Kiara
O caminho inteiro foi em silêncio.A cidade passava rapidamente pela janela escura do carro enquanto eu permanecia sentada no banco traseiro tentando controlar o coração completamente descontrolado dentro do peito. Minhas mãos continuavam tremendo sobre minhas pernas e a cada minuto que passava a realidade daquilo tudo parecia mais absurda.
Ícaro estava vivo.
E eu estava indo encontrar ele escondida no meio da madrugada como se os últimos anos nunca tivessem existido. Kenji dirigia calmamente sem dizer uma única palavra. A expressão dele permanecia fria enquanto atravessávamos ruas cada vez mais vazias da Barra da Tijuca até finalmente o carro entrar em uma área mais reservada.
Condomínios luxuosos começaram a surgir cercados por muros enormes e segurança privada.
Meu estômago apertou.
Aquilo definitivamente não parecia a vida de alguém que fugiu quase morto anos atrás.
O carro continuou avançando até entrar em um condomínio ainda mais exclusivo cercado por enormes casas modernas iluminadas discretamente pela luz da madrugada.
Então finalmente parou.
Levantei os olhos devagar. A casa diante de mim era gigantesca e moderna imponente.
Toda cercada por vidros escuros e iluminação baixa deixando o ambiente quase intimidador. Parecia fria. Silenciosa. Como se ninguém realmente morasse ali.
Meu coração acelerou ainda mais.
Kenji saiu primeiro do carro e abriu a porta pra mim sem falar nada.
Respirei fundo antes de descer.
O vento frio da madrugada bateu contra minha pele enquanto meus olhos percorriam aquela casa enorme tentando processar tudo. Aquilo não parecia pertencer ao garoto da favela que eu conheci anos atrás.
Parecia a casa de alguém perigoso.
Muito perigoso.
Kenji caminhou na frente em silêncio enquanto eu seguia atrás dele pela entrada enorme iluminada apenas por pequenas luzes embutidas no chão.
Quando a porta principal se abriu meu corpo inteiro arrepiou.
A sala era imensa.
Luxuosa.
Escura.
Tudo em tons de preto, cinza e madeira escura. Os móveis modernos davam ao ambiente uma aparência elegante, mas fria ao mesmo tempo. Não existia calor naquela casa.
Só poder.
Silêncio.
Controle.
Meus passos ficaram lentos automaticamente enquanto observava tudo ao redor tentando ignorar o nervosismo esmagando meu peito.
Foi então que eu vi ele.
Parado de costas próximo da enorme janela de vidro da sala.
Ícaro.
Meu coração praticamente parou.Os cabelos agora estavam muito maiores do que antes. Escuros. Longos. Parte deles presa num coque baixo enquanto o restante caía solto pelas costas. O corpo parecia ainda mais largo agora coberto completamente por preto enquanto uma das mãos tatuadas segurava um copo de whisky.
Por alguns segundos ele permaneceu imóvel.
Então virou lentamente na minha direção.
E eu perdi completamente o ar.
Porque aquele homem…
Não era mais o Ícaro de antes.
Os anos transformaram ele em alguém completamente diferente.
Mais sombrio.
Mais intenso.
Mais perigoso.
Um piercing brilhava discretamente no canto da boca e outro atravessava a sobrancelha deixando o rosto ainda mais marcado. As mãos estavam completamente tatuadas agora, desenhos escuros subiam pelos dedos e desapareciam sob as mangas da camisa preta.
Mas foram os olhos que me destruíram.
Continuavam iguais.
A mesma intensidade absurda.
A mesma sensação de incêndio escondida ali dentro. Só que agora existia frieza também.
Muita frieza.
Meu corpo inteiro ficou imóvel enquanto encarava ele sem conseguir acreditar de verdade que aquilo estava acontecendo.
Ícaro também não desviava os olhos de mim.
Como se estivesse tentando absorver cada detalhe meu depois de tantos anos.
O silêncio entre nós parecia sufocante.
Pesado.
Cheio de coisas não resolvidas.Então ele deu um passo na minha direção.
Meu coração disparou violentamente.
Mais um passo. Até parar bem na minha frente.
Perto demais.
Meu Deus.
O cheiro dele ainda era o mesmo.
Madeira, cigarro e algo perigosamente viciante.
Senti os olhos queimarem imediatamente enquanto encarava aquele rosto que passei anos tentando esquecer.
Mas falhei.
Porque bastou ficar diante dele outra vez para perceber uma verdade c***l:
Eu nunca deixei de amar Ícaro Navarro.
O silêncio entre nós parecia vivo.
Pesado.
Quente.
Perigoso.
Ícaro continuava parado bem na minha frente enquanto os olhos percorriam lentamente meu rosto como se tentasse confirmar que eu era real. A proximidade dele bagunçava completamente minha cabeça. Meu coração batia tão forte que chegava a doer dentro do peito.
E ele percebeu.
Claro que percebeu.
Ícaro sempre soube exatamente o efeito que tinha sobre mim.
A mão tatuada dele se ergueu devagar até tocar meu rosto machucado pelo tapa de Lorenzo. O polegar passou cuidadosamente perto do corte na minha boca enquanto os olhos escureciam imediatamente.
A expressão dele mudou.
Frieza virou raiva em segundos.
Uma raiva silenciosa.
Muito pior.
— Ele fez isso com você.
A voz saiu baixa.
Controlada demais.
Aquilo me assustou mais do que se ele tivesse gritado.
Engoli em seco tentando controlar as lágrimas enquanto continuava olhando pra ele. Tão perto que conseguia enxergar cada detalhe novo do rosto dele. A barba mais marcada. Os piercings. As tatuagens subindo pelo pescoço parcialmente escondidas pela camisa preta.
Mas ainda era ele.
Meu Ícaro.
Mesmo transformado em algo mais sombrio.
— Ícaro…
Minha voz falhou imediatamente.
Ele fechou os olhos por um segundo ao ouvir meu jeito de falar o nome dele. Como se aquilo também mexesse com ele num nível perigoso.
Então abriu os olhos outra vez.
E meu Deus… Tinha tanta coisa presa naquele olhar.
Raiva.
Saudade.
Mágoa.
Desejo.
Anos inteiros de sentimentos m*l resolvidos.
— Você não devia ter vindo — ele murmurou sem afastar a mão do meu rosto.
Soltei uma risada fraca completamente nervosa.
— Você manda alguém me buscar no meio da madrugada e diz que eu não devia ter vindo?
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele pela primeira vez.
Fraco.
Mas real.
E aquilo destruiu meu coração.
Porque por um segundo consegui enxergar o garoto que amei escondido dentro daquele homem perigoso.
Ícaro passou a mão lentamente pelos cabelos presos no coque antes de se afastar alguns passos tentando recuperar o controle. Pegou o copo de whisky sobre a mesa e virou o restante da bebida de uma vez só enquanto mantinha os olhos em mim.
Como se tivesse medo de eu desaparecer.
— Você tá diferente — falei quase sem perceber.
Ele soltou uma risada baixa sem humor.
— Você também.
O silêncio caiu novamente.
Só que dessa vez era diferente.
Menos estranho.
Mais íntimo.
Como se apesar dos anos ainda existisse algo absurdamente familiar entre nós.
Meus olhos percorreram lentamente aquela sala enorme outra vez.
Luxo.
Dinheiro.
Poder.
Tudo gritava que Ícaro construiu um império longe dali.
Voltei a olhar pra ele.
— O que aconteceu com você?
A pergunta ficou suspensa no ar por alguns segundos.
Ícaro desviou os olhos caminhando lentamente até a enorme janela da sala enquanto observava a cidade do lado de fora.
As costas largas ficaram tensas imediatamente.
— O mundo aconteceu comigo.
A resposta veio fria.
Pesada.
Meu peito apertou.
Porque dava pra sentir a dor escondida ali.
Anos atrás Ícaro já carregava escuridão dentro dele. Mas agora parecia pior. Como se tivesse aprendido a sobreviver enterrando sentimentos vivos dentro do próprio peito.
Me aproximei devagar.
— Eu achei que você tava morto.
Ele fechou os olhos por um instante antes de responder:
— Quase fiquei.
Arrepiei inteira.
A forma calma que ele falou aquilo tornava tudo ainda mais assustador.
Ícaro virou novamente na minha direção e então percebi algo que não tinha notado antes.
Uma cicatriz fina atravessava parte do pescoço dele, desaparecendo sob a gola da camisa. Meu coração apertou violentamente.
Meu Deus.
O que fizeram com ele?
Talvez ele tenha percebido meu olhar porque
puxou discretamente a gola da camisa escondendo a marca outra vez.
— Não olha assim pra mim.
— Assim como?
A mandíbula dele travou.
— Como se ainda se importasse.
Aquilo me atingiu forte demais.
Porque eu ainda me importava.
Mais do que devia.
Muito mais.
As lágrimas voltaram sem que eu conseguisse impedir enquanto encarava ele parada no meio daquela sala escura.
— Você sumiu sem falar nada comigo… — minha voz saiu falha — Eu te procurei Ícaro.
O olhar dele endureceu imediatamente.
— Eu tava tentando sobreviver.
Silêncio.
A resposta veio carregada de verdade.
E culpa me atravessou na mesma hora.
Porque pela primeira vez percebi uma coisa horrível:
Talvez ele realmente tenha acreditado que eu segui em frente fácil demais.
Ícaro passou a mão tatuada pelo rosto respirando fundo antes de se aproximar outra vez. Dessa vez mais devagar.
Mais perigoso.
Parou tão perto que senti o calor do corpo dele imediatamente.
Então segurou meu queixo com firmeza obrigando meus olhos encontrarem os dele.
— Me responde uma coisa, Kiara.
Meu coração disparou.
— Você ama ele?
A pergunta destruiu o ar da sala inteira.
E pela forma que Ícaro me olhava…
Eu percebi que aquela resposta podia acabar com tudo.