Capítulo 2: O encontro

735 Words
Vivi em um lar adotivo até meus 16anos e de lá pra cá tive que aprender a ser forte. Os estudos sempre foram minha arma, falo vários idiomas, sei administrar, sou ótima em contas e negociações. Mais nenhuma dessas qualidades e estratégias me ensinou a como lidar com a perda. Sou tirada dos meus pensamentos por meu querido chefe me chamado, ou melhor, gritando. - O hóspede está chegando. Quero esses copos brilhando e sempre cheios. De o seu melhor garota. Suspirei e tomei meu posto no balcão do bar. Hoje ficarei somente no balcão e agradeço por isso, afinal odeio quando eles tentam encostar mais que o nescessário. Não demora e vejo vários figurões entrando. Um senhor de idade já avançada e o primeiro a se sentar. E eu dou início ao meu atendimento teatral. O senhor à minha frente tem mãos cobertas por anéis de ouro que pesam tanto quanto o poder que emana de seus poros. Ele pede uma dose de Beluga Noble sem sequer me olhar nos olhos, tratando-me como uma extensão mecânica do balcão e eu gosto disso, sútil, educado e discreto. Sem olhares demorados demais. Ele pede ou melhor manda e eu faço. Eu sirvo, o movimento é fluido e automático. Polir, servir, ignorar. O bar do Metropol é um aquário de tubarões em ternos italianos. Homens em busca de poder absoluto mais sempre respeitando a história do outro. O cheiro de tabaco caro e perfumes amadeirados impregna o ar, sufocando o pouco de oxigênio que me resta. Enquanto limpo uma mancha invisível no mármore, fico pensando nas minhas amigas. Saudades de nossas conversas, as tardes cheias de pipocas, chocolates e vinhos. Já se passaram 1 ano desde a partida precoce de Aleksandr e eu ainda sofro meu luto e minhas amigas mesmo não concordando me respeitam. Elas nunca gostaram de Aleksandr. Dizia que ele era "areia elas não o conhecia como eu. Ou talvez... talvez eu não o conhecesse de verdade. Nunca soube oque ele realmente fazia, mas ele ela cercado de luxo. Ostentava uma vida que eu sempre sonhei e que ele prometia que iria me apresentar quando nós nos casasse. Olho ao redor e a conversa continua a fluir. Todos com atenção total ao melhor senhor sentado ao balcão. Somente o tilintar do gelo nos copos se era ouvido no meio de tanta conversa silenciosa, olhar e ameaças. Subitamente, o burburinho do bar sofre uma alteração de frequência. A porta pesada de carvalho se abre e o ar parece congelar, ficando ainda mais denso que o inverno lá fora. Um grupo de homens entra, mas apenas um comanda o espaço e os meus olhos depois de meses olha para alguém de forma diferente. Ele não é velho como o primeiro cliente; mas não tão jovem, porém e imponente e carrega uma aura de violência contida que faz meus pelos da nuca se arrepiarem. Meu chefe, que segundos atrás gritava comigo, agora se curva tanto que temo que sua coluna parta ao meio. — Ivan Volkov! Que honra recebê-lo de volta. Sua mesa reservada está... — No balcão — a voz do homem é um trovão baixo, seco. — Hoje eu quero o balcão. Ele caminha em minha direção. Eu mantenho a cabeça baixa, focada em um copo de cristal. Sinto sua presença como uma fonte de calor em meio ao gelo de Moscou. Ele se senta exatamente à minha frente. — Uma dose de uísque. Sem gelo. E levante o rosto, dorogaya (querida). Não gosto de falar com o topo das cabeças das pessoas. Eu travo. Aquela voz... há algo nela que arranha memórias que eu tentei enterrar, memórias de como sorrir e voltar a sonhar. Jurei jamais me iludir. Lentamente, levanto o olhar. O Reflexo do Passado, o reflexo de alguém que eu sempre sonhei. Os olhos dele são de um azul tão pálido que parecem feitos de vidro. Ele me observa não com luxúria, como os outros, mas com uma curiosidade cirúrgica, como se estivesse lendo minha alma através do uniforme de garçonete. E pra ser sincera não me sinto incomodada. — Você é nova — ele afirma, enquanto eu sirvo o líquido âmbar com as mãos levemente trêmulas. — Estou cobrindo uma falta, senhor — respondo, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — Você tem olhos de quem já viu o inferno e decidiu decorar o lugar. Eu não respondo.
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