígneos atos vindos ao dormir;
Com proa em riste chego à enseada,
E afogo a rapidez na areia impura.
Milha de praia quente, odor de mar;
Três campos a cruzar, até o recanto;
Um bater na vidraça, o lesto riscado
E jato azul de um fósforo inflamado;
Voz menos alta, em seu temor e encanto,
Então dois corações: soar soar.)
- Robert Browning,
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- O que isso deveria significar? - uma delas indagou enquanto Zayn enrolava o papel para guarda-lo na gaveta de sua escrivaninha.
- Não deve significar, nem é suposto a ser facilmente compreendido. Isso significa Harry Styles, em sua personificação fiel.
****
Ao entardecer daquela quarta-feira os príncipes se reuniram no estúdio para mais uma aula instrumental.
A última semana havia sido um tanto monótona - deveriam admitir - sem a presença extravagante do Príncipe Styles e seus exageros .
Pouco havia se escutado do futuro herdeiro de Malta desde segunda-feira, quando fizera uma breve aparição no Salão dos Homens com o convite de uma celebração grotesca, e anfitriara uma festa de desregramento e libertinagem em seu próprio aposento.
Festa, a qual, não passou despercebida na edição de terça-feira de How to Wear a Crown, quando uma pilha de folhetos descrevia superficialmente a madrugada polêmica da segunda-feira, alegando que imprevistos ocorreram e que o clima ficou estranho quando Harry desapareceu de sua própria festa no meio da madrugada, deixando os demais - embriagados - convidados completamente confusos.
O rodapé do jornal trazia uma frase comtroversa:
Afinal, Harry Styles é o lobo ou o cordeiro?
De qualquer maneira, após um período relativamente longo com a ausência de Harry, os príncipes definitivamente não esperavam recebê-lo na quarta, assistindo sua magnífica (e inesperada) entrada na sala de música com um sorriso cheio de dentes e olhos presunçosos.
O mesmo esnobe de sempre com sua bengala Carolina e os anéis cintilando riqueza em seus dedos.
- Esplêndido, meus caros. - foi sua primeira frase em tanto tempo, atraindo a atenção imediata de quem já posicionava em seus instrumentos.
O instrutor musical de Styles era um loiro jovem, ele o guiou para a ala dos violinos, onde Harry cumprimentou quem estava por perto com selar sedutor no dorso de suas mãos e estalou beijos no ar para quem ainda o olhava.
Durante os vinte minutos iniciais, em que o lugar costuma se transformar em uma bagunça de sons, timbres e melodias, quem assistia o Príncipe Edward de relance percebia facilmente sua interação íntima com o instrutor, uma troca de sorrisos tortos e aproximações desnecessárias enquanto o jovem professor articulava os braços de Harry na posição correta para manusear o violino e sussurrava orientações em seu ouvido.
- Você não parece ter grandes dificuldades com o piano. - uma voz despertou o devaneio de Malik, fazendo com que virasse o rosto para a origem dela, o jovem do piano ao lado.
- Príncipe Payne. - saudou, esboçando um sorriso doce e educado. - Bem, eu toco piano desde os meus sete anos. Para ser honesto só estava com preguiça de aprender outro instrumento então decidi praticar esse mesmo, dispensei até o meu instrutor.
Os dedos magros relavam suavemente a superfície das teclas brancas, uma feição de prazer calmo enfatizando sua adoração por pianos.
- Oh, entendo. Eu também sei tocar, mas fazia algum tempo que eu não treinava, então quero especializar-me para depois aprender outro instrumento.
- Tente começando pelas clássicas, costumam ser mais fáceis para uma abordagem inicial.
- Você já toca todas?
- A maioria. Mas ultimamente tenho me concentrado mais em composições próprias.
- Toque uma para mim. - Payne pediu. Sua expressão interessada tornou impossível rejeitar o desejo.
Zayn assentiu um tanto acanhado. Ele não sentia vergonha facilmente, mas compartilhar uma melodia de sua autoria era pessoal, ele estaria expondo uma parte sua para o exterior.
Conforme começou a dedilhar as notas musicais, revelou uma música harmônica.
A trilha iniciava-se lentamente, intensificando à medida que as notas ficavam mais agudas.
No final, demonstrou-se algo delicioso de se escutar.
- Lembra-me uma canção de ninar. - Liam comentou.
- É porque é. Era uma das canções que minha mãe me cantava quando eu ainda estava no berço. Eu sempre registrei seu vocal na memória e de alguma forma tentei traduzir para o piano.
Havia algo na voz de Zayn que entregava sua comoção ao tocar no assunto. Os olhos piscando um pouco perdidos e visivelmente emocionados.
- Como a chama? - Payne indagou, fingindo não perceber a vulnerabilidade do outro e procurando distrair sua mente atordoada.
- Hm... Nunca pensei a respeito. Não me lembro o verdadeiro nome da canção de ninar.
- Batize-a com o seu próprio. - incentivou-o.
As longas pestanas piscaram rápidas enquanto o príncipe parecia concentrar-se.
- Cotton Candy Tears.
- Lágrimas de algodão doce?
- Sim, o que acha?
- Perfeito. É leve, e viciante. Adequa-se na descrição embora não creia que seja a verdadeira razão por trás do título. - Payne opinou, sorrindo lateralmente.
Zayn concordou quieto, limitando-se a levantar da banqueta e acenar em despedida, rumando ao seu aposento.
Liam observou aquilo confuso.
***
Era sábado, noite de baile. Ou melhor, final de semana.
Haveriam duas festas seguidas, portanto, as princesas se hospedariam no Palácio de Vidro de sábado para domingo.
O Baile seria divido em dois dias, porque cada um representava uma fase. O primeiro se chamava Nympha, lagarta/pupa em latim.
E o segundo, Papilio, borboleta.
Diziam que esse evento, diferente do primeiro baile, não seria uma homenagem às damas, e sim, aos príncipes, representando a metamorfose que os transformariam em reis.
Sempre haveriam metáforas nas entrelinhas, caberia a eles entender.
Uma delas, talvez a mais clara, seria justamente a pernoite das princesas no palácio.
Isso soa como algo banal, mas certamente era uma prova.
Para você mudar de forma, precisa passar por uma série de transformações anteriores. Elas estariam transcritas em pequenos detalhes.
Um príncipe, ao ser rei, deve possuir maturidade. Responsabilidades.
A chance de passar a madrugada perto de belas jovens parecia a tentação perfeita para demonstrarem seu espírito fraco, ou então - se soubessem ponderar a situação - sua grande resistência, sua capacidade de ser superior aos gritantes hormônios.
Seria constatado quais príncipes sairiam de sua fase largada e retornariam domingo como borboletas, e quais não.
Apostas?