Episode: Metamorfose
Segundo andar. O andar com quartos de hóspedes para as princesas.
O andar que seria visitado por alguns príncipes fugitivos durante a madrugada, que se esgueirariam no corredor torcendo para que não os flagrassem.
Moral nunca foi tão relativa, hum?
O evento de sábado, Nympha, fora definido para acontecer no salão de inverno, quando as lagartas geralmente se envolviam no casulo que caracterizava a fase intermediária da pupa, a última antes de atingirem o apogeu e se tornarem uma borboleta.
E como o requintado tema sugeria, aquilo deveria parecer sufocante. Deveria parecer sufocante porém fino. Aquecido e transformador.
Toda a decoração se resumiu a cores escuras.
Marrom fosco era o que prevalecia - principalmente as cortinas longas, os tapetes egípcios e mobília de mogno.
Pouco escapava-se dessa monotoniedade de tons.
O ambiente parecia um tanto deprimente, e a música de Ópera ao fundo reforçava a sensação nostálgica que os príncipes provavam ao adentrar curiosos no local.
A maioria seguira o padrão visual esperado para a noite. Roupas elegantemente lisas e de tom neutro opaco.
Louis usava um elegante conjunto todo preto, apenas com um colarinho de laço vermelho no pescoço, seu topete arrumado para o lado e o precioso relógio de bolso pendurado em seu pulso. Ele era sexy. Incrivelmente sexy. E não era a toa que as princesas sempre o encaravam por mais tempo do que o de costume.
Já as damas foram gradualmente chegando, ao passo que a lua aproximava-se do apogeu, e as cúpulas de ponche se esvaziavam.
A maioria dos jovens estava agindo cordialmente - e como ópera não é exatamente uma trilha que requer danças e valsas, eles apenas as puxavam para conversar.
Alguns irmãos das princesas também haviam sido convidados, e suas presenças eram intimidantes de um certo modo, pois estavam observando a interação dos príncipes com suas irmãs, e afastando-os sutilmente.
Tomlinson não pareceu encontrar dificuldades nisso, embora. Ele circulava o grande salão com um copo de conhaque na mão.
Cada um de seus braços era segurado por uma princesa. Lidia, uma bela dama do Reino Franco Bordoux, pendia no direito, com um longo vestido verde musgo realçando sua pele pálida e os cabelos loiros. Ao lado esquerdo estava a tão destemida Diana, que havia sido flagrada com Louis no primeiro Baile que tiveram, com uma veste sem grandes curvas e seus fascinantes cachos castanhos movendo-se soltos na altura da cintura.
E, até mesmo, o próprio irmão mais novo de Diana acompanhava-os no debate, fascinado pelo rosto delicado do futuro herdeiro de Riverland.
Príncipe William revelava-se cada vez mais proeminente diante cortes reais, estabelecendo boas relações e fortificando contatos que seriam importantes ao seu próprio reino.
Já na ala oposta do salão havia uma movimentação nada suave e discreta. Uma pequena roda de damas se formara ao redor de Harry Edward Styles, o que era de se esperar, visto que havia algo encantador em sua maneira suja de sorrir e lançar provocações no ar para que levitassem sem a menor vergonha.
Vestido totalmente fora do esperado para a ocasião, com um fraque e calças justas verde menta, ele basicamente assinalava uma placa de 'estou aqui para chamar a atenção' sobre sua cabeça.
Não seria difícil avistar alguém com uma cor tão vistosa cobrindo seu corpo, ainda mais quando uma gargantilha de diamantes adornava-lhe o pescoço, cintilando uma beleza ultrajante e uma ousadia irremediável.
Ele era a quebra de todas as normas de etiqueta, e a imposição de novas delas.
E, aquilo, soava estranhamente excitante para as inocentes garotas, que se viam enfeitiçadas pela maneira arrogantemente sensual que Harry falava, gesticulando suavemente com as pontas dos longos dedos ao o fazer.
- Mas, vossa alteza não deveria usar roupas de tonalidade escura? Não era obrigatório? - uma delas, a de coque alto que Styles não se esforçara para guardar o nome, indagou genuinamente curiosa.
- Darling, nada é obrigatório a um príncipe. - murmurou debochado. - Mas, se quer saber, esse código estético é para simular a fase sem cor e monótona de lagarta formando seu casulo. Seria contra minha persona aderir ao manual.
- Por quê?
- Porque eu já sou a borboleta. - cantarolou petulante e direto, apontando para si próprio e para o verde menta em destaque. - Eu já nasci colorido, não preciso passar pela fase crisálida quando tenho asas grandes o suficiente para alçar vôo por aí.
- Isso é um pouco... Prepotente.. - uma princesa jovem e ingênua comentou baixinho, recebendo então o olhar intenso das gramas de verão.
- Eu sei. - foi o que Harry murmurou. - E estupendo também.
***
Durante o tranquilo baile, entre o serviço de degustação de aperitivos feitos com camarão e o embebedamento através de muita champanhe de morango e ponche de uva, os príncipes começaram a se animar, conversando em tons elevados, rindo mais frequentemente, e até arriscando passos de dança - com um fundo inusitado de ópera.
A maioria se divertia sem requerer muito. Alguns em debates sujos, outros com a presença feminina ateando fogo em seus corpos.
Enquanto tudo se convertia a baderna, Zayn Malik estranhamente estava em seu próprio canto, afastado de toda a bajulação que geralmente o seguia para onde fosse, até mesmo das belas princesas que o laçavam pelo olhar descaradamente.
Escorado na grande janela, com uma taça de champanhe em sua posse e os devaneios perdidos ao fitar a paisagem exterior que aquela janela dava acesso - um jardim com uma fonte romana jorrando jatos de água pela boca de um anjo de mármore, típico - não percebeu a aproximação de alguém.
- Uma moeda por seus pensamentos. - escutou uma voz familiar ressoar em seus ouvidos, tirando-o do transe.
Sorriu educadamente ao encontrar Príncipe Payne ali, bebericando um copo de ponche enquanto devolvia o sorriso gentil.
- Honestamente eu quem deveria pagar para dize-los em voz alta, se fosse o caso. Beiram o tédio.
- Não estou ocupado, no momento. Coloco-me à disposição para eles. - Liam insistiu, escorando-se na parede, amassando a grossa cortina marrom com o apoio de seu corpo sobre ela.
Zayn pareceu debater internamente durante um momento, piscando devagar seus longos cílios. Ele nunca se importou de desabafar com alguém, estava feliz em manter sua realidade em modo privado.
Ao ponderar um pouco, suspirou.
- Bem, é só que meus pais não me respondem. Nenhuma carta. - Malik proferiu com uma certa agonia entonada em sua fala.
- Eles devem ter tido algum imprevisto, ou então a carta se extraviou. - Liam tentou conforta-lo.
- Na verdade, minha mágoa não é por não ter recebido notícias deles, e sim por não estar surpreso que isso aconteceria.
Era a quarta semana, e enquanto diariamente os jovens recebiam correspondências remetentes de seus familiares, lendo-as animados e com saudade, tudo que Zayn tinha eram declarações de amor platônico em anônimo, as quais ele sequer guardava.
- Eles não se preocupam. Não se importam. Ao menos não o suficiente para quererem se comunicar ou ao menos responderem uma das sete cartas que os envio semanalmente. É frustrante.
- Devo imaginar.
- Sinto muito por amua-lo com minhas queixas, vossa alteza. - Zayn se desculpou, chacoalhando a taça com um constrangimento natural.
Para quem deveria se sentir superior, tendo tantos admiradores e elogios o embalando por onde quer que fosse, deveria soar patético vitimizar-se em qualquer situação que fosse.
- Por que eles não se importam? - Príncipe Payne indagou, revelando interesse genuíno no assunto, como se não estivessem em uma noite de celebração e espairecimento após uma árdua semana atarefada.
Sua pergunta pegou Zayn desprevenido. Aquilo era tão pessoal.
- E-eu.. Bem, eu fiz coisas no passado que não os agradaram. É isso.
Liam percebeu sua hesitação e não o impeliu a prosseguir, limitando-se a concordar com um aceno de cabeça e sorrir pequeno, com compaixão, levando seu copo de ponche para tintinar suavemente à taça de Zayn, em uma menção de brinde.
Após ambos virarem boa parte da bebida em suas gargantas, Payne murmurou sua deixa:
- Não deveriam condenar erros com falta de afeto, isso por si só já é um erro. Ninguém pode se abster da função familiar, nada justifica. - Liam disse, uma comedida revolta exposta no tom que usou, o que acabou por intrigar Zayn pela relevância que dera ao pouco que o revelara, observando-o enquanto o mesmo se afastava em direção à algumas damas suecas.
Depois de finalizar sua bebida, sentiu-se cansado o suficiente para se abrigar no conforto de seu aposento, marchando com passos discretos em direção à saída - não seria pertinente de um cavalheiro abandonar a festa antes do toque de recolher.
No entanto, quando estava próximo das escadarias, uma mão segurou seu antebraço.
Virou-se surpreso para flagrar Harry Styles ali, sorrindo-o amplamente.
- Mas já vai tão cedo, milorde? - indagou, forçando uma careta de decepção.
- Não estou em uma noite boa. - foi o que usou para se justificar, depositando uma boa quantidade de gentileza e paciência para lidar com o insistente herdeiro de Malta.
- Devo supor que é pelas cartas nunca entregues de seus pais, sim?
- Como sabe disso?
- Ora, ora. As paredes deste palácio tem ouvido e olhos, não é difícil ficar a par da situação quando você está rodeado de vidro.
- Bom, não reluto ao confirmar sua suposição. Mas, já que está relativamente tarde, dou-me o direito de descan-
- Jura? Seus pais realmente o abominam pelo incidente com Coral? - Styles interviu, uma expressão de inocência e dúvida encenadas perfeitamente.
Os olhos do moreno se arregalaram instintivamente, pego desprevenido.
- C-omo s-
- Não vá me dizer 'como sabe disso?'. É deselegante repetir perguntas. - Harry murmurou insolente, um sorriso lateral querendo aparecer. - Mas, para sua felicidade, eu o explico que estou ciente do acontecimento por ser conhecido de Coral. Durante uma das visitas que realizei em seu reino, seu pai, rei de Arlen, me apresentou a garota com segundas intenções, dá para acreditar?!
- Eu não sei do que está falando. - Zayn respondeu e imediatamente o deu as costas, querendo subir depressa as escadarias.
No entanto, o monólogo de Harry, lançado ao alento, o conteve.
- Não acho que foi justo dos seus pais se horrorizarem tanto com a história. Digo, você e Coral são meio irmãos, só por parte de pai, não deviam se chocar ao os flagrarem transando atrás do depósito, certo?
Deus.
Malik voltou-se rapidamente para perto de Harry, ofegante. O breve discurso soou como um trovão rachando-se na tempestade, desarmando-o e chocando-o.
Styles lambia o lábio inferior com uma petulância visível.
- Incesto é um tabu muito forte nesse século, eu não o tiro a razão, Coral é uma bela garota, e vocês nem conviveram na infância, certo? Não é toa que seus hormônios falaram mais alto ao receberem-na em Arlen pela primeira vez.
- O que está tentando, Príncipe Edward? Como descobriu? - sua súplica era urgente. E paupável.
- Já o revelei, conheci pessoalmente Coral, ela me contou. Contou-me como o pai de vocês passou a repugna-lo e sua mãe nem olhou mais diretamente nos olhos. Você carrega um pecado nas costas o qual não se livrará tão cedo, e o preço a se pagar está sendo caro pelo o que vejo, mesmo dois anos depois de ter acontecido.
- Eu não deveria ter me deixado levar. Não deveria. - Malik confessou em um lamento arrependido, fechando os olhos com pesar.
- A culpa não é só sua. Se ela fez foi porque também quis. Por que apenas condenaram você? Talvez por causa dos boatos anteriores que já se deitara com um primo de segundo grau? É algum fetiche seu relacionar-se com sangue de seu sangue? - Harry proferiu, estendendo a mão para repousar em um sinal de apoio no ombro de Zayn.
- Foram deslizes. Todos comentem deslizes. - Malik se defendeu, embora não estivesse confiante sobre isso.
- Acredito que sim. - o cacheado cantarolou, levando a ponta de seu dedo indicador para traçar a mandíbula de Zayn, vagarosamente. - Mas não acho justo que finalize a noite de modo deprimente desse jeito. Eu ficaria contente em ajudá-lo, mais tarde, colocando-me fielmente à sua disposição... Para tudo. Agora estou ocupado com algumas damas.
Os olhos castanhos levantaram-se instantaneamente para os verdes intensos de Harry, que já o fitavam nebulosos.
- Não me sinto a von-
- Esse segredo não é o seu único, correto? Parece que as consequências acarretadas diante o episódio, bem, trouxeram-lhe um demônio que o vigia insistentemente. Será que o chamariam de doente? Como todos o enxergariam se descobrissem que-
- Harry! - Zayn advertiu em alerta, ofegante, desesperado. - Por favor.
Ele simplesmente não entendia como o cidadão de Malta tinha todos os Àz na manga.
- Reconsidere a minha proposta? - sugeriu, suas pestanas piscando perversamente, da forma intimidante que somente ele poderia o realizar. - Estarei à sua espera. - decretou por final, a voz calma, serena. Plenitude em suas chantagens.
***
Mais tarde naquele final de evento, enquanto subia das escadas preguiçosamente, Styles se atentou com um detalhe.
Deduzira que estaria sozinho no corredor dos aposentos, já que as luzes estavam apagadas.
Mas, se surpreendeu ao ver a distância Louis Tomlinson adentrando o quarto acompanhado de duas damas: Diana e Lidia, as duas risonhas e animadas.
Espremeu a visão em Diana, avaliando-a perplexo até a cabeça da perseverante princesa cheia de cachos achocolatados desaparecem no recinto, deixando-o inconsolavelmente abalado e intrigado. Diana.
***
How to Wear a Crown
Sábado, 26/06
Parece que domingo m*l começou e eu já venho trazê-los a bomba desta manhã.
Primeiro, debatemos da audácia de alguns príncipes ao serem flagrados perambulando de madrugada pelo segundo andar, aonde as princesas estão oficialmente hospedadas.
Parece que a moralidade não é um adversário competente quando se trata de tentações hedonísticas, hum?
O aclamado príncipe Gregory foi um deles, saindo discretamente o dormitório de Hailey Sheldman, uma britânica conhecida por seus grandes dotes artísticos (e talvez novos outros).
Mas, o choque verdadeiro, vem ao ser divulgado, em primeira mão, que Zayn Malik foi visto perambulando não pelo segundo andar das princesas, e sim pelo terceiro andar dos príncipes.
Alguma aposta mais sólida de que ele tenha finalmente cedido aos encantos do intragável Príncipe de Malta, Harry Styles?