Prólogo
— E você Kira? O que pretende fazer da vida?
— Ah! Eu... — Tentei responder, mas fui brutalmente interrompida por minha mãe.
— Ela está indo para a faculdade de medicina semana que vem e alugamos um apartamento próximo. Quero garantir a segurança da minha filha durante o trajeto noturno para a faculdade. É difícil vê-la crescer, mas faz parte da vida.
— Está animada Kira? — Tia Louise pergunta com um sorriso simpático, ignorando totalmente sua irmã.
— Eu... — Fui interrompida pela segunda vez.
— Ela está! Estivemos conversando sobre isso a semana inteira. É tão bom ver minha filha realizando o seu sonho... — Mamãe foi interrompida por Tia Louíse.
— Deixe minha sobrinha falar, Lizzy! — Tia Louíse forçou um sorriso enquanto levantava as sobrancelhas na tentativa de constranger mamãe.
— Desculpe. Eu estou tão preocupada com minha filha, sabe!? Estou muito orgulhosa, porém... Muito preocupada. — Eu não estava à vontade para falar sobre o assunto, preferi ficar em silêncio. Porém, ficou um silêncio constrangedor. Kim e eu olhamos-nos, ela coçou a garganta e tentou puxar assunto logo em seguida.
— Então... Kira e eu vamos morar juntas, não é legal? O sonho de qualquer adolescente é morar com a melhor amiga, não sei a Kira, mas eu estou para lá de animada. — Kimberly olhou-me sorrindo e deu uma piscadinha, contive um sorriso.
Não gosto do jeito que mamãe tenta decidir por mim, como se a minha vida fosse pertencente a ela. Mas é normal, toda mãe quer um filho perfeito. Mamãe é apenas uma mãe normal querendo o melhor para sua filha única.
— A Kira está indo para a faculdade, vai sair de casa próxima semana... — Papai olha-me com o sorriso triste, mas com um olhar orgulhoso.
— E logo estará conhecendo um rapaz. — Logo após essas seis palavras saírem da boca da minha Tia, a mesa ficou com um silêncio ensurdecedor e logo se transformou na voz da minha mãe, praticamente aos berros.
— A Kiria não está interessada em relacionamentos no momento, Louíse! Pare de falar asneiras. — Mordi a bochecha tentando conter uma risada, enquanto Kimberly fica de cabeça baixa, escondendo um sorriso.
— Pare de ser rude, Lizzy! Nossa filha precisará de um marido algum dia. Essa é a meta de uma mulher, conseguir um marido para governá-la e gerar filhos.— Papai, pela primeira vez, entra na conversa.
— Mas... Mas não é assim que funciona Ricardo, nossa filha não pode casar com qualquer um, tem etapas primeiro. Depois de todo um processo nós teremos que lhes dar a benção para casar.
— Por Deus, Lizzy! A gente não está na Idade média, a Kira não tem namorado ainda. Não existe mais isso de os jovens precisam da benção dos pais para casar. As mulheres não precisam ser governadas. A vida não é só para gerar filhos. Isso é coisa de gente antiga. — Não sei o que seria desses jantares em família sem a minha Tia. Esses jantares sempre rendem muitas pérolas, Kim sempre está presente e sempre rimos juntas.
— Está me chamando de velha? — Mamãe esbravejou.
— Se a carapuça serviu. — Tia Louíse afronta.
Decido sair da mesa, pois o jantar já acabou há um tempo e parece que esta noite não vai terminar em paz e harmonia.
— Licença. — Levanto da mesa, sendo seguida por Kim.
— Sua família rende muito entretenimento. Você nunca vai ficar entediada. — Debochou quando já estávamos longe.
— Nem me fale. Amo quando você vem se "divertir" junto comigo nesses jantares. — Ironizei.
— Queria te agradecer por isso. Obrigada por me incluir na sua família. — Kimberly agradeceu de cabeça baixa.
— Não estou te incluindo, você é da família. — Sorri sem mostrar os dentes.
Kimberly é muito alegre, gosta de zoar, mas essa noite parecia que algo estava a incomodando.
— Está tudo bem? Você está com algum problema? Pode me contar se quiser. — Os olhos de Kim em nenhum momento cruzaram com os meus, seu olhar está distante, isso só confirma que eu estou certa. Ela realmente está incomodada.
— Kira... Eu... — Parece procurar as palavras. — Eu não sei por quanto tempo isso pode dar certo.
— Como assim? Não estou te entendendo. — Questionei confusa.
— Eu não sei por quanto tempo vou conseguir ajudar com as despesas do apartamento, e eu não me sentiria confortável com os seus pais pagando tudo sozinhos, isso não me parece certo. — Kimberly parece envergonhada. — Eu não sou da família, eles não têm obrigações comigo.
— Kim, está tudo bem. Não precisa se preocupar com isso, não estamos morando juntas ainda, fica calma e deixa as coisas acontecerem primeiro, está bem!? — Abracei-a na tentativa de confortá-la. — Você pode arranjar algum emprego, não é como se fosse impossível, não é?
— Kira, eu não tenho experiência em nada. Não vou conseguir um emprego que pague bem o suficiente.
Nascer em uma família boa é ótimo, o r**m é quando você tem uma melhor amiga que não teve a mesma sorte, então você quer ajudá-la de todas as formas possíveis e acaba roubando os problemas dela para você.
— E juntando o seu salário com o meu, seria suficiente? — A olhei com receio.
— Está falando sério? — Ela ficou animada de repente, me deixando animada também. — Faria isso por mim!?
— Claro! Você tem muito potencial, por isso ganhou uma bolsa de estudos em uma das maiores faculdades do país. Você só precisa de um empurrãozinho financeiro. E eu posso te ajudar, sei que faria o mesmo por mim. — Sorrimos, mas de repente o sorriso de Kimberly desapareceu. — O que foi?
— Eu não posso aceitar. Sua mãe já está bancando tudo para você não precisar trabalhar, e muito menos se expor aos perigos da noite em cidade grande. Obrigada, mas não é justo. — Kimberly apenas saiu andando sem esperar por uma resposta.
Conheci a Kim na escola; estudamos juntas desde o ensino fundamental. Ela era estranha, pois era nova na cidade, não conhecia nem falava com ninguém. Nunca víamos os pais dela, responsáveis ou qualquer outra pessoa. Até que nos tornamos amigas e, com muita insistência, ela me contou que os pais haviam falecido.
Ela não morava em um orfanato, nunca a vi com nenhum responsável, um tio, uma tia ou um amigo dos pais, ninguém. Ela nunca toca no assunto e, sempre que tento saber mais sobre ela, Kimberly fica brava.
Já fui à casa dela algumas vezes. Ela mora sozinha e nunca recebe visita de ninguém. Depois de anos, ainda não conheci nenhum conhecido da Kim.
Empurro algumas roupas que impedem a mala de fechar, mas não adianta, tenho que renunciar a algumas roupas.
— Kiria, você tem certeza que vai nos deixar sozinhos? — Mamãe entra chorando no quarto.
— Não me chame assim, mamãe! E sim, eu tenho certeza. Eu vou ficar bem, eu só vou morar na cidade vizinha, não vou para outro país.
— Mas depois que os filhos saem de casa, eles mudam com os pais, e você já está mudando. — Mamãe saiu enxugando as lágrimas do rosto sem esperar por uma resposta. Quanto drama.
Após tirar algumas roupas inúteis da mala, mandei mensagem para Kim.
"Vem mais cedo amanhã, caso a mamãe tente-me fazer desistir ou perder a hora. Vai saber né!?"
Deitei para dormir, mas não consegui. Acho que estou muito ansiosa. Fiquei a contar carneirinhos igual uma criança, mas nunca funciona comigo.
Olhei o celular, 27 de agosto 02:50 da madrugada. Preciso dormir urgentemente.
Às vezes, fico acordada a noite toda, ansiosa para descobrir o que acontecerá na próxima página da minha vida. E nesse exato momento, estou passando por isso. Minha ansiedade para viajar amanhã me causa um tipo de adrenalina horrível que não me deixa dormir.