Engolindo em seco, completamente tenso, conforme a madrugada avançava, Edward ouviu seu coração fragilizado b*******a última e dolorosa vez, antes de se calar para sempre.
Incerto, ele permaneceu onde estava, a pouco mais de dois metros dela, aguardando que ela se mexesse primeiro. Contudo, a garota apenas permaneceu congelada, estendida sobre a relva, sem nem ao menos respirar – algo que ele sabia que era perfeitamente normal para alguém como eles – e a mente ainda absolutamente silenciosa, o que secretamente o frustrou um pouco. Uma parte dele – uma parte impertinente e egoísta que ele reprimira durante aqueles três dias de espera – ansiava por poder começar a ouvi-la quando eles fossem mais parecidos. Mas lá estava ela, ainda silenciosa e envolta em segredos e mistérios, deitada e tranquila como um cadáver. Não, uma palavra tão fúnebre não lhe fazia jus. Com os escuros e grossos cabelos castanhos espalhados ao seu redor, a pele pálida como a mais pura neve e os lábios cheios e avermelhados, ela parecia a encarnação de uma branca de neve imortal.
Algo que só serviu para lembrá-lo que um dos pensamentos que ele vinha reprimindo naqueles últimos três dias era o quanto ela era linda. Ele não era cego para a beleza feminina, é claro, mas era a primeira vez que ele não apenas registrava os atributos simplesmente... Mas também os apreciava. Se sentia atraído... Encantado.
Seduzido.
Com um grunhido irritado, Edward pensou como era inacreditável que ele conseguisse perder a humanidade e a cortesia cada vez mais. A pobre menina ainda nem tinha noção do que se transformara e lá estava ele, cobiçando-a vulgarmente.
É claro que ela era iria para longe dele assim que pudesse.
A primeira reação dela o trouxe de volta de seu monólogo autodepreciativo: as sobrancelhas da garota se franziram levemente, enquanto o resto formava uma expressão quase pasma – ele se lembrava de também ter ficado paralisado quando o fogo parara de queimá-lo em sua própria transformação, quase um século atrás; talvez fosse aquilo, ele tentou adivinhar: ela estava surpresa pela perda da queimação agonizante.
Aparentemente, seria sempre assim quando se tratava dela: adivinhações e hipóteses, nunca certezas absolutas.
Ou seria essa a razão de seu fascínio inexplicável? A imprevisibilidade não era comum no mundo de um leitor de mentes e poderia ser realmente atrativa, especialmente depois de tanto tempo conseguindo acesso aos pensamentos mais íntimos das pessoas no mesmo segundo em que as conhecia. Talvez fosse por isso que ele se sentia tão estranho...
Senão, qual a outra opção?
Ele quase deu um salto para trás quando ela abriu os olhos, agora não mais cor de chocolate derretido, mas sim profundamente escarlate, e encarou o céu ainda escuro sobre si, com o rosto inexpressivo. Ele aguardou mais alguns curtos momentos, mas ela não olhou em sua direção. Confuso, Edward se perguntou se ela não estaria distraída – ele se lembrava bem de como as novas habilidades aprimoradas podiam gerar grandes surpresas e também distrações para a nova e ampla mente de um recém-nascido; fora assim com ele também, em seus primeiros anos - com o mundo, agora certamente mais nítido e vívido do que nunca, diante de seus novos e aprimorados olhos e por isso ela permanecia encarando o céu com óbvio choque e interesse, ainda sem demonstrar ter percebido que ele estava por perto. O que era impossível, porque ela provavelmente podia sentir seu cheiro. Ou será que ela estava deliberadamente ignorando-o?
Sempre tão cheia de segredos com aquela mente silenciosa...
A mesma mente muda que não lhe permitiu prever quando ela repentinamente virou os olhos em sua direção e deu um salto para trás ao percebê-lo, pondo-se de pé em um átimo. Temendo mais do que tudo que ela fugisse dele, Edward ergueu as mãos levemente, tentando demonstrar que não queria machucá-la, mas, como estava se tornando comum, a garota o surpreendeu. Ao invés de correr para longe, ela inclinou a cabeça para o lado e o olhou demoradamente, a expressão quase que fascinada, avaliando-o sem pressa, detalhadamente. Mais uma vez, ele formulou a hipótese de que aquilo tinha algo a ver com a natureza dos recém-nascidos: Edward também ficara confuso quando vira o rosto de Carlisle pela primeira vez; a semelhança com os humanos, mas ainda assim com aqueles traços anormalmente angulosos e afiados que denunciavam a anomalia. Muito provavelmente era aquele mesmo tipo de choque e interesse que a estavam fazendo olhá-lo com tanta intensidade...
Por isso, não importava o fato de que ter a atenção dela para sobre ele estivesse fazendo seu peito estremecer estranhamente.
- Calma, eu não vou machucar você. – ele prometeu gentilmente, vendo-a engasgar ao ouvir sua voz pela primeira vez, mas ainda sem demonstrar medo, apenas aquele intenso... Fascínio.
Ele tinha que parar de dar interpretações tão errôneas para as expressões dela. Ele não ouvia seus pensamentos e não podia ser tão prepotente ao ponto de achar que ela também o acharia atraente de alguma maneira. Provavelmente era apenas uma distração momentânea de uma recém-nascida.
E se era a explicação mais racional, por que o fazia se sentir tão... Desapontado?
- Meu nome é Edward. – ele se apresentou, nem ao menos tendo que se esforçar para manter o tom de voz suave, gentil e baixo, como uma carícia; parecia automático com ela – E o seu? – ele perguntou-lhe, internamente se questionando o quão turvas e confusas deviam ser as memórias da vida humana dentro da cabeça dela. As dele vinham se esvaindo cada vez mais com o passar do tempo, especialmente porque ele não fazia muito esforço para preservá-las, mas ela havia sido humana a apenas três dias atrás, então provavelmente as recordações deviam estar um pouco mais frescas.
Era quase risível a maneira profunda como ele queria saber o que se passava na cabeça dela.
Sua hipótese, contudo, provou estar um pouco certa e ainda assim um pouco errada quando a garota mordeu o lábio carnudo por um rápido segundo, - e os olhos traidores de Edward foram atraídos para lá também, aumentando aquela estranha e desconhecida fome dentro dele - parecendo confusa e perturbada, até que finalmente seus olhos vermelhos se acenderam com um reconhecimento quase aliviado.
- Bella. – ela falou pela primeira vez, a voz melodiosa preenchendo o ar e fazendo os dois congelarem; ela porque aparentemente se surpreendera com como sua nova voz soava agora; ele, porque o som doce e musical repentinamente o fizera ter vontade de dar um passo a frente e tomá-la nos braços...
O que havia de errado com ele?
- Meu nome é Bella. – ela completou finalmente, o tom de voz revelando choque, mas também um pouco de alívio. E Edward teve que literalmente morder a língua para evitar perguntar a ela o porquê daquela reação.
- Muito prazer, Bella. – ele deu um sorriso mais caloroso do que pretendia, talvez porque aquele nome, – e o fato de que significava literalmente linda em italiano – apenas havia completado sua ridícula fantasia de Branca de Neve. Pele branca como a neve, cabelos escuros como a noite, lábios rubros como uma rosa e mais bela do que qualquer outra mulher que ele já vira em sua longa existência – pelo menos para ele. A diferença é que ela podia não estar dormindo, mas estava, infelizmente, morta. E não havia um príncipe encantado para devolvê-la à vida com um beijo de amor. Apenas um vampiro eremita e recluso que m*l conseguia olhá-la decentemente, sem ter vontade de beijá-la como um pervertido. – Diga-me... Você se lembra do que aconteceu? Quando você estava em Port Angels, à noite?
Ele se arrependeu imediatamente de ter-lhe perguntado aquilo tão diretamente ao ver o horror preencher suas feições, tornando-o mais ansioso do que nunca para ir até ela e consolá-la... Mesmo sem ter a mínima ideia de como faria isso. Tudo o que ele queria era que aquele terror maldito deixasse sua Bella em paz.
Espere um segundo. Sua? Em que momento ele havia começado a pensar, inconsciente e erroneamente, nela como dele?
- Eu... Eu estava procurando minhas amigas. Elas queriam ir a uma loja de vestidos e eu queria comprar alguns livros, então nos separamos antes de ir jantar... – Bella contou triste e tremulamente, parecendo não apenas perdida em pensamentos, mas também se esforçando para lembrar-se deles - Eu... Quando eu estava voltando da livraria... Eu me perdi. – ela deu um soluço seco e o coração de Edward apertou quase excruciantemente ao perceber que ela estaria chorando, se pudesse produzir lágrimas – E então... Ele apareceu. – a voz dela se tornou um sussurro quase inaudível – Eu... Eu tentei correr, mas... Ele me agarrou e... E me mordeu. – sua mão de repente estava na lateral de seu pescoço, tocando suavemente o local, como se estivesse procurando por uma marca – Eu achei que eu ia morrer. Eu sentia que eu ia morrer. – ela suspirou pesarosamente – Parecia que ele estava tirando minhas forças e minha vida aos poucos, até que...
De repente ela ergueu a cabeça, olhando-o com um intenso e emocionado reconhecimento nos grandes e cintilantes olhos vermelhos – Você! Você estava lá! Você foi o anjo que me salvou...! - ele a viu morder o lábio com uma força exagerada assim que a frase escapou, o arrependimento exalando dela em ondas. E, assim como as lágrimas, ele teve a impressão de que suas bochechas estariam muito coradas se fossem capazes, baseado no jeito adorável como ela estava envergonhada por tê-lo chamado de anjo.
Edward deu um sorriso gentil, apesar daquela parte impertinente dele ter-se inchado de felicidade com aquela frase inocente. – Sim, eu estava lá. – ele confessou, mas então, ao perceber o que teria que dizer a seguir, a alegria abandonou seu rosto – Mas... Receio que não consegui salvar você por completo.
- O que quer dizer? – ela perguntou, absolutamente confusa, com as sobrancelhas franzidas de preocupação.
- Bella... Você não se sente diferente? – ele perguntou lentamente, repentinamente se dando conta de que deveria ter planejado como revelaria sobre o vampirismo para ela naqueles três dias, ao invés de ter perdido tanto tempo se lamentando de que ela inevitavelmente se tornaria da mesma espécie que ele. Agora, ele estava preocupado sobre como sua natureza volátil de recém-nascida lidaria com aquela notícia.
- Bem, sim. – ela respondeu, incerta, olhando para as próprias mãos e flexionando os dedos lentamente, como se quisesse ter certeza de que aquela era realmente sua mão – Mas eu não consigo entender o que exatamente mudou. É... É tão estranho. – ela lamentou com um suspiro, mas então balançou a cabeça, como se estivesse tentando dissipar algum pensamento em sua mente que a estava incomodando – Mas isso não é importante. Já está quase amanhecendo, não é? – ela olhou para o céu acinzentado da madrugada sobre eles – Meu pai deve estar muito preocupado comigo. Obrigado de verdade por ter me ajudado, Edward. – ela deu um pequeno sorriso tímido que fez o peito de Edward inchar mais do que nunca; isso, unido ao arrepio de puro deleite que o percorreu quando ela disse seu nome, o fez repentinamente ter vontade de gemer de prazer – Será que poderia me ajudar a achar o caminho de volta para a cidade? – ela olhou ao redor, para a floresta densa em torno deles – Me trouxe aqui para nos esconder dele? Não tenha medo, meu pai é chefe de polícia em Forks e eu tenho certeza de que ele vai fazer de tudo para prendê-lo.
- Bella, espere. – ele a interrompeu tristemente, o coração pesaroso pelo que teria que lhe revelar logo mais – Eu realmente preciso conversar com você antes que... Façamos todas essas coisas. – ele não se atreveu nem mesmo a deixar subentendido que ela nunca mais poderia interagir com seu pai.
E, por que, no meio de toda aquela confusão, ele ainda fora capaz de se colocar nos planos dela, mencionando-os no plural?
- Bella, o homem que atacou você... Que te mordeu... Ele não era um simples criminoso. – Edward teve que engolir um rosnado ao pensar no maldito; não queria assustar Bella ainda mais. – Ele... Fez algo com você. Algo que infelizmente não fui capaz de impedir...
O rosto de Bella tornou-se impossivelmente mais branco, enquanto sua mandíbula caía aberta em puro horror e seu corpo esguio começava a tremer suavemente. Também horrorizado, Edward se apressou em corrigir-se, ao se dar conta do que ela deveria estar pensando.
- Não, não foi isso. – ele a consolou suavemente, mesmo sabendo que o consolo não duraria muito – Eu o parei antes. – dessa vez ele não conseguiu conter o rosnado, tamanho o ódio que fervia dentro dele – Mas, antes disso, ele já tinha te mordido. E isso... Te mudou.
Ela alcançou o pescoço novamente – Mudou como? – seu suspiro sôfrego era quase desesperado.
Edward tomou alguns segundos para pensar, sua mente fervilhando para encontrar a melhor maneira de não apenas lhe dizer que ela agora era um vampira, mas também fazer isso de maneira crível e ainda assim não desnecessariamente impactante – não que aquilo fosse possível, mas ele ainda queria tentar poupar-lhe o máximo de sofrimento. Foi então que ele se deu conta de que talvez palavras não fossem eficientes. Ele precisava que ela visse com os próprios olhos.
- Bella... – ele estendeu a mão para ela lentamente, a voz gentil e doce, enquanto lhe dava um sorriso triste – Pode vir até mim, por favor?
Estranhamente, os olhos dela se arregalaram, tornando-se perdidos, quase hipnotizados e, mais rápido do que os olhos humanos jamais poderiam registrar, ela repentinamente estava em frente a ele. A velocidade teve o efeito que Edward esperava e logo sua expressão mudou de hipnotizada para pasma, conforme ela olhava para si mesma e depois para os metros atrás dela, que percorrera em menos de um milésimo de segundo, graças à velocidade sobrenatural.
- Eu... – ela gaguejou, absolutamente chocada – Como eu cheguei aqui tão rápido...? – ela divagou ansiosamente.
- Bella... – ele deixou sua mão pairar no ar, um pouco acima do ombro dela, dando-lhe a chance de se esquivar, caso ela não quisesse seu toque; e ele tinha que admitir que ficou muito feliz quando ela não o fez e ele pode envolver o pequeno ombro em um suave aperto – O homem que te atacou... Você percebeu que ele tinha olhos vermelhos... Como eu? – ele hesitou um pouco antes de acrescentar, temendo que ela pudesse imediatamente perceber que ele e Laurent eram parte de uma coisa só; contudo, Bella apenas engoliu em seco e assentiu lentamente, mas ainda sem se afastar dele ou da mão em seu ombro – Percebeu que, quando ele te atacou, estava bebendo o seu sangue? Essas características... Fazem você se lembrar de alguma coisa? – ele perguntou suavemente, esperando que o choque fosse um pouco menor se ela juntasse as peças por si mesmo.
E é claro que não foi. Ele observou seu lábio inferior tremer de medo, antes dela disfarçar isso com um sorriso trêmulo e nervoso.
- Quer dizer, vampiros? – ela tentou parecer bem-humorada, mas a voz instável não estava enganando provavelmente nem ela mesma – Está brincando, certo?
- Consegue sentir seu coração? – ele a questionou pesarosamente, sabendo que provavelmente aquilo a assustaria ainda mais.
E, de fato, ele parecia estar rapidamente aprimorando sua capacidade de entendê-la, já que seu rosto começou a ficar apavorado de tal maneira que ela chegou a pressionar descuidadamente a mão com muita força no peito, os dedos tateando freneticamente pelo pulso logo em seguida, enquanto os olhos se arregalavam cada vez mais conforme ela não encontrava a pulsação.
- Isso... Isso é impossível. – ela arfou, em pânico, e o fitou, terrivelmente apavorada – O que... O que ele fez comigo?
- Eu sei que é difícil acreditar nisso, Bella, mas... Aquele homem era um vampiro. – ele finalmente permitiu que a palavra saísse de sua boca, apesar do gosto amargo em sua língua – E, infelizmente, ele já havia bebido muito do seu sangue e colocado muito veneno dentro de você quanto eu os encontrei. Não pude impedir que você se tornasse um vampiro também. E sinto muito. – ele se desculpou intensamente, desviando o olhar para o chão enquanto o fazia, absolutamente envergonhado em admitir aquilo.
- Também?! – ela arfou novamente – Você... Você...
- Sim. – ele suspirou – Eu sou um vampiro. Assim como ele. E como você também, agora. Sinto muito por isso. – ele não pode evitar se desculpar novamente.
- Mas... Mas como isso é possível? – ela engasgou, ainda mais pálida do que era normal para um imortal – Vampiros não deviam existir... E agora sou um deles? Como assim...?
- Sei que é muito difícil de acreditar, mas é a mais pura verdade. – ele moveu um pouco a mão que estava no ombro dela, tentando lhe dar um afago suave, mas também não querendo ser indelicado – Mas, mesmo que isso não sirva de absolutamente nenhum consolo, eu estou aqui para ajudar você. Vou ensiná-la sobre essa nova vida e lhe responder tudo o que quiser saber. Pode confiar em mim, prometo. – ele sorriu docemente para ela, apenas se dado conta do quanto tinha se inclinado, inconscientemente, quando Bella ergueu a cabeça e seus lábios ficaram perigosamente próximos. Um pouco pelo choque, e muito porque ele temia fazer alguma estupidez com ela tão próxima, Edward se afastou rapidamente.
Bella também parecia perturbada, mas obviamente por razões muito diferentes – e muito menos carnais - que as dele. Balançando levemente a cabeça, desnorteada, ela fungou.
- O que eu faço agora? – ele teve a impressão de que ela estava perguntando aquilo tanto para si mesma quanto para ele – O que vai acontecer comigo?
- Ainda tenho muito para falar com você. – ele revelou tristemente – Mas talvez seja melhor alimentá-la primeiro. Está com sede, não está?
A mão dela voou instantaneamente para a garganta, como se ela só tivesse se dado conta daquilo porque ele mencionara. Com um sorriso gentil, ele voltou a tentar amenizar um pouco a situação.
- Não se preocupe, vai aliviar bastante quando acharmos algo para você beber. – ele farejou o ar que o vento trazia da direção leste, tentando identificar se entre os cheiros havia algum animal – Certamente deve haver um rebanho ou, se dermos sorte, até mesmo algum carnívoro por perto...
- Então não bebemos sangue humano como nas histórias, ou... Como aquele vampiro fez comigo? – ela perguntou ansiosa e esperançosamente, mesmo que a última frase tivesse feito sua voz morrer aos poucos.
Profundamente envergonhado, Edward m*l foi capaz de sustentar o olhar dela. Procurar um humano para alimentá-la nem sequer passara por sua cabeça. Era tão dolorosamente óbvio, especialmente agora com o quão feliz ela estava por saber que não teria que matar um humano como Laurent quase a matara, que o estilo de vida pacífico e "vegetariano" de Carlisle era perfeito para ela. Porque ela era bondosa.
Tão diferente dele...
Ela provavelmente sairia correndo, horrorizada, se descobrisse que naquele momento estava falando com um monstro tão grande quanto Laurent. Alguém que matava seres humanos e se alimentava de seu sangue. Alguém que se escondia nas sombras e atacava outros mais indefesos, como ela fora atacada e então condenada àquela vida.
Não, não se descobrir, ele se corrigiu severamente. Quando ela descobrisse e quando certamente o mandasse embora, ele não a contrariaria. Mas, primeiro, ele cumpriria sua promessa de mostrar-lhe tudo o que pudesse sobre aquela nova vida.
Mesmo sabendo que ela o desprezaria muito em breve, ele ainda poderia ter o consolo de que a ajudara, mesmo que infimamente. Assim, ele engoliu em seco e respondeu sua pergunta contidamente, omitindo a si mesmo da explicação, como o covarde que já havia aceitado que era; o covarde que queria aproveitar um pouco mais o escasso tempo que ainda lhe restava com aquela linda e doce mulher.
- É uma questão de escolha. – ele explicou – O sangue animal pode nos manter, mas dá menos forças do que o sangue humano e você precisará se alimentar mais vezes. Contudo, sim, você pode se alimentar apenas de sangue animal e jamais precisará ferir um humano.
- Isso é ótimo! – ela exclamou suavemente, com o rosto cheio de alegria. – Obrigado, Edward.
- Não há necessidade de me agradecer. – ele não pode evitar sorrir tolamente diante da expressão desconcertantemente atraente e feliz no rosto dela – O que acha de uma corrida? A velocidade é uma das grandes vantagens dos vampiros e a maioria de nós costuma desfrutar muito. É... Divertido.
Com um sorriso tímido, ela pareceu aceitar sua sugestão e, em um piscar de olhos, já estava do outro lado da floresta, parecendo pasma, mas ainda assim um pouco eufórica. Com um sorriso carinhoso, ele rapidamente juntou-se a ela, indicando o resto do caminho sombrio floresta adentro, esperando que a alegria da corrida pudesse tirar um pouco do medo no rosto dela.
- Teremos mais chances de encontrar algum animal se seguirmos por ali, pelo curso do rio. – sua mão quase que literalmente doeu para que ele oferecesse que eles fizessem o percurso de mãos dadas, mas Edward se conteve, limitando-se a dar-lhe um sorriso encorajador ao invés, quando a observou olhar a si mesma com temor e incerteza – Não tenha medo. Vou estar ao seu lado e não vou deixar que nada de m*l aconteça.
Ele sentiu vontade de bater em si mesmo quando as palavras patéticas saíram de seus lábios, - como se tê-lo por perto fosse remediar qualquer coisa para aquela pobre garota confusa – mas, para sua surpresa, após olhá-lo no fundo dos olhos por um momento intenso, Bella presenteou-o com um sorriso estonteante que transparecia não apenas gratidão, mas também... Confiança.
Ela confiava nele.
E mais uma vez aquela onda repentina e avassaladora de emoção fez coisas estranhas e inéditas com o corpo dele. Era quase como se Edward tivesse deixado de conhecer a si mesmo naqueles últimos três dias e agora um homem totalmente novo reagia a cada uma das lindas expressões daquela mulher. E, sendo sincero consigo mesmo, ele ainda não sabia como lidaria com isso, especialmente quando chegasse a hora de deixá-la.
Especialmente com aquela dor excruciante que tomava conta de seu peito sempre que ele pensava em ficar longe dela.
- Não tenha medo de seguir o instinto enquanto estiver correndo. – ele a instruiu gentilmente, forçando-se a engolir aquela confusão de sentimentos que o inundavam e concentrar-se na única coisa que importava ali: Bella – Apenas se permita correr o quanto quiser. – ele gesticulou para a floresta ainda sombria, em direção à imensidão de árvores onde ele sabia que os dois não corriam o risco de serem vistos ou trombarem com algum humano.
Fascinado, ele viu Bella fechar os olhos com força e torcer as mãos nervosamente enquanto tomava uma profunda respiração, obviamente tentando reunir coragem para encarar todas aquelas novas descobertas que viriam a partir dali, e não apenas a corrida. Contudo, depois de um segundo, as orbes escarlate reapareceram e um pouco do medo que ainda havia lá desapareceu quando ela o encarou novamente e deu um pequeno sorriso tímido. No instante seguinte, antes que ele pudesse se recuperar do deslumbramento que aquele olhar causara nele, ela já estava correndo, tornando-se um borrão entre as árvores.
Sem perder tempo, ele a seguiu facilmente, não querendo que ela sentisse nem por um minuto que ele não estava ali perto dela, apoiando-a. Bella podia ter a velocidade de um recém-criado, mas ele se orgulhava de ser mais veloz do que a maioria dos imortais que conhecia, então não foi difícil alcançá-la e desfrutar da sensação de estar lado a lado com ela, especialmente quando Bella virou a cabeça para lhe dar um sorriso animado, parecendo estar realmente se divertindo com a corrida. E, surpreendendo inclusive a si mesmo, Edward se viu abrindo talvez o maior e mais sincero sorriso que já dera desde o começo daquela nova vida. Era incrível como apenas ver a alegria dela o enchia com uma felicidade avassaladora, do tipo que ele não conseguia se lembrar de já ter sentido antes, tanto como humano, quanto como vampiro. Era viciante e fantástico.
Ela era absolutamente fantástica.
Edward ainda estava perdido em pensamentos quando ela repentinamente estancou, o rosto voltado para céu, farejando intensamente o ar com uma expressão chocada e deleitada no rosto.
- Que cheiro é esse? – ela perguntou, com a voz adoravelmente ansiosa, quase extasiada.
Com um sorriso, ele captou no ar o aroma do sangue de um grupo de servos ali perto, provavelmente se alimentando. Para ele, o cheiro era nada mais do que desinteressante, mas ele compreendia que, para um recém-nascido, certamente a primeira lufada do aroma de sangue devia ser realmente intoxicante, mesmo se tratando de um cheiro tão ameno em comparação aos outros que existiam. Ele mesmo ainda se lembrava da euforia que sentira em sua própria época, apesar de Carlisle ter sido atencioso com ele e lhe proporcionado um carnívoro de cheiro muito mais apetitoso.
- São cervos. – ele a avisou – Um pequeno grupo. Devem estar... – Edward m*l teve a oportunidade de terminar a frase antes que Bella partisse em disparada, provavelmente dominada pela ânsia da sede.
Com um pouco de humor, ele rapidamente avançou entre as árvores, encontrando-a se banqueteando já com o terceiro animal, completamente alheia a tudo ao seu redor. Enquanto a observava se alimentar, ele se perguntou se deveria beber um pouco também: ele já não caçava havia mais de duas semanas e a dor em sua garganta estava começando a se tornar um incômodo muito irritante. Todavia, ele não pode deixar de se perguntar se aquela ideia repentina de participar da "refeição" de Bella não tinha outra origem oculta, além da sede. Afinal, ele já passara muito mais tempo do que aquilo sem se alimentar – uma abstinência autoimposta diante do forte asco por si mesmo que sentia e que o fizera decidir só matar de novo quando já estivesse no limite da sede. Contudo, ali, vendo-a se mover de maneira tão graciosa e encontrar satisfação ao se alimentar com um sangue tão simples e pouco saboroso... Ele teve vontade de juntar-se a ela, partilhar daquele primeiro momento de sua nova vida, colocar-se na posição de igual, de companheiro...
Companheiro.
Que palavra ridícula para se usar naquele contexto. No mundo dele – na verdade, mundo dos dois agora – muito mais do que um conjunto de letras, aquilo designava algo sublime, uma ligação que durava pela eternidade: Parceria. Amor verdadeiro. Era muita ousadia da parte dele sequer pensar em um termo como aquele quando ele estava sendo nada mais do que um farsante. Se alimentar da mesma maneira que Bella apenas lhe daria a visão errada de que ele era como ela, alguém bom, que queria poupar vidas humanas.
Ele já estava enganando-a o suficiente ao omitir qual sua verdadeira dieta. Não seria hediondo o suficiente a ponto de tentar convencê-la de que ele era alguém decente apenas para ter sua companhia por mais tempo.
Melancólico, ele a observou largar a quinta carcaça no chão, agora parecendo mais racional e imensamente satisfeita. Parando alguns segundos, completamente imóvel, - ele teorizou que talvez ela estivesse absorvendo a sensação de ter acalmado a ardência da sede, mas nunca havia como ter completa certeza – Bella finalmente olhou para si mesma e seu rosto caiu de decepção.
- Oh, não... – ela choramingou e ele finalmente percebeu que a roupa dela estava agora quase que completamente coberta pela lama que as patas dos cervos se debatendo em seu colo haviam deixado sobre ela.
Com um sorriso simpático, ele se aproximou quietamente dela e colocou a mão suavemente em seu ombro – Não se preocupe com isso. Posso correr até a cidade mais próxima e pegar roupas novas para você.
Antes mesmo que ele terminasse a frase, Bella já estava balançando a cabeça negativamente – Não, você não precisa se incomodar. Posso me trocar quando voltar para casa. Tenho certeza que Charlie, quer dizer, meu pai, deve estar... – a menção à vida humana trouxe uma profunda preocupação para o rosto dela, ao mesmo tempo em que Edward sentiu o próprio rosto ser tomado pela tristeza, antecipando a conversa que estava por vir – Oh, não... Quando eu senti o cheiro daqueles animais eu fiquei tão... Fora de controle. – ela engasgou, quase desesperada – Nem mesmo consegui pensar direito até a sede ficar menor... Edward... – ela arfou, virando-se para ele, extremamente assustada e ansiosa – Eu... Eu vou ficar assim também quando sentir o cheiro do sangue dele? Como posso fazer para me controlar? – a voz dela foi ficando mais apavorada a cada palavra, assim como o peso no coração dele apenas aumentava.
- Bella... – o nome dela saiu de sua boca com mais carinho do que ele pretendia, apesar da gravidade da situação e do que teria que dizer-lhe em seguida – Eu... Sinto muito, eu deveria ter dito isso antes... – por um milésimo de segundo, ele chegou a se acovardar, odiando o sofrimento que sabia que estava prestes a infringir a ela, sentindo que literalmente seria como infringir dor a si mesmo, mas, por fim, depois de um suspiro cheio de pesar, ele se permitiu continuar, com uma voz quase inaudível – Me desculpe, Bella... Mas você não pode mais ver o seu pai.
- O quê?