CAPÍTULO 3 - SARA

1589 Words
Eu só paro de dirigir quando chego na casa do meu irmão, com frio e com meu coração pequeno dentro do meu peito, eu nunca pensei que as cosias aconteceriam dessa forma e nem imaginei que eu conseguiria. Casamento não vem com manual, uma coisa é o namoro. Eduardo ainda era o cara que eu gostava e que me fazia tão bem, eu só queria estar bem e não me sentir daquele jeito, mas as coisas não acometem como queremos e, por mais que doa, tomar uma decisão agora, vai ser melhor do que tomar uma decisão daqui a alguns anos ou talvez somente alguns meses. Mamãe quando era viva sempre dizia que casamento não devia ser puxado, devia fluir. Vendo pelo meu lado, meu casamento não estava fluindo. Estava só indo na direção dos alvos dele. Não era sobre nós. Desço do carro e sigo direto para a porta, olho para o jardim e vejo que Sam estava cuidando bem de casa. Que as coisas ainda estavam do jeito que era, com um toque diferente, mas tão acolhedor. Mamãe fazia falta numa hora dessa, perdi ela quando eu tinha apenas quinze anos, desde então, Sam cuidou e mim, foi o irmão que eu sempre pude me orgulhar de ter, aquele que evitou eu ir parar em um abrigo para menores. Não tínhamos pai, tivemos então que nos virar desde cedo, juntos. Ele como o incrível professor que era e eu uma psicóloga, a família sempre brincou com ele, dizendo que ele era capaz de mais, assim como eu, mas ele gostava do que fazia, ele era o tipo de pessoa que deixava de ganhar dinheiro pra ser feliz, pra viver a felicidade dele. Independente do que fosse. Eu também era baseada nesses princípios. Eu queria ser feliz. Sozinha ou com alguém. Não deixada em segundo plano por conta de trabalho. Felicidade sempre era mais importante do que qualquer outra coisa nessa vida, por mais que vão negar, essa é uma verdade, uma verdade que muitos deviam entender. Ninguém é feliz por ter muito dinheiro, as pessoas ficam felizes pelo que ele proporciona. Bato na porta e espero, já está tão tarde, espero que ele esteja em casa, mas pode ser que não esteja. Me mexo até a planta e procuro a chave, antes que encontre, a porta se abre e meu irmão surge usando um casaco de frio e segurando uma caneca, com os óculos velhos dele e um cabelo bagunçado. Aquilo me aquece e eu me aproximo dele, dou um abraço e fico parada, sentindo tudo voltar, até eu me desfazer em lágrimas e sentir ele acariciar minhas costas, como um ótimo irmão faria. Eu me lembro bem quando trouxe Eduardo pra conhecer ele, lembro bem as borboletas na barriga e o suspiro aliviada quando vi os dois se tornarem bons amigos. - Não acha que está muito tarde pra nós ficarmos aqui de fora, Sara? - Sim, eu sei, só precisava abraçar alguém. Eu acho que precisava muito disso. Entramos pra dentro e ele me leva direto pra sala, me deixando em um sofá e se sentando ao meu lado, ele não começa falando nada, apenas ficou esperando eu dizer. Eu não sabia como falar que meu casamento havia possivelmente chegar ao fim. Era tão vergonhoso e parecia que essas palavras doíam tanto também, como um machucado recém adquirido. Era uma m***a. - Você quer alguma coisa? Água? Suco? Um chá? - Balanço a cabeça. - Então me diz o que houve, o que traz a senhorita aqui essas horas da noite? Preciso saber pra poder saber o que fazer ou falar. Cobra e eu olho para ele. - Eu o deixei - Vejo a expressão dele mudar, como se não acreditasse no que saísse da minha boca. Aqui já sabemos o estrago que foi feito e vai ser feito daqui pra frente, não vai ser fácil. - O que houve? - Não quero ter que marcar hora pra ficar com ele, não é justo comigo e nem com ele. Ele entrou em duas fases ao mesmo tempo Sam, eu juro que tentei estar do lado dele, mas eu não posso me sentir triste e sozinha dentro de um casamento, ainda mais um que tem pouco tempo. O que vai ser daqui uns anos? - Eu imaginei que isso iria acontecer. Ele ainda não aprendeu a associar a vida pessoal com o trabalho - Eu me mexo e coloco a cabeça no colo dele, deito ali na forma mais branda de me consolar, mesmo que tem uma sensação h******l dentro de mim, uma dor dentro do peito que me deixa r**m. - Já era pra ele ter aprendido, mas a questão é que ele sabe, ele sabe que passa mais tempo no trabalho do que cuidado da vida dele, o trabalho virou o foco, ele está tão preocupado em agradar o pai, que não percebe que está deixando a vida dele de lado pela advocacia. Eu sei que ele é ótimo no que faz e está dando o melhor dele, mas eu não sei o que deu nele, ele se afastou, ele se desligou de uma coisa pra se ligar em outra. - O que houve pra vocês brigarem hoje? Hoje não era um dia de festa? Um dia dos dois? - Ele começa a acariciar meu cabelo. Eu sei que ele entende o lado de Eduardo, meu irmão não era casado e passava mais tempo na universidade lecionando do que em casa. Ele também não era conhecido por ter muitas namoradas e nem relacionamento. - Ele não se lembrou que dia era hoje, não se importou em fazer alguma coisa diferente ou algo do tipo, me senti péssima por isso. - Ele pisou na bola, não foi? - Sim, eu não aguentei e comecei a falar, mas ele- Faço uma pausa. - Ele nem se tocou que eu só queria o mínimo, sabe? Algo que eu nem devia cobrar dele, algo que devia ser do coração dele fazer, da vontade dele, não da minha. Eu não quero viver isso o resto da minha vida, não quero ver ele se afastar dia após dias, eu quero o cara que eu casei, que era fechamento, que estava comigo quando eu queria chorar ou rir que nem uma maluca. Acho que isso não é pedir demais. - Não, não é. Mas veja, você estava de cabeça quente e ele talvez cansado, vou arrumar o seu quarto antigo e você fica nele, amanhã vocês conversam. Eu sei que ele vai te procurar e querer saber se está bem, não foi de todo m*l essa sua saída de casa no meio da noite - Me mexo e me sento novamente, olhando pra ele. - Acha que ele pode melhorar? Que ele veja o que estou pedindo? - Acho, mas se o problema for o trabalho e a forma que ele está levando a vida dele, isso somente ele pode resolver. Você fez uma cobrança, está de cabeça quente ainda. - Talvez ele não queira isso - Limpo meu rosto. - Não quero mais ficar assim. - Essa é a primeira crise de vocês, lembra que eu disse que vocês não podem se largar, que se afastar não dá certo. Sabe que tem que avisar que está bem, que está aqui, não faça algo de momento - Sam se levanta. - Eu não vou falar quem está certo ou errado, eu quero seu bem e quero que seja feliz, não importa como ou com quem. - Me desculpa aparecer tão tarde da noite. - Estamos aqui pra ajudar um ao outro, lembra? - O que acontece se eu e ele nos separar? Eu não sei se quero isso - Choro de novo, como uma maldita chorona, num estado que chega a ser decadente pra mim. Meu psicológico sendo arruinado. - Você recomeça sua vida amorosa, mas não pense nisso, pense que amanhã você vai estar mais calma e melhor, hoje você está chateada pelo que houve. Eu sei que ele vai atrás de você. - Sabe - Me mexo e fico de pé. - Ainda gosto daquele cara - Sam se aproxima e passa o braço pelos meus ombros. - Eu não quero perder ele, eu só quero que ele veja o que acontece e faça diferente. Eu ainda estou disposta a tentar. - Você entende o que está acontecendo e expôs, agora não depende de você, mas dele - Ele me leva escada acima e me faz ficar de frente a porta do meu antigo quarto. - Vai pra cama, vou descer e pegar alguma coisa pra você beber e comer, depois eu e a senhorita vamos descansar. - Você é tão sensato - Dou um sorriso triste. - Mas não quero nada, parece que se eu comer meu estômago todo vai se revirar e eu vou colocar tudo pra fora, sabia? - Tem certeza? - Sim Sam, eu tenho certeza. - Vou para o meu quarto e vou deixar você pensar nisso, quer que eu fique? - Vai pro seu quarto, já está tarde - Ele me beija na testa e se mexe, quando faço o mesmo, abro a porta do meu quarto e vejo as coisas arrumadas. Me aproximo da cama e me sento, acendo a luminária ao lado da cama e fico parada, estranhando totalmente o lugar e me sentindo péssima. Espera que amanhã estivesse melhor. Pego o telefone, vejo as inúmeras chamadas dele, por fim, apenas digito uma mensagem. Sam estava certo. Devia fazer isso direito.
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