- O quê? – ela arfou, a voz estrangulada revelando que ela estaria se desmanchando em lágrimas, se a imortalidade permitisse – Mas... Por quê?
Engolindo em seco, verdadeiramente sentindo cada um dos soluços dela como uma espada em seu coração, ele forçou as palavras para fora - O frenesi em que você entrou quando sentiu o cheiro do sangue daqueles herbívoros... Isso não é nada em comparação com o cheio de sangue humano. Para um vampiro recém-nascido como você, é praticamente impossível resistir... E, quando um vampiro morde um ser humano, só restam duas opções: transformá-lo em um de nós ou... – ele deixou a voz morrer, sabendo, pelo puro horror no rosto de Bella, que ela sabia muito bem qual a outra única opção e, principalmente, o que ela seria capaz de fazer se chegasse perto do pai novamente.
- Então... Nunca mais vou poder chegar perto de um... Humano... – a testa dela se franziu, obviamente perturbada por agora ter que fazer aquele tipo de distinção entre ela e os demais - Sem... Matá-lo? – ela soluçou, a expressão completamente destroçada.
- Não... Com o tempo... Você vai ser capaz de se controlar... – ele escolheu as palavras com cuidado, evitando mencionar a vida eterna, para não perturbá-la ainda mais.
- Então, por que...? – ela começou a perguntar, inconformada, mas ele se apressou em interrompê-la, arrependido por ter acabado se expressando m*l.
- Bella, nós... Os vampiros... Temos algumas regras. Podemos ser poderosos e perigosos para os humanos, mas ainda assim fazemos o máximo para manter nosso mundo separado do deles. O que significa nunca permitir que um humano saiba que existimos. Por favor, entenda Bella, mesmo que se passem anos e você domine por completo sua sede... Seu pai saberia que há algo errado, se você voltar para ele.
- Eu posso simplesmente não contar. – ela rebateu ansiosamente, mas seu tom era apenas suplicante – Não preciso dizer que sou uma vampira. Posso dizer que estou doente. Posso nunca correr na frente dele, usar lentes de contato e posso...
- Bella... – antes que se desse conta do que estava fazendo, ele colocou a mão no rosto dela, querendo confortá-la – Por favor, entenda... Mesmo que você fizesse tudo isso, em pouco tempo ele perceberia.
- Eu daria o meu melhor. – ela fungou, ainda nada além de suplicante – Eu juro, Edward, eu inventaria alguma coisa e ele jamais descobriria...
- Não, Bella. Há algo que está além de você e dos seus esforços...
- E o que é? – agora ela parecia irritada de verdade, apesar de o choro silencioso ainda continuar.
Ele respirou profundamente antes de continuar, preparando-se para o choque que aquilo causaria nela, e sabendo que era inevitável – Porque você não mais envelhecer, Bella. Nunca mais vai se machucar, ou ficar doente, ou dormir... Ou morrer. – ele disse a última palavra com uma voz tão baixa que ela jamais teria escutado, se ainda fosse humana - Vampiros são imortais, Bella. Por mais que você se esforçasse em encobrir todos os outros sinais... Em alguns anos as pessoas começariam a perceber que você não está envelhecendo e você seria forçada a ir embora. – ele sentiu vontade de compartilhar com ela seus poucos anos junto a Carlisle e Esme, vivendo entre os humanos pelo tempo que era possível, mas logo se refreou. Falar sobre sua família o obrigaria a falar sobre por que os abandonara...
E sobre o monstro que ele era.
O choque da revelação transformou Bella em uma pedra, paralisada e imóvel. Sabendo que seria melhor que ela entendesse a verdade por completo logo de uma vez, até mesmo para que pudesse compreender porque era necessário cortar totalmente os laços com sua antiga vida humana, Edward se preparou para lhe esclarecer tudo sobre sua nova realidade. Mesmo sabendo que era uma esperança inútil, ele ainda assim queria que todos aqueles impedimentos pudessem servir de consolo para ela: mesmo conhecendo-a a apenas algumas horas, ele tinha a impressão de que ela acabaria se culpando por ter deixado sua família, tanto quanto se tivesse feito isso de propósito.
Mas nada daquilo era culpa dela.
- E, além disso, há também os Volturi. – ele lhe contou, mantendo a voz gentil, mas ainda assim enfática – Eles são um clã poderoso de vampiros italianos. Na verdade, são o mais próximo que a nossa espécie tem da realeza. Geralmente, os vampiros se unem em duplas ou em pequenos clãs, mas os Volturi reuniram dezenas de vampiros, alguns deles... Especiais. – ele mencionou, perguntando-se o quanto deveria derramar sobre ela logo de uma vez – Tudo isso em prol de manter o poder que acumularam ao longo dos milênios e fazer com que as leis sejam cumpridas... Se expor para o seu pai, mesmo que você jamais sequer mencionasse a palavra vampiro... Poderia estar colocando vocês dois em risco. Somos imortais, é verdade, mas um vampiro pode tirar a vida de outro. E os Volturi nunca são piedosos com quem desrespeita suas leis. – a voz dele acabou se transformando em um grunhido, já que apenas o mero pensamento de que os Volturi poderiam ameaçar Bella o tornaram irracionalmente colérico, como talvez ele nunca tinha se sentido em toda a sua existência.
- Eles... Matariam o meu pai? – ela arfou, aterrorizada, nem sequer parecendo registrar que a vida dela também estaria em perigo.
- É um risco muito grande, Bella. – ele suspirou – Eu sinto muito. Sei que não pediu por isso, mas voltar para o seu pai apenas o colocaria em perigo e levantaria suspeitas que seriam igualmente perigosas.
- Quer dizer que: Ou eles o matam ou eu mesma poderia acabar mantando meu próprio pai? – ela soluçou, os ombros tremendo. – Nunca mais vou poder vê-lo, sem colocar a vida dele em risco?
- Bella... – ansioso por diminuir sua dor, mesmo sabendo que provavelmente seu consolo não significaria nada para ela, Edward colocou a outra mão em sua bochecha, acariciando seu rosto suavemente – Eu sinto muito, muito mesmo.
Como ele já esperava, seu consolo não foi de nenhuma, já que Bella explodiu em um choro intenso e dilacerante, mesmo sem lágrimas, que balançou seu corpo por completo e a fez se encolher em uma pequena bola, enquanto escondia a cabeça entre os joelhos. Mergulhado na dor que o sofrimento dela havia provocado nele – e também surpreso pela intensidade ímpar dessa dor – Edward inclinou-se sobre ela instantaneamente, envolvendo os pequenos ombros trêmulos e abraçando-a firmemente contra seu peito, desejando protege-la de todo aquele tormento.
- Eu... Eu não quero abandona-lo... – Bella soluçou com voz trêmula – Mas... Também não quero machucá-lo... Não quero machucar ninguém... Não quero...
- Você nunca vai machucar ninguém... – ele disse docemente, correndo uma das mãos pelos cabelos macios.
- Você não entende! – ela soluçou – Charlie é policial! Ele vai enlouquecer tentando me encontrar! Será pior do que se eles tivessem me encontrado morta. Ah, Deus... Isso vai destruí-lo. E Renée... – um soluço forte a interrompeu, mas, para sua completa surpresa, ao invés de encostar a testa nos joelhos novamente, ela a recostou no ombro dele, chorando ali, desolada.
- Não precisa ser assim. – a mente de Edward estava funcionando freneticamente, tentando encontrar uma maneira de amenizar aquela situação, mesmo que minimamente – Podemos ajuda-los de outras maneiras. Posso garantir que eles tenham acesso a uma quantia que lhes permitam viver bem e também que tenham tratamento psicológico adequado para lidar com a perda. – Era verdade que ele não lidava com a fortuna deixada por seus biológicos há anos, mas, levando em consideração que não havia mais ninguém da família Masen para reclamá-la, certamente alguns poucos documentos falsos o permitiriam ter acesso a quanto dinheiro ele quisesse.
Aliviado, ele a viu erguer o olhar, pasma, mas também esperançosa – Faria mesmo isso pelos meus pais?
- Mas é claro. – ele sorriu e, por alguns segundos, ela fez aquela mesma expressão distante de quando o vira pela primeira vez, como se sua mente tivesse sido enviada para longe dali.
Foi somente após alguns momentos que ela pareceu se recuperar, piscando rapidamente e desviando o olhar do dele, fazendo uma expressão envergonhada que lhe deu a nítida impressão de que ela estaria muito corada, se isso fosse possível. Com a voz trêmula, agora aparentemente por conta do constrangimento e não por conta do choro, ela perguntou, ainda sem olha-lo.
- P-por que...? – ela gaguejou, sem jeito, explicou-se melhor apenas quando finalmente o olhou e percebeu que Edward não havia entendido sobre o que ela falava, tão cheia de segredos com aquela mente silenciosa – Por que está fazendo tudo isso por mim? – a intensidade no fundo dos olhos dela fez coisas estranhas dentro do peito dele, gerando uma sensação tão inebriante e desconhecida que foi a vez dele desviar o olhar timidamente.
- Se eu tivesse chegado lá alguns minutos antes, eu poderia tê-lo impedido de morder você. – Edward confessou finalmente, a culpa evidente em cada palavra – Por alguns meros segundos... Eu perdi a oportunidade de mantê-la humana, preservar sua vida... Impedir que sofresse tanto. – ele murmurou, sem ter coragem de olhar para ela, internamente perguntando-se se aquele seria o momento em que ela finalmente o desprezaria: ao perceber que ele chegara atrasado e acabara por condená-la àquela não-vida eterna.
- Como assim? – pasmo, ele percebeu que a voz dela parecia surpresa e até mesmo um pouco consternada, mas não irritada e muito menos enojada – Edward, do que está falando? Você me salvou! Se não fosse por você aquele monstro teria... – ela engoliu em seco, claramente horrorizada.
- Ele morreu rápido demais... – ele rosnou, colérico com a lembrança do que vira nos pensamentos do vampiro que, infelizmente, era também o criador de Bella – Merecia arder pela eternidade pelo que fez com você...
- Espere, você o matou? – Bella perguntou, pasma, mas ainda assim, com um toque de satisfação no fundo da voz.
- Não precisa mais se preocupar com ele. – ele lhe garantiu, se permitindo acariciar gentilmente sua bochecha com o polegar – E também não precisa se preocupar com o seu pai. Prometo que cuidaremos dele, garantindo que ele e você possam estar seguros.
Com um suspiro repleto da mais profunda tristeza, Bella voltou a se encolher, mas, ao invés de tentar argumentar com ele novamente, se inclinou para aconchegar-se no abraço que Edward ainda lhe dava, erguendo os olhos vermelhos e brilhantes apenas por alguns instantes para lhe lançar um olhar que, além de puro pesar e resignação, também estava cheio de gratidão e confiança. Estremecendo, ele sentiu que seu coração teria saltado para fora de seu peito, se estivesse batendo.
- Obrigado, Edward. – ela sussurrou com a voz suave, antes de desviar os olhos perdidos e desolados novamente para a floresta diante deles – Obrigado por tudo.
- Enquanto você me quiser por perto, estarei aqui. – ele prometeu, fazendo questão de deixar claro que partiria quando ela eventualmente o mandasse embora.
Ele só esperava, egoistamente, que isso demorasse um pouco para acontecer.
E assim, eles permaneceram por algumas horas, abraçados e completamente imóveis em meio à relva, enquanto Bella continuava perdida em pensamentos, com o olhar e a expressão tristes paralisados em seu rosto, até que finalmente o sol surgiu no céu e começou a lançar raios sobre toda a imensidão verde, inclusive sobre os dois. As faíscas multicoloridas produzidas por sua pele foram as únicas coisas a tirar Edward de seu estupor melancólico, em que estivera tão perdido lamentando a perda da vida humana de Bella e fazendo conjecturas sobre o seu futuro, – e o dele mesmo, quando tivesse que deixa-la e voltar para as noites vazias de matança e sangue – que m*l registrara o começo daquela nova manhã.
Preocupado com qual seria a reação de Bella àquela nova descoberta sobre a natureza vampírica, – a pele fractal – ele teve que conter um sorriso ao se deparar com a expressão adorável e comicamente chocada que ela exibia enquanto observava o brilho que sol produzia em seu próprio braço. Finalmente, após um arfar pasmo, ela disse, completamente incrédula.
- Ah, meu Deus... Eu sou como uma bola de discoteca humana!
Sem conseguir se conter, Edward gargalhou tão alto que alguns pássaros que descansavam nas árvores mais próximas saíram voando, assustados. Pego de surpresa pela intensidade de sua diversão, ele precisou de um momento para se recuperar, especialmente porque uma parte de sua mente não pode deixar de registrar que aquela provavelmente era a primeira risada intensa e sincera que ele dava em... Talvez desde que começara aquela nova vida imortal.
Seu riso despertou também a atenção de Bella, que, ainda muito chocada, desviou o olhar para ele. E, repentinamente, sua expressão tornou-se de puro deleite, deixando Edward profundamente curioso, – parecia que perguntar-se internamente o que ela estava pensando havia se tornado um estado constante para ele – até que uma palavra escapou de seus lábios, aparentemente sem ela querer.
- Lindo... – assim que o murmúrio suave pairou no ar entre eles, Bella mordeu o lábio inferior, quase como se quisesse arranca-lo, e rapidamente desviou o olhar, parecendo mortalmente envergonhada enquanto se afastava do abraço dele.
Ela... O tinha elogiado?
Sentindo que certamente suas bochechas estariam tão escarlates quando seus olhos se ele fosse humano, Edward sentiu a respiração ficar travada em sua garganta diante da intensidade do arrebatador sentimento de... Satisfação? Alegria? Euforia? Puro prazer? Ele nem sequer sabia como nomear aquilo que o dominara naquele momento e que parecia ter inflado seu peito quase ao ponto de doer.
Pigarreando, ele tentou ser racional e não criar falsas esperanças. Afinal, havia uma infinidade de outras explicações para o porquê ela havia dito aquela palavra e, o mais agravante de tudo, ele jamais poderia ter certeza de nenhuma delas. Por isso, lutando para se recompor, ele procurou soar bem-humorado quando falou novamente, tentando dissipar aquele clima de constrangimento entre eles.
- Bem, é bom que tenha gostado dessa nossa peculiaridade. – ele sorriu simpaticamente para ela, que o olhou de soslaio, aparentemente ainda muito envergonhada – Eu sei que fiquei em choque por quase uma hora inteira quando me vi ao sol pela primeira vez.
- Eu achei que o sol matasse os vampiros. – ela sussurrou timidamente.
- Ainda temos muito o que conversar. – ele riu – Não se preocupe, em breve saberá tudo o que é lenda e tudo que é realidade. Mas, primeiro, porque não vamos mais para o norte? – ele olhou para o curso veloz do rio a alguns metros deles – Haverá mais animais para quando você sentir sede de novo. Também poderá se limpar enquanto eu vou até a cidade buscar algumas roupas novas.
- Isso seria ótimo. Eu agradeceria. – ela deu um sorriso tímido e se levantou em um átimo, novamente ficando um pouco surpresa com a velocidade, mas não tanto quanto antes.
- Estou aqui para o que precisar. – ele não pode se impedir de sorrir para ela, encantado, o que, estranhamente, a deixou com aquele olhar perdido novamente – Ainda temos algum tempo para conversar enquanto andamos. Tenho que esperar um pouco antes de ir. – ele avisou, olhando para o sol alto no céu – Como pode ver, a cidade não é um bom lugar para vampiros durante uma manhã ensolarada. – ele fez um gesto displicente com a mão, deixando que vários reflexos coloridos dançassem ao redor dos dois.
Seu peito pareceu inchar impossivelmente mais quando Bella riu – Eu vejo. Então... O que você geralmente faz durante as manhãs?
A pergunta curiosa dela o pegou de surpresa. Nunca antes ele se sentira envergonhado por passar suas manhãs solitárias e enfadonhas se escondendo nas sombras e evitando os pensamentos ao seu redor, enquanto aguardava pela noite e o pouco de liberdade agridoce que ela lhe trazia com a distração da caça e o martírio de rever seu monstro interno. Porém, ali, diante do olhar inocente e bondoso daquela garota amável que ele conhecia há menos de quatro dias e já o encantara de maneiras que ele nem sequer sabia definir, Edward não conseguiu confessar sobre a natureza sombria e solitária de suas manhãs. Ao invés disso, ele apenas deu de ombros, desconcertado.
- Eu... Bem, não há muitas opções de lugares para ir, então eu apenas... Ando um pouco e aguardo pela noite.
- Oh... – Bella sussurrou enigmaticamente, ficando tanto tempo pensativa após sua resposta que ele chegou a se preocupar se havia dito algo terrivelmente errado, até que ela voltou a falar, surpreendendo-o como sempre – Nós... Podemos virar morcegos?
Aproveitando a sensação da sua segunda crise de risos, Edward sentiu seu espírito leve o suficiente para se permitir ousar estender a mão para ela, convidando-a para andar com ele para o norte e continuar aquela longa conversa sobre aquela nova vida dela.
E, quando Bella aceitou seu convite com um sorriso tímido e ele sentiu o toque de sua mão macia na dele, ele se deu conta de que talvez nunca mais seria capaz de soltá-la.