Capítulo 02

1101 Words
- Uau, estamos recebendo algum príncipe do deserto hoje? - Meu tio falou entrando na sala de jantar. -Só temos você de príncipe aqui nessa casa, pai. Pedi pra fazerem um jantar especial pra gente hoje. Sei o quanto foi difícil pra você se unir hoje aos Abdalas. Esse jantar é em sua homenagem, por ser essa pessoa tão especial, que sempre coloca a família em primeiro lugar. Te amo pai. Não sei o que seria de mim sem você. Tio Kerin deu um sorriso sem graça. -Podemos comer agora, então. Fizemos nossa prece e iniciamos nossa refeição. Não podia tirar da cabeça a ideia de que algo não estava certo. Meu tio parecia tenso e triste, passava longos minutos somente fitando a mim e a minha prima. Saville parecia notar a tensão que emanava no lugar pois desatou a falar sem parar, sobre flores, tecidos, fitas, véus, joias... Parecia a típica mimada cabeça oca. -... então, eu acho que se nos organizarmos conseguiremos comprar o véu com exclusividade. Não acha, pai? Pai? Papai? -Desculpe, querida... -Você ao menos estava prestando atenção ao que eu estava falando? -Sim, claro que sim... Eu só me distrai pensando numa resposta. -Pai... Você está estranho desde que voltou do encontro com os Abdalas, sei que disse que gostaria de não falar sobre isso no jantar mas nós somos família, dividimos os problemas. Se algo está errado eu quero saber. -Eu sei querida, só que...- ele respirou fundo- Vocês sabem que os negócios não iam muito bem, né? Que sofremos com a má administração dos meus antecessores e acabamos perdendo espaço no mercado cada vez competitivo... -Sim, eu sei. Só pensei que... -Por favor, Saville, me deixe falar... Já é tão difícil. Se continuar a me interromper eu não sei se serei capaz de concluir. -Desculpe. -Enfim, tive que engolir meu orgulho e buscar auxilio dos Abdalas. Aqueles malditos trapaceiros... Metade do que eles possuem hoje era nossa, eles nos roubaram, tomaram nossas terras, destruíram nossas vidas... E hoje eu tive que ir como um cachorrinho, engolindo meu orgulho, implorar, escutem bem, eu Kerim Cheddid implorei a Farid Abdala uma sociedade entre nossas empresas para que não fossemos relegados a miséria... Nossos antepassados devem estar se revirando no tumulo... Eu serei conhecido como aquele que trouxe a vergonha para o nome da nossa família. – seus olhos se encheram de lagrimas. -Não se culpe tio. Você fez tudo o que pode. -Obrigado por isso minha querida. Bom, vou ingenuidade minha achar que os Abdalas teriam mudado. Pelo contrário, Kerim consegue ser ainda mais c***l que aqueles que o precederam. Ele teve prazer em me ver assumindo derrota. -Então ele não aceitou sua proposta. - Saville perguntou confusa. -Não querida, ele aceitou. -E como isso não é bom? Sei que não éramos o que realmente desejávamos, porém é a nossa chance de não declarar falência de vez. -O problema querida é que ele tem uma condição para selar o acordo. Uma prova da minha boa v*****e e da paz entre as famílias. -E o que seria isso? Ele quer que você faça um discurso para ele. -Saville... Kerim Abdala pediu, para selar o acordo, uma... uma integrante da família Abdala. – ele falou olhando diretamente para mim. Minha cabeça começou a pegar fogo. -Não estou entendendo... -Ele acredita que não há forma melhor de declarar a paz entre as famílias do que receber como forma de presente uma mulher, descendente direta dos Cheddids para ser uma das suas esposas e uma das integrantes do seu harém. Neste momento Saville me olhou em completo pânico. Meu. Deus. Ele quer uma escrava s****l. Quer provar que os Abdalas “venceram” essa guerrinha, tendo um troféu humano do derrotado. Saville estava em completo pânico, lagrimas caiam livremente pelo seu rosto. Eu sentia minha cabeça queimar pensando nessa possibilidade. -Pai... Como você continuou ouvindo esse ridículo... Por favor, me diz que você mandou ele viajar com essa porcaria de proposta. -Eu sei que é h******l, mas você precisa entender que é a nossa única chance de sair do limbo. Não precisamos aceitar mas devemos no mínimo considerar. -Pai...- ela falou já aos prantos. –Você n******e tá falando sério. Neste momento ambos estavam chorando. -Savi... -Eu vou. - falei com toda a minha calma. Foi em meio ao caos que eu encontrei minha serenidade. Parecia-se como se tivesse chegado a oportunidade perfeita de eu pagar esta família, a minha família tudo que eles mereciam e que eu possuía como dívida. -Não, Aisha... -Saville tá tudo bem. -Você não precisa fazer isso. -Eu quero fazer isso, tá tudo bem. Eu também sou uma mulher Cheddid, afinal. Esse sobrenome tem que me servir de algo. -Me perdoa por ter que te pedir isso, Aisha. -Tá tudo bem, tio. Eu não estou fazendo isso por pressão, eu quero realmente ajudar vocês. -Pai, você n******e nem pensar em aceitar isso. -Nós precisamos... -MEU DEUS, VOCÊS SÃO INACREDITÁVEIS. – Saville falou levantando da mesa e correndo até o seu quarto. -Ela vai acabar aceitando e entendo. -Sei disso, tio. Quanto tempo eu tenho? -Cinco dias. - ele me falou com certo pesar. -Tudo bem. – Mas a verdade é que eu estava devastada por dentro, era como se algo dentro de mim finalmente se desse conta que eu estaria indo rumo ao desconhecido, passar toda a minha vida com um homem que nunca irá me amar e representar pra ele só mais um número, uma de suas bonecas, seus brinquedinhos. – Qual número eu serei? -Acredito que o 23. Eu nunca terei nada daquilo que eu sempre sonhei. -Preciso ser sincero com você minha querida, você está indo pra um lugar de rivalidade. São 23 mulheres disputando a atenção de um único homem, buscando ser a favorita. Não posso te garantir que ele será carinhoso ou que te tratará bem. Eu torço muito por isso, porém não é algo que posso te afirmar. Ele é conhecido por ser implacável, por ser frio, calculista e... – ele respirou fundo – Você estará lá como uma de suas propriedades, logo ele terá todo e total poder sobre você e você estará ao completo dispor dele. -Posso ir ao meu quarto? -Claro. Você é praticamente uma senhora casada agora. Lhe dei um sorriso sem graça e levantei para me retirar. -Obrigada por tudo o que você está fazendo por esta família querida. Continuei andando sem olhar pra trás. E, foi só quando alcancei o conforto do meu quarto que finalmente me dei conta da decisão que tinha tomado para minha vida. E, finalmente, eu desabei.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD