Capítulo 3

926 Words
Zuko O Rio de Janeiro continuava lindo visto de longe. Mas Ícaro Navarro sabia que aquela cidade escondia podridão atrás das luzes. O jatinho particular cortava o céu escuro enquanto as primeiras luzes da manhã começavam a surgir no horizonte. O mar parecia infinito abaixo das nuvens e por alguns segundos tudo parecia tranquilo demais para alguém como ele. Só parecia. Sentado na poltrona de couro preto dentro da aeronave luxuosa, Ícaro observava a cidade se aproximando lentamente enquanto mantinha a expressão fria. O cabelo longo estava preso para trás, os braços tatuados descansavam sobre o apoio da cadeira e o relógio caro brilhava discretamente em seu pulso. Mas os olhos… Os olhos carregavam guerra. Kenji permanecia sentado do outro lado da cabine acompanhando tudo em silêncio. Depois de tantos anos trabalhando com Zuko, ele já sabia identificar quando o chefe estava prestes a explodir por dentro. E aquele silêncio dizia muita coisa. — O apartamento já tá preparado — Kenji falou baixo. — Segurança reforçada igual você pediu. Ícaro apenas assentiu sem desviar os olhos da janela. A Barra da Tijuca aparecia ao longe tomada pelos enormes prédios luxuosos iluminados pela manhã que nascia. Aquela parte da cidade parecia pertencer a outro mundo. Carros importados. Coberturas milionárias. Pessoas vivendo uma realidade completamente diferente da guerra que acontecia nos morros. E era exatamente por isso que ele escolheu aquele lugar. Ninguém procuraria Zuko ali o morro esperava um criminoso escondido em vielas escuras. Mas Ícaro aprendeu cedo que os homens mais perigosos costumavam viver cercados de luxo. O jatinho pousou poucos minutos depois numa área privada longe da movimentação comum do aeroporto. Assim que a porta abriu o vento quente do Rio bateu contra seu rosto trazendo lembranças que ele passou anos tentando esquecer. O cheiro da cidade ainda era o mesmo. Mistura de maresia, fumaça e caos. Ícaro desceu as escadas lentamente enquanto os homens espalhados pela pista assumiam posições discretas ao redor dele. Todos armados. Todos treinados. Todos leais. Porque Zuko não voltava para brincar. Do lado de fora uma fila de SUVs pretas aguardava. Ele entrou no carro sem dizer uma palavra enquanto observava o Rio pela janela durante o caminho. As praias começavam a lotar conforme o dia clareava, turistas caminhavam pelas ruas sem imaginar o tipo de guerra que estava prestes a nascer naquela cidade outra vez. O comboio entrou na Barra da Tijuca pouco tempo depois. Prédios enormes cercavam as avenidas largas enquanto carros luxuosos passavam em alta velocidade. Tudo ali exalava dinheiro. A cobertura de Ícaro ficava em um dos condomínios mais exclusivos da região. Segurança privada, acesso restrito e moradores ricos demais para fazer perguntas. Perfeito. Assim que o elevador particular abriu as portas, ele entrou no apartamento observando o enorme espaço moderno iluminado pela vista absurda do mar. Vidros gigantescos. Móveis importados. Arte milionária espalhada pelas paredes. Luxo frio. Sem alma. Exatamente do jeito que ele gostava. Ícaro caminhou lentamente pela cobertura retirando o relógio do pulso enquanto observava cada detalhe em silêncio. Os homens começaram a espalhar malas e equipamentos pelo local, mas ninguém ousava interromper os pensamentos dele. O Rio parecia pequeno visto dali de cima. Pequeno demais. Kenji se aproximou devagar. — Já mandei avisar os contatos. Ícaro parou diante da enorme janela de vidro observando a cidade abaixo. — Quem respondeu? — O Complexo da Penha quer reunião. Cidade Alta também demonstrou interesse. Um sorriso discreto surgiu no canto da boca dele. Era exatamente o que queria ouvir. Porque diferente do que todos imaginavam, Zuko não voltaria atacando de frente. Não ainda. Aquilo seria burrice. O morro do tio ainda tinha aliados, soldados e influência demais. Invadir naquele momento seria praticamente assinar a própria sentença de morte. Ícaro não construiu um império sendo impulsivo.Ele destruiria tudo aos poucos. Como fogo queimando madeira seca. Primeiro alianças. Depois domínio. E no final… A queda. — Quero fornecimento entrando em três comunidades até o fim do mês — ele falou calmamente. — Arma, droga e dinheiro. Tudo passando por mim. Kenji assentiu imediatamente. — E teu tio? Ícaro ficou em silêncio por alguns segundos. Então virou o rosto lentamente. O olhar escuro carregava algo quase assustador. — Ainda não. Porque aquela guerra não era apenas sobre território. Era pessoal. Muito pessoal. Ele queria fazer Otávio Navarro perder exatamente da mesma forma que perdeu anos atrás. Devagar. Sentindo tudo escapar pelas mãos sem conseguir impedir.O celular vibrou sobre a mesa de mármore. Uma mensagem. Ícaro pegou o aparelho sem expressão até ver o nome que apareceu na tela. Ravi. Seu antigo amigo do morro. A mensagem era simples. “Eles ainda acreditam que você morreu.” O maxilar dele travou imediatamente. Interessante. Então o tio realmente tinha apagado sua existência do morro. Como se nunca tivesse existido. Como se o filho legítimo do antigo dono fosse apenas um fantasma. Ícaro soltou uma risada baixa. Fria. Perigosa. — Ótimo — murmurou sozinho. — Fantasma assusta mais. Kenji observou em silêncio enquanto o chefe caminhava até o bar da cobertura servindo whisky no copo. A cidade brilhava atrás dele. Poderosa. Violenta. Corrupta. Perfeita. Ícaro tomou um gole lento sentindo o álcool descer queimando pela garganta enquanto a mente trabalhava em silêncio. Cada passo precisava ser calculado. Ele faria reuniões. Compraria aliados. Dominaria rotas. Enfraqueceria financeiramente o morro do tio até o império começar a desmoronar sozinho. Quando chegasse a hora…Aí sim pisaria naquela comunidade novamente. E naquele dia o Rio inteiro aprenderia uma coisa: Zuko tinha voltado.E homens como ele não retornavam para recuperar migalhas. Retornavam para tomar tudo.
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