Kiara Navarro
A chuva caía fraca sobre o Rio de Janeiro naquela noite enquanto Kiara Navarro permanecia parada diante da enorme janela do quarto observando as luzes do morro ao longe. O vento balançava levemente as cortinas claras e o silêncio dentro da casa parecia pesado demais para alguém que carregava tantas coisas guardadas dentro do peito.
Às vezes ela se perguntava em qual momento da vida tinha começado a sobreviver em vez de viver. Talvez tivesse sido no instante em que se apaixonou por Ícaro Navarro.
Ou talvez antes.
Muito antes.
Kiara nasceu aprendendo que mulheres como ela não tinham direito de escolher nada. Cresceu dentro da realidade c***l do morro vendo homens decidirem destinos enquanto as mulheres apenas obedeciam. Seu pai era aliado antigo da família Navarro e por causa disso ela passou praticamente toda infância circulando entre os mesmos ambientes que Ícaro.
Eles cresceram juntos.E talvez esse tenha sido o problema.Kiara ainda lembrava da primeira vez que realmente olhou para ele.
Não como o filho do dono do morro.
Mas como garoto.
Ela tinha quinze anos quando encontrou Ícaro sentado sozinho no alto da laje observando o céu depois de uma discussão violenta com o pai. O vento bagunçava os cabelo escuro dele enquanto o cigarro queimava devagar entre seus dedos.
Ela lembrava exatamente da sensação daquele momento. Porque até então Ícaro Navarro sempre pareceu inalcançável.
Bonito demais.
Intenso demais.
Perigoso demais.
Os meninos da comunidade queriam ser iguais a ele e as meninas sonhavam em chamar sua atenção. Mas Ícaro nunca olhava para ninguém de verdade.
Até olhar para ela.
Kiara sorriu fraco ao lembrar.
Foi e******o.
Os dois eram jovens demais para entender que algumas pessoas nascem destinadas a se destruir umas às outras.
— Tu me encara demais.
A voz rouca dele naquela noite ainda existia viva dentro da memória dela.
Kiara tinha, ficado nervosa quando ele levantou os olhos pela primeira vez diretamente na direção dela. Porque Ícaro tinha um jeito diferente de olhar. Intenso. Como se enxergasse além do que as pessoas tentavam esconder.
Ela tentou disfarçar.
— Convencido.
Ele riu baixo.
Aquela risada…
Durante muito tempo foi o som favorito dela no mundo.
— Sobe aqui então.
Kiara deveria ter ido embora.
Mas subiu.
E foi ali naquela laje simples cercada pelas luzes do morro que tudo começou.
Ícaro nunca foi gentil do jeito tradicional. Não escrevia cartas bonitas nem fazia promessas românticas. O amor dele vinha em detalhes pequenos. Em olhares demorados. Na forma como segurava sua mão escondido nos bailes. No jeito silencioso que sempre aparecia quando alguém mexia com ela.
Ele protegia sem precisar falar.
E Kiara se perdeu nisso.
Se perdeu nele.
Os dois começaram a se encontrar escondidos porque a família Navarro jamais permitiria aquilo oficialmente. O pai de Ícaro tinha planos grandes para o filho e relacionamento sério não fazia parte deles. Ainda mais com uma garota comum da comunidade.
Mas Ícaro nunca ligou.
Pelo menos não naquela época.
Ela lembrava das madrugadas escondidas no terraço da antiga casa dele enquanto o som distante do baile ecoava pelo morro. Lembrava das mãos tatuadas segurando seu rosto com cuidado contradizendo completamente a fama agressiva que ele tinha.
E principalmente lembrava do jeito que ele olhava para ela.
Como se Kiara fosse a única coisa capaz de acalmar a guerra dentro dele.
Só que o problema dos amores intensos é que eles quase sempre acabam em tragédia.
Naquela época, Ícaro já carregava raiva demais dentro do peito. A relação dele com o pai piorava a cada dia, as brigas dentro da família aumentavam e Otávio Navarro observava tudo de longe como uma cobra esperando o momento certo para atacar.
Kiara percebeu antes de todo mundo que algo r**m estava prestes a acontecer.
Ícaro estava mudando.
Ficando mais frio.
Mais violento.
Mais consumido pelo peso do sobrenome que carregava mesmo assim ela continuou ali.
Porque amava ele.
Amava de um jeito perigoso.
Daqueles que cegam.
E então veio aquela noite.
A noite que destruiu tudo.
Kiara jamais esqueceria os gritos espalhados pelo morro depois da morte do pai de Ícaro. A comunidade inteira virou um caos enquanto homens armados corriam pelas vielas procurando alguém.
Procurando Ícaro.
Ela saiu desesperada de casa quando começou a ouvir as acusações. As pessoas gritavam que ele tinha enlouquecido. Que matou o próprio pai para tomar poder. Que tinha traído a família.
Mas Kiara sabia.
Sabia que aquilo não fazia sentido.
Ícaro podia ser impulsivo, agressivo e orgulhoso.Mas nunca pisaria no próprio pai daquele jeito.
Ela tentou encontrar ele naquela madrugada.
Tentou desesperadamente.
Mas já era tarde.
Quando conseguiu chegar perto da parte baixa do morro encontrou apenas sangue espalhado na chuva e marcas da violência que fizeram com ele.
Depois disso, Ícaro Navarro desapareceu.
Sem despedida.
Sem explicação.
Sem voltar.
E junto com ele levou embora a melhor parte dela também. Os primeiros meses foram os piores. Kiara esperou esperou uma ligação.
Uma mensagem.
Qualquer coisa.
Mas nada veio.
Com o passar do tempo, o morro inteiro começou a agir como se Ícaro nunca tivesse existido. O nome dele virou tabu dentro da família Navarro e Otávio assumiu completamente o poder da comunidade.
Foi Lorenzo quem mais mudou depois daquilo.
O primo de Ícaro sempre viveu na sombra dele. Cresceu tentando provar que também merecia respeito e finalmente encontrou espaço quando o antigo herdeiro desapareceu.
No começo Lorenzo foi gentil com ela.
Presente.
Atencioso.
Ajudava sua família financeiramente enquanto o morro atravessava mudanças violentas depois da morte do antigo chefe.
Kiara estava destruída emocionalmente naquela época.
Sozinha.
Perdida.
E vulnerável demais.
Quando percebeu já estava presa numa vida que nunca quis.
O relacionamento com Lorenzo começou mais por sobrevivência do que pelo amor. Ele oferecia proteção num lugar onde mulheres sem homem viravam alvo fácil. E depois de tudo que aconteceu com Ícaro, a família dela praticamente implorou para aceitar.
“É o melhor pra você.”
Ela ouviu aquilo tantas vezes que começou a acreditar.
Então virou mulher de Lorenzo Navarro.
Mas nunca completamente.
Porque uma parte dela continuava presa ao passado.
Mesmo anos depois.
Mesmo tentando seguir em frente.
Kiara fechou os olhos lentamente sentindo o peito apertar outra vez.
Lorenzo nunca percebeu.
Ou talvez percebesse e fingisse não notar.
Porque no fundo existia uma verdade c***l dentro daquela relação:Ela jamais amou ele da forma que amou Ícaro.
Nunca.
O som da porta abrindo fez Kiara sair dos pensamentos imediatamente. Lorenzo entrou no quarto mexendo no relógio, caro enquanto falava ao celular sobre negócios do morro.
Ela observou ele em silêncio.
Bonito.
Poderoso.
Perigoso.
Mas incapaz de incendiar sua alma como o outro fazia.
Lorenzo encerrou a ligação e caminhou até ela segurando sua cintura.
— Tá distante hoje.
Kiara forçou um sorriso pequeno.
— Só cansada.
Ele beijou seu pescoço distraidamente enquanto continuava falando sobre problemas na comunidade.
Mas ela já não escutava.
Porque lá no fundo uma sensação estranha apertava seu peito naquela noite.
Como se algo estivesse mudando.
Como se o passado estivesse acordando outra vez.
E sem imaginar…Em algum lugar daquela mesma cidade, o homem que ela nunca conseguiu esquecer tinha acabado de voltar pro Rio.