Capítulo10
Ponto de Vista — Angélica
A primeira coisa que senti foi o calor.
Um calor forte, envolvente, como se eu estivesse presa dentro de um abraço. Minha cabeça latejava levemente, consequência clara do álcool da noite anterior. Abri os olhos devagar, piscando algumas vezes até conseguir focar.
O quarto era enorme.
As cortinas eram longas e claras, e a luz do sol da manhã atravessava o tecido fino, iluminando o ambiente com uma luz dourada suave. A cama onde eu estava parecia grande o suficiente para quatro pessoas, com lençóis brancos macios e travesseiros espalhados.
Por alguns segundos eu não entendi onde estava.
Então as lembranças começaram a voltar.
A festa.
As risadas.
As mãos me tocando.
O desespero.
O carro.
O beijo.
Meu coração disparou.
Virei o rosto lentamente… e então vi.
Ele.
O homem estava deitado ao meu lado, dormindo profundamente. Os lençóis estavam parcialmente caídos, revelando o corpo forte e musculoso.
E meu Deus…
Ele era ainda mais bonito à luz do dia.
Seu peito largo subia e descia lentamente com a respiração tranquila. O corpo era forte, definido, cada músculo marcado de forma natural. Mas o que mais chamava atenção eram as tatuagens.
Elas cobriam quase todo o torso.
Símbolos, desenhos, padrões que eu nunca tinha visto antes. Alguns pareciam letras de outro idioma, outros lembravam figuras antigas, quase tribais.
Passei os olhos por cada detalhe, curiosa.
— Meu Deus… — sussurrei para mim mesma.
Ele era alto, imponente. Mesmo dormindo dava para perceber a força que aquele homem carregava.
E então a realidade caiu sobre mim como um balde de água fria.
Eu não sabia nem o nome dele.
A vergonha veio como uma onda quente subindo pelo meu rosto.
Na noite passada eu tinha me entregado completamente a um estranho. Um homem que eu nunca tinha visto antes. Um homem que eu provavelmente nunca mais veria depois de hoje.
E pior.
Ele tinha sido o primeiro.
Meu coração apertou.
— O que foi que eu fiz… — murmurei baixinho.
Eu precisava ir embora.
Com cuidado, levantei o lençol e deslizei para fora da cama, tentando não fazer barulho. Cada movimento parecia alto demais no silêncio do quarto.
Procurei minhas roupas espalhadas no chão rasgadas, caminhei na ponta dos pés até a porta do banheiro.
Assim que entrei, fechei a porta devagar.
Só então respirei aliviada.
— Ai, meu Deus…
Eu estava apertada desde que acordei. Sentei na privada rapidamente, aliviando a pressão na bexiga enquanto tentava organizar meus pensamentos.
Meu reflexo no espelho parecia diferente.
Meu cabelo estava bagunçado, minha maquiagem quase apagada… mas havia algo novo no meu olhar.
Algo que eu não sabia explicar.
De repente…
A porta do banheiro se abriu.
Soltei um pequeno grito de susto.
O homem estava parado na porta, olhando para mim com uma expressão alarmada.
— Você está aqui! — disse ele, claramente aliviado.
Pisquéi confusa.
— Claro que estou…
Ele passou a mão pelos cabelos loiros, respirando fundo.
— Pensei que tivesse fugido.
Só então percebi algo diferente na forma como ele falava.
Havia um sotaque.
Leve, mas perceptível.
Não era brasileiro.
As palavras tinham um ritmo diferente, uma pronúncia um pouco mais dura.
— Você… não é daqui, né? — perguntei, ainda sentada e completamente constrangida.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Não.
Então falou algo rápido em outra língua.
Eu não entendi absolutamente nada.
— O que você disse?
Ele riu baixo.
— Nada importante.
Então seus olhos deslizaram sobre mim de forma intensa. Meu rosto ficou quente imediatamente.
— Venha — disse ele, estendendo a mão. — Tome banho comigo.
Meu cérebro deveria ter dito não.
Deveria ter me lembrado de toda a loucura da noite anterior.
Mas meu coração… simplesmente ignorou qualquer lógica.
Talvez fosse o jeito como ele me olhava.
Talvez fosse o calor do corpo dele.
Talvez eu ainda estivesse meio bêbada.
Mas acabei aceitando.
O banheiro era enorme, quase do tamanho do meu quarto no apartamento. O chuveiro parecia mais uma pequena área de spa, com água caindo de várias direções.
A água quente caiu sobre nossos corpos.
O vapor logo tomou conta do ambiente.
Ele me puxou para perto, segurando minha cintura com firmeza, e seus lábios encontraram os meus novamente.
O beijo foi lento.
Profundo.
Diferente da urgência da noite passada.
Havia algo mais ali agora… curiosidade, talvez.
Suas mãos exploravam meu corpo com cuidado, como se quisesse memorizar cada detalhe. Eu sentia arrepios percorrerem minha pele a cada toque.
E mais uma vez me perdi naquele momento.
O mundo lá fora deixou de existir.
Quando finalmente saímos do banho, eu me sentia leve… mas também nervosa.
Voltamos para o quarto.
Foi então que vi.
Os lençóis brancos estavam manchados de vermelho.
Meu coração quase parou.
— Meu Deus…
A vergonha me atingiu como um soco no estômago.
— Eu… eu sinto muito — murmurei, mortificada.
Mas antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele ficou completamente sério.
Seus olhos desceram até minhas pernas.
O sangue ainda escorria um pouco pela minha pele.
O pânico tomou conta do rosto dele.
— Você está ferida!
— Não! Não é isso—
Mas ele já estava em movimento.
Em poucos segundos me colocou novamente na cama, pressionando um botão no telefone ao lado.
— Traga o médico agora — ordenou em tom firme.
— Não precisa! — protestei, desesperada. — Eu estou bem!
Mas ele parecia não ouvir.
Ficou ao meu lado, observando cada movimento meu com atenção, como se estivesse preocupado de verdade.
Depois de alguns minutos constrangedores, o médico chegou.
E confirmou exatamente o que eu estava tentando explicar.
— Ela está bem — disse o homem calmamente. — Algumas mulheres sangram um pouco mais. Não há motivo para preocupação.
Eu queria desaparecer naquele momento.
Assim que o médico saiu, o silêncio tomou conta do quarto.
Levantei devagar.
— Eu… acho que já vou embora.
Ele me observou por alguns segundos.
— Tem certeza?
Assenti.
Peguei uma camisa dele, me vesti rapidamente e tentei ignorar o constrangimento que ainda queimava meu rosto.
Quando terminei, ele já estava vestido também.
— Meu motorista vai levá-la.
— Obrigada…
Caminhamos juntos até a porta.
Antes de sair, olhei para ele uma última vez.
Ainda não sabia quem ele era.
Nem de onde vinha.
Mas aquela noite… definitivamente tinha mudado algo dentro de mim.
Ele fez um gesto para o motorista.
— Leve-a para casa com segurança.
Assenti, entrando no carro.
Enquanto o veículo começava a se afastar da mansão, encostei a cabeça no banco e fechei os olhos.
Eu não fazia ideia de quem aquele homem realmente era.
Mas uma coisa eu sabia.
Minha vida nunca mais seria a mesma depois daquela noite.