Episode: When You were Gone
A melodia ressoada pelas tecladas interrompeu-se imediatamente.
Os grandes e arregalados olhos verdes denunciavam o susto ao ser de repente descoberto.
O último acorde tocado antes de intromissão - um sustenido da primeira oitava - ainda escoava seu som solitário pelo estúdio engolido no silêncio.
A figura bagunçada dos cachos selvagens e pálpebras inferiores inchadas encarava-o como se estivesse diante uma assombração.
Talvez fosse isso, visto que era madrugada e subitamente uma lamparina se ascendera em sua frente, revelando um jovem.
Não era qualquer jovem:
O Príncipe William e suas lagoas azuis.
Nenhum deles se atrevera a dizer absolutamente nada por um momento. Louis tentava demonstrar-se impassível apesar da surpresa estar estampada em sua face.
- Foi extraordinário. - Tomlinson elogiou com uma admiração educada presente na voz.
- Ninguém te ensinou a bater na porta antes de entrar?! - Styles retrucou rude, arqueando uma das sobrancelhas com um desdém hesitante.
- Não creio que escutaria meras batidas quando há um som estrondoso no interior, vossa alteza.
- Bem, bisbilhotar é uma falta de educação tremenda. - Harry acusou, levantando-se bruscamente do banquinho e se afastando.
- Eu estava apreciando a música, isso é tudo.
- Pelo menos serviu para deixá-lo de queixo caído então, hum? Aposto que não esperava tanto talento em uma só alma... - cantarolou com uma superioridade visivelmente encenada, sorrindo sem mostrar os dentes enquanto andava com passos dançados ao redor do piano.
Styles vestia pijamas de flanela amarelo e quentes. Simples. O oposto de qualquer extravagância que constantemente esbanjava.
Não parecia Harry. Não parecia o príncipe dos cachos esvoaçantes que desfilava por aí com anéis caros nos dedos e uma bengala de cobra.
- Confesso que me surpreendi mais pelo o que sua música transmitiu. - Tomlinson respondeu, flagrando o maior parar abruptamente e entornar-se para ele com um olhar fulminante.
- O que quer dizer com isso? - questionou em tom seco, que nem sequer intimidou qualquer célula de William.
- Que é quase possível se afogar na intensidade exprimida. As teclas são sufocantes e entregam uma solidão e tristeza cruas, vossa alteza.
A mandíbula bem delineada de Harry travou-se instantaneamente, seus olhos verdes se escurecendo com um ódio primitivo a medida que ele aproximava-se de Louis com passos ameaçadores.
Estava a centímetros de distância, fitando com fervor as lagoas azuis, sua respiração trêmula.
Era como uma fera aprisionada em um corpo humano, o qual Louis não recuara nem um milímetro. Ele não temia ninguém, muito menos o jeito hostil do Príncipe de Malta.
- Você está enganado! - exclamou, rangendo os dentes. - Traduziu a música erroneamente e agora acha que sabe alguma coisa!
- Eu não precisei traduzi-la. O significado era gritado na composição. - Tomlinson afirmou com uma voz calma, serenamente. Piscando lentamente suas pestanas em contraste à inquietação de Harry.
- Cale a boca. - reverberou. - Você não tinha o direito de invadir esse espaço e não tem o direito de opinar sobre mim! - acusou, sua pele avermelhada e uma postura vacilante. - Está insinuando o quê?! Que sou deprimido e sozinho?!
Styles afastou-se um passo, soltando uma gargalhada debochada enquanto pressionava a palma da mão sobre o estômago.
- Pelo amor, Príncipe William. Olhe para mim. Você realmente acha que eu tenho qualquer resquício de tristeza com todo o ouro que me cerca, todas as pessoas que me idolatram? - voltou a diminuir a distância entre eles, estando com seus rostos alinhados para exclamar pausadamente, em um sussurro m*****o: - Você tem é inveja de mim.
Louis não revirou os olhos.
Não riu sarcástico.
Não respondeu com um comentário arrogante.
O que acabou por surpreender Styles, já que uma das opções acima era exatamente o que faria em sua posição.
Tomlinson apenas proferiu, com uma voz firme e uma expressão séria.
- Você não precisa provar nada para mim, ou se justificar. Se isso é uma verdade, mantenha-a para você, vossa alteza. Quando você n**a algo de maneira insistente, acaba por estar negando a si próprio.
Sua fala calma e profunda ateou ainda mais fogo no interior de Harry. Ele estava tentando engolir a saliva e sorrir forçado balbuciando qualquer frase superficial para demonstrar desinteresse naquilo, mas estava sendo em vão, não podia reprimir o ódio que aquela insinuação propagava em suas veias.
- Eu não acredito que ela seja sufocante. Creio que é apenas incompreendida. - Tomlinson acrescentou.
- Pare de falar sobre mim! - -Styles resmungou, perdendo a cabeça e empurrando Louis por seu peitoral. O que surpreendentemente não o fez mover ou perder o equilíbrio. Tomlinson parecera uma muralha e o fato de sua tentativa de agressão não ter surtido efeito o deixou maluco.
- Eu estava falando sobre a música.
Styles calou-se, parando de empurra-lo e deixando seus braços penderem no ar, a respiração ofegante sendo o único barulho do ambiente.
Sua exaltação basicamente o entregou, dispôs em uma bandeja de prata o orgulho ferido.
Um ar denso pairava entre as paredes de isolamento acústico, a lamparina com sua luz próxima de apagar, ao que o súbito descontrole de Harry era substituído por uma calmaria duvidosa.
Depois do que se soaram cinco minutos de um silêncio incômodo e uma tensão não dissipável, Harry finalmente ergueu os ombros, retomando a postura inatingível dos sentimentos inabaláveis. Suas esferas perigosas na cor de gramas de verão não atingiam verdadeiramente as lagoas azuis. Pareciam frias. Impenetráveis.
Príncipe Edward esboçou um sorriso - quase perturbador - e se inclinou para sussurrar ao pé da orelha de Tomlinson.
- Eu o desprezo.
Segredado aquilo, marchou afora do estúdio de música com uma graciosidade arrogante, sem olhar para trás.
***
Harry Styles se ausentou das aulas e de todas as reuniões sociais nos próximos dias.
Nem mesmo no domingo, quando outro evento com a presença de princesas ocorreu - Banquete do Cristal - ele fez questão de aparecer.
Harry havia se tornado um habitante fantasma, e quando o assunto foi questionado a Luminiére - o governante real do Palácio - o mesmo respondeu que era normal seu isolamento nesta semana do ano.
Porque na segunda-feira seria aniversário de morte de sua irmã, Gemma Styles.
"How to Wear a Crown
Segunda feira, 21/06
Hoje, a maioria sabe, completam-se dez anos exatos desde que a primogênita de Des Styles, graciosa princesa de Malta - Gemma Styles - partiu (em uma polêmica história).
Ninguém sabe exatamente do que, mas a especulação é que tenha pego tuberculose ainda na adolescência.
Seu fiel e entristecido irmão, Harry Edward Styles, está supostamente ainda muito abalado e abatido com tal tragédia, visto que dera um chá de sumiço na última semana.
Quem diria que Príncipe Edward possui afinal sentimentos puros e verdadeiros naquele coração petrificado?
Seja como for, não perdeu grande coisa.
Ao menos não na celebração de domingo: Banquete de Cristal. Em que um lindo jantar sob candelabros de cristais indianos reluziram os fios sedosos das princesas.
Agora, com mais tempo de experiência e conforto, os príncipes estão finalmente se soltando, tendo alguns sido flagrados levando princesas para espaços privados e particulares como é de se esperar.
Nem uma delas foi possível identificar pela restrição facial das máscaras, mas deduz-se que em sua maioria eram dinamarquesas.
Já Louis William Tomlinson reafirmou sua preferência por princesas francesas, levando discretamente mais uma para seu aposento.
Em suma, o mais importante ao que se refere a hoje é nossa descoberta de um ponto fraco do inabalável Harry Styles. Gemma.
Att: Sua Fonte Anônima."
Ao finalizar a leitura em voz alta, o príncipe Gregory enrolou a 'carta', olhando para a roda de príncipes que se formara ao seu redor, curiosos pela polêmica da vez.
Eles estavam no Salão dos Homens, descansando durante dez minutos após o café da manhã antes que o sinal ressoasse indicando a continuação das aulas teóricas monótonas.
Se surpreenderam ao adentrar o local e encontrarem mais uma pilha daquilo que estava virando rotina com a tinta preta fresca cintilando o título 'How to Wear a Crown'.
Suas feições foram substituídas de interessadas para culpadas, com um sentimento r**m pesando na consciência por saberem que Harry Edward Styles estaria em uma fase difícil... Mesmo que o repugnassem em sua maioria.
Cory estava prestes a comentar:
- Pobre Príncipe Ed-
Quando a porta do salão foi bruscamente aberta, revelando o corpo esguio sob um longo rob vermelho de veludo, cachos perfeitamente ondulados e muitas joias adornando seu corpo.
Um sorriso grande cheio de dentes bordava o rosto de porcelana pálida de Harry Styles.
- Esplêndido! - saudou alegremente. - Todos já estão reunidos, será mais fácil para anunciar.
Balançava com deleite a cascavel de madeira Carolina no ar, rindo um pouco pelas expressões aterrorizadas dos demais príncipes.
- A-anunciar o que? - Gregory indagou, engolindo o choque.
- Oh! Mas é claro: uma festa! Uma gloriosa festa em meu próprio aposento que eu serei anfitrião! Será hoje, depois das aulas ao pôr do sol e surgir da lua, estarei esperando-vos para uma comemoração surpreendente!