Capítulo 19
Ponto de Vista — Victor Tolyatti
Por um momento, tudo ao redor desapareceu.
A música da boate continuava pulsando, as luzes ainda piscavam, as pessoas continuavam bebendo e rindo… mas para mim nada disso existia.
Só ela.
Angélica.
Minha borboleta.
Ela ainda me encarava surpresa quando dei mais um passo em sua direção. O vestido preto que usava abraçava o corpo dela de uma forma que fazia algo primitivo dentro de mim se agitar. Era bonito, sim… mas também me irritava.
Porque aquele lugar não era para ela.
Não para uma garota como Angélica.
Sem pensar mais, estendi o braço e a puxei para perto de mim.
Ela soltou um pequeno suspiro de surpresa quando seu corpo colidiu com o meu peito.
— O que você está—
Nem deixei que terminasse a frase.
Passei um braço firme ao redor da cintura dela e a ergui facilmente do chão, colocando-a em meus braços como se não pesasse nada.
Ela soltou um pequeno protesto, surpresa com o movimento repentino.
— Ei!
Mas logo seus braços subiram instintivamente e envolveram meu pescoço para se equilibrar.
A proximidade fez meu coração bater mais forte.
O cheiro dela era o mesmo da noite em que a conheci.
Doce.
Quente.
Perigoso para mim.
Atrás de nós, o garoto que eu tinha derrubado ainda reclamava no chão, enquanto seus amigos tentavam ajudá-lo a se levantar.
Nem olhei para eles.
Levantei apenas a mão e fiz um gesto simples para Vladimir.
Ele entendeu imediatamente.
— Eu resolvo — disse ele calmamente.
Sabia que resolveria.
Vladimir sempre resolvia.
Então simplesmente virei as costas para a confusão e comecei a caminhar em direção à saída da boate com Angélica nos braços.
Ela parecia constrangida.
Podia sentir isso na forma como se encolhia levemente contra mim.
— Moço … você pode me colocar no chão — murmurou ela, a voz baixa perto do meu ouvido.
— Victor, me chamo Victor.
Depois Ignorei completamente.
As pessoas se viravam para olhar enquanto eu atravessava o salão da boate carregando-a. Alguns curiosos, outros apenas surpresos.
Mas eu não me importava.
Nunca me importei com olhares.
Empurrei a porta pesada da saída e finalmente deixei o barulho ensurdecedor da música para trás.
O ar da noite estava mais fresco.
Mais silencioso.
Meu carro já estava esperando na frente da boate, estacionado na calçada.
O motorista, um homem alto e sempre atento, percebeu minha aproximação imediatamente e saiu do carro para abrir a porta traseira.
Coloquei Angélica no banco de trás com cuidado.
Só então entrei ao lado dela.
A porta se fechou com um som abafado, isolando-nos do mundo lá fora.
O motorista assumiu seu lugar e aguardou silenciosamente.
— Para casa, falei.
Angélica virou o corpo para mim, claramente confusa.
— Victor… o que você está fazendo?
— Indo embora — respondi calmamente.
— Mas eu preciso voltar.
Levantei uma sobrancelha.
— Voltar para onde?
— Para a boate. Eu estou trabalhando.
Antes que ela pudesse continuar, levei a mão até seus lábios, tocando-os suavemente para silenciá-la.
— Não.
Ela piscou surpresa.
— Como assim não?
Inclinei-me um pouco mais perto dela.
— Você não vai voltar para aquele lugar.
Ela franziu a testa.
— Victor, eu preciso. Eu preciso do trabalho.
Balancei a cabeça lentamente.
— Não.
— Você não entende—
— Eu entendo muito bem — interrompi.
Minha voz saiu mais firme agora.
— Aquele lugar não é para você.
Ela abriu a boca para argumentar novamente, mas continuei falando.
— Viu o que aquele garoto fez com você?
Ela desviou o olhar por um segundo.
— Aquilo foi diferente.
— Não foi — respondi imediatamente. — Existem muitos como ele. Talvez piores.
Meu olhar se tornou mais sério.
— Homens que pensam que podem fazer o que quiserem com garotas que trabalham em lugares assim.
Ela parecia um pouco abalada agora.
Talvez porque sabia que eu não estava completamente errado.
— Não é um lugar seguro para você, borboleta.
Quando disse o apelido novamente, ela levantou os olhos e me encarou.
Aqueles olhos cor de mel tinham algo que me desarmava.
Inocência.
Força.
E algo mais… algo que eu ainda não sabia explicar.
— Por que você se importa? — ela perguntou baixinho.
A pergunta pairou no ar por alguns segundos.
Eu poderia ter mentido.
Poderia ter dado qualquer resposta conveniente.
Mas, em vez disso, apenas a observei.
— Porque eu quero.
Ela pareceu surpresa com a simplicidade da resposta.
— Isso não faz sentido.
Talvez não fizesse.
Nem para mim.
Mas eu sabia de uma coisa.
Desde o momento em que ela entrou no meu carro naquela noite… algo tinha mudado.
Ela desviou o olhar por um instante, claramente nervosa.
E foi nesse momento que percebi algo.
Eu estava com saudade.
Saudade de beijá-la.
Desde o dia em que ela saiu da minha casa, aquela vontade estava ali.
Guardada.
Esperando.
Sem pensar mais, levei a mão até o rosto dela.
Meus dedos tocaram sua bochecha suavemente, fazendo-a olhar novamente para mim.
Ela parecia um pouco assustada.
Mas não se afastou.
Inclinei-me lentamente.
— Victor…
Mas suas palavras desapareceram quando meus lábios encontraram os dela.
O beijo começou suave.
Mas a necessidade que eu tinha guardado por dias rapidamente tomou conta.
Aproximei mais meu corpo do dela, puxando-a pela cintura.
Seus lábios eram quentes.
Doces.
Exatamente como eu lembrava.
Ela soltou um pequeno suspiro contra minha boca antes de responder ao beijo.
E naquele momento, todo o resto desapareceu novamente.
A cidade.
A boate.
Os problemas.
Só existia aquele beijo.
Quando finalmente me afastei alguns centímetros, ainda podia sentir a respiração dela misturada à minha.
Seus olhos estavam um pouco perdidos.
— Você sente isso também… — murmurei.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
Porque eu sabia que ela sentia.
Do mesmo jeito que eu sentia.
E pela primeira vez em muitos anos…
Algo dentro de mim parecia vivo novamente.