A MUDANÇA
Meu nome é Helena. Tenho 25 anos e acabei de me mudar para um apartamento no centro da cidade. É pequeno, antigo, com aquelas janelas grandes de vidro fino que deixam entrar o barulho da rua e o frio da madrugada. Mas é meu. Depois de meses dividindo apartamento com estranhos, finalmente consegui um lugar só pra mim.
O prédio é silencioso. Quase ninguém mora aqui. O zelador, seu Antônio, um senhor magro de mãos grossas e olhar cansado, me disse que a maioria dos apartamentos está vazia há anos. Falou que eu ia ter sossego. Que o prédio era quieto, que os vizinhos eram discretos, que ninguém me incomodaria.
Ele não estava errado. Só não me contou tudo.
Na primeira noite, eu não consegui dormir. Mudei de casa, de bairro, de vida. Tudo era novo. O cheiro de tinta nas paredes, o barulho do encanamento, o eco dos meus próprios passos no chão de taco. E o silêncio. O silêncio era alto demais. Aquele tipo de silêncio que parece que tem alguém respirando dentro dele.
Levantei da cama por volta das onze e meia da noite. Fui até a janela da sala, aquela que dá de frente para o prédio em frente, e abri a cortina devagar. A rua lá embaixo estava vazia. Só um cachorro de rua dormindo perto de uma lixeira e um casal caminhando de mãos dadas na calçada oposta.
Foi quando eu olhei para cima.
O prédio em frente é idêntico ao meu. Mesma fachada cinza, mesmas janelas escuras, mesmo ar de abandono. Mas havia uma luz acesa. No terceiro andar. Apartamento 3B. Uma luz amarelada, fraca, como se viesse de um abajur antigo. E atrás da cortina, eu vi uma silhueta. Parada. Imóvel. Olhando na minha direção.
Eu ri. Ri de mim mesma, de nervoso. Pensei: "É um vizinho solitário. Cidade grande tá cheia disso. Gente que fica na janela vendo a vida passar." Normal. Até humano, de certa forma.
Fechei a cortina e voltei pra cama. Mas não consegui dormir. Fiquei olhando pro teto, com aquela sensação estranha no peito. Uma sensação que eu não conseguia nomear. Era como se alguém tivesse passado a mão na minha nuca e deixado um dedo ali, parado, esperando.
No dia seguinte, encontrei seu Antônio no corredor. Ele estava varrendo o chão, como sempre, com aquela vassoura de palha que range no piso. Puxei conversa. Perguntei quem morava no 3B do prédio em frente.
Ele parou de varrer.
Não olhou pra mim de imediato. Ficou parado, com a vassoura no ar, como se estivesse decidindo o que dizer. Depois, apoiou a vassoura na parede e limpou a mão no short.
— 3B? Ali num mora ninguém, moça. Tá vazio há uns dois anos.
— Vazio?
— É. O antigo morador... — ele hesitou. Passou a mão no queixo. — Bom, melhor não falar. Mas tá fechado. Sem luz, sem água, sem nada. Ninguém entra ali.
Eu ri. Disse que devia ser impressão minha. Que a luz devia ser de outro apartamento, que a silhueta devia ser um reflexo, uma cortina, qualquer coisa. Mas eu sabia o que tinha visto. E ele sabia que eu sabia. Porque quando me virei para subir as escadas, senti o olhar dele nas minhas costas. Um olhar que dizia: "Você não devia ter perguntado."
Na terceira noite, eu decidi filmar.
Não sei por quê. Talvez pra provar pra mim mesma que eu estava ficando maluca. Talvez pra ter uma prova. Talvez porque, no fundo, eu já sabia que aquilo não ia parar sozinho.
Posicionei o celular na janela, apoiado no parapeito, com a câmera apontada para o 3B. O quarto estava escuro. Eu estava sentada na cama, de costas para a janela, olhando pro relógio digital na mesinha de cabeceira.
23h44.
23h45.
23h46.
O relógio virou para 23h47.
A luz do 3B acendeu.
Eu me virei devagar. Lá estava ele. De novo. Parado. Olhando. A mesma silhueta, o mesmo contorno escuro atrás da cortina fina. Imóvel. Como uma estátua. Como uma coisa que não respira.
Peguei o celular e aproximei o zoom. O máximo que consegui. A imagem ficou granulada, tremida, mas dava pra ver. Não era um reflexo. Não era uma cortina. Era uma pessoa. Um vulto humano, de pé, atrás do vidro. E o que me gelou não foi o fato de estar lá. Foi perceber que ele não estava olhando pra rua. Não estava olhando pro horizonte. Não estava olhando pra nada além da minha janela. Exatamente pra minha janela. Como se soubesse que eu estava ali. Como se estivesse esperando eu aparecer.
Abaixei o celular devagar. Respirei fundo. Fechei a cortina. Tranquei a janela. E fiquei parada no escuro, sem me mexer, por uns dez minutos. Não sei quanto tempo exatamente. Só sei que meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvir o sangue nos meus ouvidos.
Quando finalmente criei coragem pra olhar de novo, a luz do 3B estava apagada.
Silêncio.
Voltei pra cama. Deitei de costas. Fiquei olhando pro teto. O celular ficou na mesa de cabeceira, com a tela iluminada, refletindo um pouco de luz no quarto. Eu não conseguia dormir. Ficava pensando se devia chamar a polícia. Pensando se era só impressão. Pensando se eu estava ficando louca. Pensando se...
Parei de pensar.
Porque naquele instante, no meio do silêncio, eu percebi uma coisa. Uma coisa pequena. Uma coisa boba. Mas que me fez gelar da cabeça aos pés.
Eu tinha fechado a cortina.
Eu lembrava de ter fechado a cortina. Eu tranquei a janela. Eu me certifiquei de que nada estava aberto. Mas quando virei a cabeça devagar para o lado, só um pouco, só o suficiente pra ver com o canto do olho...
A cortina estava aberta.
Não entreaberta. Não balançando. Aberta. Escancarada. Como se alguém tivesse puxado o tecido para o lado e deixado ali, esperando.
E lá no 3B, a luz estava acesa de novo.
Eu não me mexi. Não respirei. Fiquei parada, olhando pela janela, com o coração na garganta. E foi então que eu vi.
Não era uma silhueta.
Eram duas.
Duas pessoas. Paradas. Imóveis. Olhando pra mim.
E uma delas estava mais perto do vidro do que a outra. Como se tivesse acabado de chegar. Como se tivesse acabado de se juntar à primeira. Como se estivesse esperando o momento certo pra se revelar.
O relógio na mesa de cabeceira marcava 23h47.
E eu ainda não tinha me mexido.