Lorenzo
Fiquei parado no meio do quarto observando a porta fechada do banheiro enquanto uma sensação r**m crescia devagar dentro do meu peito.
Kiara estava demorando.
E aquilo normalmente não significaria nada… se eu não conhecesse ela tão bem. Mas conhecia.Conhecia o jeito que ela ficava quando alguma coisa mexia com sua cabeça. O silêncio excessivo. O olhar perdido. A forma como começava a se afastar sem perceber.
Apaguei o cigarro no cinzeiro com força enquanto caminhava lentamente pela suíte luxuosa. A cidade brilhava através das enormes janelas da cobertura e por alguns segundos tentei convencer a mim mesmo de que estava exagerando.
Só paranoia.
Nada além disso.
Mas meu instinto continuava inquieto.
Peguei o celular novamente lendo algumas mensagens relacionadas ao morro enquanto tentava distrair a mente. Um dos gerentes da comunidade reclamava de atrasos numa entrega. Outro falava sobre movimentação estranha na Zona Norte.
Problemas normais.
Só que naquela noite nada parecia normal pra mim.
Passei a mão pela nuca sentindo o cansaço bater forte. Nos últimos meses assumir mais responsabilidades dentro da comunidade estava me consumindo cada vez mais. Meu pai envelhecia rápido e consequentemente mais coisas caíam sobre mim.
E eu gostava disso.
Gostava do respeito.
Do poder.
Do controle.
Talvez porque passei a vida inteira tentando provar que merecia ocupar aquele lugar.
Só que junto com tudo isso veio outra coisa:
Medo. Porque quanto mais alto um homem sobe naquele mundo… maior vira o tamanho da queda.
A porta do banheiro finalmente abriu.
Levantei os olhos imediatamente.
Kiara saiu devagar com os cabelos ainda úmidos caindo pelos ombros enquanto segurava o celular com força demais entre os dedos. O rosto dela parecia estranho.
Pálido.
Nervoso.
Como se tivesse acabado de ver um fantasma.
Meu olhar estreitou automaticamente.
— Tá tudo bem?
Ela demorou alguns segundos pra responder.
Pequenos segundos.
Mas suficientes pra me deixar ainda mais atento.
— Tô sim.
Mentira.
Conheço ela o bastante pra perceber.
Kiara evitou olhar diretamente nos meus olhos enquanto caminhava pela suíte em direção à varanda. Meu corpo inteiro ficou em alerta na mesma hora.
Alguma coisa tinha acontecido.
E ela estava escondendo de mim.
Observei em silêncio enquanto ela abria a porta de vidro da sacada e dava alguns passos pra fora. O vento da madrugada movimentou o tecido leve da roupa dela enquanto ficou parada olhando a cidade.
Então notei.
A mão dela tremia levemente segurando o celular.
Meu maxilar travou.
Fui atrás dela devagar sem fazer barulho enquanto a observava de longe. Kiara parecia distante demais. Presa dentro da própria cabeça.
E isso começou a me irritar.
Porque eu odiava sentir que existiam pensamentos dela que eu não conseguia alcançar.
— Kiara.
Ela virou rapidamente assustada demais apenas por ouvir meu nome.
Aquilo não era normal.
— Você tá estranha desde cedo.
Ela desviou os olhos imediatamente.
— Só tô cansada Lorenzo.
Outra mentira.
Me aproximei lentamente até parar atrás dela observando a vista da cidade junto com ela. O cheiro do shampoo ainda estava forte nos cabelos dela e por um momento tentei afastar a sensação r**m crescendo dentro de mim.
Mas então percebi outra coisa.
Ela olhava discretamente pra algum ponto específico do outro lado da avenida.
Segui o olhar dela automaticamente.
Coberturas luxuosas.
Luzes acesas.
Nada demais.
Mesmo assim alguma coisa ali me incomodou.
— Tá olhando o quê?
Kiara respirou fundo antes de responder:
— Nada.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Porque quando uma mulher responde “nada” daquele jeito… quase sempre significa problema.
Passei a mão lentamente pela cintura dela puxando seu corpo pra mais perto enquanto observava o reflexo dela no vidro.
Linda.
Sempre linda.
Mas distante demais naquela noite.
— Você sabe que eu odeio quando mente pra mim né?
Ela fechou os olhos por um segundo.
Só um segundo.
Mas eu percebi.
Percebi porque passei anos aprendendo a ler as pessoas antes delas tentarem me enganar.
E naquele momento uma certeza desconfortável começou a nascer dentro da minha cabeça.
Kiara estava escondendo alguma coisa.
Algo sério.
Meu olhar voltou lentamente para os prédios do outro lado da avenida enquanto o silêncio pesado crescia entre nós.
Então pela primeira vez em muitos anos… pensei nele outra vez.
Ícaro Navarro.
O fantasma que nunca desapareceu completamente daquela família.
E pela primeira vez em muito tempo senti uma sensação estranha atravessar meu peito.
Como se o passado estivesse voltando.
E dessa vez… talvez viesse pra destruir tudo.
— Você tá pensando nele né, sua v***a?!
A voz de Lorenzo explodiu carregada de raiva antes que eu conseguisse responder qualquer coisa.
O tapa veio forte.
Violento.
Minha cabeça virou para o lado no mesmo instante enquanto o gosto metálico do sangue invadia minha boca. Levei a mão rapidamente ao rosto sentindo a ardência queimando minha pele enquanto o choque percorria meu corpo inteiro.
— Lorenzo…
Mas ele já estava fora de controle.
Os olhos escuros carregavam um ódio absurdo enquanto respirava pesado me encarando como se quisesse arrancar alguma verdade de dentro de mim na força.
— Você acha que eu sou i****a?! — ele gritou segurando meu braço com brutalidade. — Eu tô vendo esse teu olhar distante faz tempo!
Meu coração disparou violentamente.
Porque no fundo Lorenzo sempre soube.
Talvez nunca tenha tido provas.
Mas sabia.
Sabia que existia uma parte minha que jamais pertenceu completamente a ele.
E aquilo destruía o ego dele.
— Me solta… — falei tentando puxar o braço.
Erro.
O rosto dele endureceu ainda mais.
Então senti os dedos apertando meu pescoço violentamente enquanto ele me empurrava contra o vidro da varanda.
O impacto tirou meu ar imediatamente.
— Eu te dei tudo! — a voz dele saiu rouca de ódio. — Tudo! E mesmo assim você nunca esqueceu aquele desgraçado!
As mãos dele apertavam meu pescoço cada vez mais forte enquanto lágrimas involuntárias enchiam meus olhos pela falta de ar.
Meu Deus.
Lorenzo nunca tinha chegado naquele ponto.
Ele já tinha sido agressivo antes em discussões. Já perdeu o controle algumas vezes. Mas daquela vez era diferente.
Tinha ódio real ali.
Ciúme.
Medo.
— Lorenzo… para…
Minha voz saiu falha enquanto tentava afastar as mãos dele.
Mas ele parecia cego pela própria raiva.
— Você ainda ama ele né?! — gritou próximo do meu rosto. — Mesmo depois de tudo!
Meu peito apertou violentamente.
Porque aquela pergunta me destruiu mais do que o aperto no meu pescoço.
E talvez Lorenzo tenha percebido isso no instante em que meus olhos encheram de lágrimas.
A expressão dele mudou.
Não pra culpa.
Mas pra algo pior.
Confirmação.
Ele me soltou bruscamente fazendo meu corpo quase cair contra a varanda enquanto eu tossia tentando recuperar o ar. O sangue escorria lentamente do canto da minha boca causado pelo tapa e o silêncio pesado entre nós parecia sufocante.
Lorenzo passou a mão pelos cabelos nervosamente enquanto andava de um lado pro outro da sacada completamente transtornado.
— Eu sabia… — ele murmurou rindo sem humor. — Eu sempre soube.
Continuei em silêncio tentando controlar a respiração enquanto o peito queimava.
O vento forte atravessava a varanda bagunçando meus cabelos e por um instante meus olhos acabaram indo involuntariamente para cobertura do outro lado da avenida.
Escura.
Silenciosa.
Mas eu sentia.
Sentia que Ícaro estava olhando.
Como se de alguma forma ele soubesse.
Lorenzo percebeu imediatamente a direção do meu olhar.
E aquilo foi o suficiente pra piorar tudo.
— Tá olhando pra onde?! — ele avançou outra vez segurando meu rosto com força. — Tem alguém ali?! Tem?!
— Você tá louco!
— Responde!
A fúria dele crescia de um jeito assustador enquanto me sacudia violentamente.
Mas então o celular dele começou a tocar dentro do quarto.
O som cortou o clima pesado abruptamente.
Lorenzo respirava fundo tentando recuperar o controle enquanto me encarava com os olhos cheios de raiva e desconfiança.
Por alguns segundos achei que ele fosse continuar.
Mas ele apenas apontou o dedo na minha direção.
— Isso não acabou.
Então entrou no quarto pegando o telefone ainda transtornado.
Fiquei sozinha na varanda tentando recuperar o ar enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo meu rosto.
Meu corpo tremia.
Mas não era só medo.
Era outra coisa.
Porque pela primeira vez em anos, uma verdade impossível começou a gritar dentro de mim: A volta de Ícaro Navarro não destruiria apenas o morro. Ia destruir todos nós.