Episode: Your Song
- Bom dia, Príncipe William. - clamou com uma reverência graciosa.
Louis piscou os olhos, dobrando meticulosamente as mangas de sua camisa de seda branca enquanto observava firmemente seu reflexo no espelho.
- Bom dia, Lorena.
- Jezebel trouxe seu café mais cedo e o depositou no criado mudo, depois foi resolver outras tarefas pendentes. Há algo em que lhe possa ajudar?
- Na verdade, há. Minha tinta preta acabou. Preciso de mais tinta fresca, pode providenciar pra mim?
A criada morena franziu o nariz parecendo confusa, Louis acrescentou rapidamente.
- É para escrever cartas à minha família. Você sabe, eu amo escrever. Gosto de deixá-los cientes de que estou bem.
- Oh, sim, vossa alteza. Retornarei assim que possível.
Tomlinson concordou, ajeitando a franja que insistia em cair sobre sua testa logo que crescera mais do que o suficiente.
O que soou dois minutos depois, a porta foi aberta, Lorena adentrando com dois potes de vidro preenchidos de tinta fosca e fresca.
- Isso é o bastante, vossa alteza?
- Sim. Com certeza. Foi rápida. - exclamou em agradecimento.
- Há uma divisão na ala dos criados com uma espécie de estoque para abastecimento de tudo que julgam ser necessidades dos príncipes. Se necessitar de mais delas, me deixe saber.
- Obrigado. - disse satisfeito, depositando os potes sobre um prateleira de madeira do quarto. - Hoje terei aula do que mesmo?
- Quarta-feira. Aulas regulares de política, seguida da atividade específica de instrumentos musicais.
- Certo. É o que é.
***
Após seis horas acompanhados de um ancião calvo com de voz monótona, tudo que a maioria dos príncipes não desejavam era que a aula de tarde fosse de instrumentos.
Não que eles desgostassem, no entanto era consensualmente a menos favorita dentre todas as outras - em que geralmente seus esforços físicos desestressavam seus corpos entediados.
Para Louis, embora, era sua favorita.
Cada príncipe estava suposto a escolher um instrumento de sua preferência e pegar prática nele até que tocasse com perfeição - fazia parte do desenvolvimento intelectual de um futuro rei.
A maioria optava por violino ou piano de corda, contudo, Louis sempre almejara tocar harpa.
Apesar de soar como o mais fácil, não era.
Ele já sabia manusear as cifras de um piano, possuía certa familiaridade com as cordas do violão, e agora estava pronto para aprender a dedilhar suavemente as notas sinfônicas em uma delicada harpa de ouro, a qual era disponível para uso durante as aulas.
O professor principal era um adulto, chamava-se Dingo, e contava com a ajuda de muitos outros auxiliares. Um pra cada príncipe.
Todos os músicos auxiliares eram obrigados a terem conhecimento fluente em todos os instrumentos, e eles ficavam à mercê da preferência que seu príncipe demonstrasse.
Tomlinson encontrou-se com Paul, seu instrutor particular no canto do estúdio de música, ganhando a admiração do mesmo por escolher tal instrumento - que era uma escolha rara para jovens.
Eles passaram os primeiros trinta minutos em ensinamentos teóricos sobre as notas da harpa celta - composta por cordas estendidas em uma moldura dourada aberta, que, na execução, se dedilha, dispondo de pedais rudimentares que afetam a afinação das cordas, gerando sons cromáticos.
Com suas primeiras tentativas Louis revelou-se um aluno de aprendizagem fácil, executando com sucesso os acordes iniciais, tentando transformar aquilo em uma composição harmônica.
- Aprendeste rápido, vossa alteza, estou impressionado. - Paul elogiou. - Talvez se afinar dois graus mais agudos obtenha um som mais limpo.
- Agradeço seu conselho. Ajustarei imediatamente.
Duas horas se transcorreram. A sala era uma bagunça de sinfonias, uma salada de melodias feitas por diversos meios.
Louis Tomlinson - com sua harpa e uma vontade fervorosa de domina-la - não foi considerado o aluno destaque, embora.
Esse título pertenceu a Niall Horan e sua habilidade extraordinária com a flauta.
Sentado em um canto afastado, com seu instrutor, Niall soprava poesia de seus lábios, e aos poucos os outros jovens foram parando o que faziam para escuta-la. Escutar palavras transformadas em composição musical, ritmadas como um soneto, rimadas de modo singular.
Diz-se que canções traduzem sentimentos.
Niall soava como uma libertação poética deles. O príncipe que pouco conversava ou confiava nas pessoas estava demonstrando, em sílabas não ditas e notas bem entoadas, que ele era um poço de talento subestimado.
E havia muito potencial ali.
Os demais, com seus olhos de admiração, esperaram que finalizasse para preencherem o silêncio com aplausos altos.
Aplausos que causaram o enrubescer da pele quente do loiro, remoendo uma alegrias contida e se limitando a olhar brevemente para cima com um meio sorriso de agradecimento.
Estava tudo tão calmo.
Tão certo e harmônico...
Parecia que havia algo faltando.
Algo de errado.
Foi nesse instante - em meio a devaneios de concórdia e sorrisos fascinados - que alguns príncipes começaram a notar a ausência de alguma coisa.
Ou melhor, alguém.
Como se estivessem a espera do empecilho que estragaria o momento com seu trejeito arrogante e comentários esnobes.
Foi assim que deram por falta do príncipe Harry Edward Styles que, se alguém houvesse se importado o suficiente para reparar, estava sumido desde segunda, ausentando-se das aulas teóricas e práticas, dos almoços, cafés e jantares, e nem mesmo dando o ar das graças do Salão dos Homens.
****
- Senhor, precisará de nós para mais algum serviço? - Jezebel indagou-lhe, desamassando a borda de seu avental de babados brancos.
Lorena estava logo atrás dela, olhando Louis através de suas orbes verdes claras tímidas e um sorriso contido no rosto.
- Não, garotas, está tarde já, peço que vão descansar assim como eu. Têm feito muito por mim. - Louis disse, fazendo uma breve reverência para as duas, que o fitaram perplexas depois disso.
Um m****o da família real jamais deve se encurvar diante uma figura inferior, como uma criada. Era a etiqueta.
Mas isso não parecia impedir o futuro rei de Riverland de demonstrar respeito e submissão para duas moças com tão pouco a oferecer além de suas mãos de obra.
Apesar de parecerem ainda desconcertadas e incrédulas, elas o devolveram a reverência e se despediram, desejando uma noite de sonhos bons e deixando seu aposento.
Louis pôde inspirar fundo ao estar sozinho.
Mas, ele sabia. Não estava sozinho.
Estava acompanhado de sua fiel insônia, que o manteria acordado provavelmente até pouco antes do sol raiar, quando seu corpo cederia de exaustão.
Pensou o que seria dessa vez.
Durante algumas madrugadas ele escrevia.
Em outras, lia livros diversos que buscava na biblioteca.
Quando estava inspirado, desenhava.
No entanto, nenhuma destas atividades pareciam agrada-lo no momento.
Uma súbita coceira na ponta de seus dedos sinalizavam que seu coração palpitava pela harpa. Ele queria tocar. Definitivamente queria tocar.
Apesar de seguir as regras de conduta a finco, não havia nenhuma que o impedisse de utilizar especificamente o estúdio de música durante a madrugada. Talvez não tenham a estabelecido por conveniência, já que ninguém possivelmente iria dedilhar composições após meia-noite.
Portanto Louis não enxergou problema em apropriar-se da harpa celta durante algumas horas, enquanto o sono não caísse em suas pálpebras. Além do que, a sala possuía um revestimento de isolamento acústico, ninguém se incomodaria com aquilo.
Determinado, Tomlinson abandonou seu pijama de ceda e colocou uma calça de malha fina preta, uma camisa branca simples e rumou descalço mesmo para o andar debaixo, estreitando os olhos na intenção de enxergar o caminho em meio ao breu da noite.
Sombras formadas pela luz da lua - infiltradas através das janelas de vidro sem cortinas - refletidas em móveis, cedia ao trajeto um ar sombroso e mitológico, principalmente as esculturas de anjos e divindades gregas.
Ele sabia que estava perto após cruzar toda a parte central do palácio, desviando discretamente de um ou outro guarda que realizava a patrulha noturna.
Foi ao empurrar sutilmente a maçaneta do estúdio, que surpreendeu-se ao escutar a música.
Estava muito escuro para distinguir quem era, ou o que tocava. Ele reprimiu a surpresa e adentrou rapidamente a sala, fechando rápido a porta atrás de si para abafar o som vibrante.
Percebeu ser da área dos pianos de corda.
Era uma melodia de piano.
Estrondosa.
Forte.
Intensa.
Pelo o que escutava, sentia. Sentia muito.
A música possuía uma profundidade espiritual tão sólida que era quase absorvida por seus poros.
Os acordes eram pressionados com uma rapidez espetacular, tocados em uma mescla de primeira e terceira oitavas, compondo um som grave e energético, como o efeito de um trovão explícito em teclas de piano.
Era ... Demasiado.
Parecia sacudir a sala, arrepiar a pele e embaralhar a audição.
Mas, sob toda intensidade monstruosa e agressiva das notas - pressionadas principalmente em um conjunto de dó-mi-sol simultaneamente e da deriva apressada que a mão direita exercia sobre a terceira oitava - havia algo perdido ali.
Havia um sentimento no miolo da coisa.
Não era só música.
Era um grito abafado e sufocante.
Era uma união de sons secos e penetrantes que diziam muito além daquilo.
Havia solidão.
Havia dor.
Parecia uma névoa de confusão em que uma pequena lágrima se dispersava em seu centro.
Um pedido de socorro mudo, e um grito de desespero surdo.
Aquilo soava como uma tortura para os ouvidos. Soava como uma composição musical que não significava poesia, e sim uma pintura abstrata.
Louis quase se sentiu um sinestésico ao conseguir enxergar através daquele som ácido uma tela, pintada com cores sólidas e nostálgicas como um Azul Oxford atrelado ao Preto fosco em pinceladas largas e aleatórias. E no foco de toda a disposição sombria, havia um pingo azul claro derramado em seu meio, como uma lágrima pura e triste prestes a deslizar.
Completamente atordoado, Tomlinson fez o seu melhor para comandar as pernas a se moverem, tateando as paredes do estúdio até chegar no armário onde se guardavam objetos básicos e pequenos, como palhetas, baquetas, cordas extras e fósforos para acenderem as lamparinas.
Ele pegou cuidadosamente uma lamparina de base de cobre e cúpula central de vidro e retirou um fósforo de uma caixinha.
Fechou o armário silenciosamente e andou às cegas pelo grande cômodo, esforçando-se para não tropeçar em fios ou instrumentos.
Ao perceber ter finalmente chegado na frente da origem de toda aquela música vomitada continuamente, apoiou a lamparina sobre a cauda do enorme piano preto de corda e acendeu o fósforo, lançando luz sobre o ambiente.
A luz aniquilou as sombras.
E incendiou seu interior.
Foi imediato quando a claridade atingiu o perímetro ao redor do artefato.
E revelou-se ali o músico,
Revelou-se a presença do intragável Harry Edward Styles.
Sua alma se expondo e sendo inflamada pelas chamas de uma madrugada trágica de verão.