Silvestre estava deitado na cama. Era pequena e desconfortável para o tamanho dele, mas era o que tinha. Estava de olhos fechados, tentando descobrir em que país ou cidade estava. Sabia que tinham viajado de avião em algum momento daquele ano, apesar de não ter certeza nem mesmo de que ano estavam. Ficou de olhos fechados, ouvindo a televisão, mas parecia ser alguma coisa gravada havia muito tempo. Ou talvez não. Ele não entendia muito bem nem como as televisões funcionavam. Antes, eram alguns canais estranhos que passavam praticamente as mesmas coisas, mas, em algum momento, o pai tinha colocado outra televisão e ele percebeu que alguns assuntos pareciam acontecer de maneira seriada. Era o que chamava de filmes divididos. Agora estava ali com outra TV, que não parecia funcionar da mesma maneira. Aquilo o confundia algumas vezes.
Também não conhecia muitas línguas. Conseguia entender português, espanhol e inglês porque tinha lido livros e escutado a televisão. Foi aprendendo com a ajuda de dicionários, do rádio e das coisas que escutava o pai conversar ao telefone.
Jackson jogou uma garrafa de água para ele.
— Em que país estamos, Jackson?
— Para que quer saber?
— Em que país estamos?
— Alemanha.
Era mentira. Silvestre tinha certeza de que Jackson estava mentindo, porque tinha escutado um caminhão passar e também um carro com a música ligada, e não era alemão. Apesar de não falar alemão, conseguia reconhecer os sons mais fortes da língua. Jackson estava mentindo. Silvestre olhou para uma sacola de mercado que estava em um canto e percebeu que as palavras impressas nela estavam em inglês. Estava em algum país que falava inglês ou cuja língua oficial era aquela. Para ele, havia duas possibilidades: Inglaterra ou Estados Unidos. Pelo menos, eram esses os dois países que conhecia que usavam aquela língua.
Fechou os olhos novamente, mas abriu ao escutar a movimentação. Jackson pegou uma foto. Silvestre sabia que aquelas fotografias eram impressas na impressora que estava no canto e que tinha chegado junto com a mudança.
— Venha ver uma coisa.
Silvestre se sentou, ficou observando e depois caminhou até a grade. Jackson jogou a fotografia lá dentro e se afastou. Era a foto de uma mulher. Tinha cabelos longos, olhos bonitos e estava na areia. Era um lugar que Silvestre nunca tinha visto pessoalmente, mas já tinha visto algumas imagens na televisão e nos filmes. Era uma praia. Ele alisou a fotografia por alguns instantes porque achou a mulher bonita , sentiu desejo ao olhar nos olhos de uma mulher através de uma fotografia.
— Quem é ela?
— A minha mulher, Silvestre.
Silvestre rasgou a foto. Se era a mulher de Jackson, não valia nada, assim como ele. Mas então se lembrou de uma conversa em que o pai dizia que Jackson era rui.m para a mulher. Bem que podia ter sonhado aquilo por causa das drog.as. Às vezes, não sabia muito bem o que era realidade e o que não era.
— Não a acho bonita., Silvestre?Se quiser, eu a trago para conhecê-la. Talvez dela você goste.
Silvestre gemeu sem nem perceber, mas Jackson ouviu, assim como Silvino, que entrava naquele momento.
— Traga a sua mulher, Jackson.
__ Ele pode mattá-la. Não vê?
— Se ele mattar, a gente arruma outra.
Silvino respondeu.
— Não, chefe, porque eu gosto dela.
— Gosta nada, senão não faria o que fez.
Jackson saiu, mas voltou pouco depois.
— Quanto me dá por ela?
— Dez mil dólares é o que posso te oferecer.
— Eu aceito.
Jackson saiu novamente, mas Clarinda ainda não tinha voltado para casa. Ele foi vigiá-la no posto de gasolina e a viu. Desceu do carro, mas sua mulher percebeu a aproximação dele e correu para o banheiro feminino. Jackson ainda tentou entrar, mas o segurança do posto o barrou.
— Não pode entrar, senhor. Só mulheres.
— A minha mulher está lá dentro.
— Então ligue para ela e peça para ela sair. Se entrar, vou chamar a polícia.
O segurança apontou para as câmeras.
— Temos tudo gravado. Então faça o favor de se retirar.
Jackson permaneceu no posto durante quatro horas, mas Clarinda também era persistente. Não sairia. Faltava somente um dia para receber o pagamento e, se não conseguisse se livrar de Jackson ali, mudaria de cidade. Já tinha escutado o marido dizer que, no mês seguinte, eles se mudariam para a Florida, e ela não iria acompanhá-lo. Não sabia por que o chefe dele, que era geneticista e fazia pesquisas, vivia se mudando. Achava que era em busca de pessoas para participar dos projetos dele, mas agora nem mesmo queria saber.
Ia abandonar Jackson, mesmo se depois ele a mattasse, era melhor, morrer do que viver aquela vida.