Capítulo 12
Ponto de Vista — Angélica
Quando o carro finalmente parou em frente ao meu prédio, senti meu coração acelerar novamente.
Olhei pela janela por alguns segundos antes de sair. O prédio simples parecia ainda menor depois da mansão gigantesca de onde eu tinha acabado de sair. Era como se eu tivesse atravessado dois mundos completamente diferentes em menos de doze horas.
O motorista saiu primeiro e abriu a porta para mim com toda educação.
— Chegamos, senhorita.
Assenti, um pouco sem jeito.
— Obrigada… por me trazer.
Ele apenas inclinou a cabeça, educado.
Subi os poucos degraus da entrada do prédio sentindo minhas pernas um pouco fracas. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a quantidade de emoções daquela noite.
Ou talvez… fosse porque minha mente não parava de voltar para ele.
Para aquele homem.
Para o toque dele.
Para aqueles olhos azuis que pareciam enxergar direto dentro de mim.
Balancei a cabeça rapidamente.
— Para com isso, Angélica… — murmurei.
Empurrei a porta do prédio e entrei.
O corredor estava silencioso. Era domingo de manhã, e a maioria das pessoas ainda dormia. O elevador demorou alguns segundos para chegar, e nesse pequeno tempo eu senti a ansiedade crescer dentro do meu peito.
E se Diana perguntasse onde eu estava?
E se ela percebesse alguma coisa?
Quando o elevador chegou, entrei rapidamente e apertei o botão do nosso andar.
O espelho do elevador refletiu minha imagem.
Meu cabelo ainda estava um pouco bagunçado, mas eu tinha conseguido me arrumar melhor antes de sair da casa dele. Mesmo assim… havia algo diferente no meu olhar.
Algo que eu não sabia explicar.
A porta do elevador se abriu.
Saí em silêncio, caminhei até nosso apartamento e girei a chave com cuidado para não fazer barulho.
Assim que entrei, respirei aliviada.
A sala estava quieta.
Nenhum som.
Nenhuma movimentação.
Diana ainda estava dormindo.
Era domingo, afinal. Ela só iria trabalhar à noite no restaurante.
Tirei os sapatos devagar e caminhei até meu quarto, quase na ponta dos pés. Fechei a porta com cuidado e me encostei nela por alguns segundos.
— Ufa…
Meu coração ainda batia rápido.
Caminhei até a cama e me joguei sobre o colchão.
Eu estava exausta.
Mas o sono… simplesmente não vinha.
Virei para um lado.
Depois para o outro.
Suspirei.
Fechei os olhos.
Mas toda vez que tentava dormir… a imagem dele aparecia na minha mente.
Aquele homem.
O homem mais bonito que eu já tinha visto na vida.
Seu corpo forte, coberto por tatuagens misteriosas. Os desenhos ainda estavam gravados na minha memória como um quebra-cabeça que eu não conseguia decifrar.
Quem ele era?
De onde ele vinha?
Por que tinha aquele sotaque estranho?
Abri os olhos novamente, encarando o teto.
— Eu nem sei o nome dele… — sussurrei.
Aquilo parecia surreal.
Eu tinha passado a noite inteira com um homem desconhecido.
Um homem que provavelmente vivia em um mundo completamente diferente do meu.
Um homem que morava em uma mansão gigantesca enquanto eu dividia um apartamento pequeno com minha melhor amiga.
Mesmo assim…
Quando ele me olhava… eu não sentia diferença nenhuma entre nós.
Fechei os olhos novamente.
Lembrei do jeito como ele tinha me puxado para perto no carro.
Do calor do abraço dele.
Do cuidado inesperado quando pensou que eu estava machucada.
Meu coração apertou levemente.
Ninguém nunca tinha se preocupado comigo daquela forma antes.
Especialmente não depois de uma noite como aquela.
Virei de lado, abraçando o travesseiro.
E então outra lembrança surgiu.
Rafael.
A festa.
As risadas.
As mãos me tocando.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
Meu estômago revirou.
— Que i****a eu fui… — murmurei.
Como eu pude acreditar que aquele convite era sincero?
Como eu pude ser tão ingênua?
Se aquele carro não tivesse passado naquela hora…
Eu nem queria imaginar o que poderia ter acontecido.
Apertei o travesseiro com mais força.
Talvez aquele homem tivesse aparecido na minha vida no momento exato.
Como um acaso.
Ou como uma sorte improvável.
Soltei um longo suspiro.
— Minha nossa…
Levantei da cama e fui até o espelho do quarto.
Observei meu reflexo com atenção.
Eu parecia a mesma Angélica de sempre.
A mesma garota simples.
A mesma garçonete.
A mesma estudante que lutava todos os dias para sobreviver em uma faculdade cheia de gente rica.
Mas por dentro…
Algo tinha mudado.
Eu tinha sentido algo diferente.
Algo intenso.
Algo que eu nunca tinha experimentado antes.
E isso me assustava.
Porque eu sabia que provavelmente nunca mais veria aquele homem.
Ele não tinha perguntado onde eu morava.
Eu não tinha perguntado o nome dele.
Nós simplesmente… nos despedimos.
Como dois estranhos.
— Talvez seja melhor assim… — murmurei.
Voltei para a cama e me deitei novamente.
Dessa vez, o cansaço começou a pesar de verdade.
Meu corpo finalmente começou a relaxar.
Antes de adormecer, uma última imagem apareceu na minha mente.
Os olhos azuis dele.
Intensos.
Marcantes.
E a forma como ele me olhou antes de eu sair pela porta.
Como se estivesse tentando memorizar meu rosto.
Um pequeno sorriso escapou dos meus lábios.
— Homem misterioso… — sussurrei sonolenta.
Talvez ele nem lembrasse de mim depois de algumas horas.
Talvez eu fosse apenas mais uma noite qualquer na vida dele.
Mas para mim…
Aquela noite tinha mudado tudo.
E com esse pensamento, finalmente fechei os olhos.
Sem saber que, naquele mesmo momento, em algum lugar da cidade…
O destino já começava a cruzar nossos caminhos novamente.