Uma casa vazia

879 Words
Capítulo 2 Três dias antes de encontra Angélica. ​Victor Tolyatti ​Victor Tolyatti. O nome carrega o peso de um império criminoso que se estende por vários países. Aos 35 anos, este russo de dois metros de altura, cabelos loiros e olhos azuis, é uma força da natureza, fria e brutal. ​Sou viúvo. Aquela desgraçada que jurei amar se matou, levando consigo meu filho ainda na barriga, dois meses após o casamento. Valeska. Já se passaram dez anos, e meu coração ainda pulsa com uma dor lancinante. Cada lembrança dela me inunda de saudade e, logo em seguida, de raiva — raiva por ter sido fraco, por ter me deixado manipular por uma mulher. E essa raiva eu sempre desconto em alguém. ​“Senhor Victor Tolyatti.” ​Sou tirado de meus pensamentos pela voz de Vladimir, um dos meus soldados mais leais. ​“Qual é o problema, Vladimir?”, pergunto, ainda observando a neve que cai pela janela do meu escritório, mirando os campos vastos e as montanhas distantes da minha propriedade em Moscou. ​“Aconteceu um imprevisto no Brasil. Uma das famílias com quem fazemos negócio está desviando uma quantia significativa da sua conta,” ele relata. ​No mesmo instante, fecho o punho e acerto um soco na parede. ​“Quem é o desgraçado? Vou pessoalmente arrancar as entranhas dele!”, berro, sentindo o sangue ferver. ​“Não sabemos exatamente quem é, mas capturamos um homem. Ele está no galpão, pronto para ser interrogado,” meu braço direito fala. ​Um sorriso c***l rasga meus lábios. Sei que vou me divertir com esse desgraçado, extraindo, lentamente, cada informação que eu quiser. ​O Fantasma de Valeska ​Fui forjado e treinado para ser mortal e c***l. Mas aos vinte e cinco anos, meu pai selou uma aliança com uma família rival e me entregou a filha deles como noiva. No início, recusei a ideia de um casamento arranjado, mas quando meus olhos encontraram aquela garota, meu coração bateu de um jeito novo. Valeska. Tinha os cabelos loiros, lisos e longos, olhos verdes como esmeraldas e a pele branca como a neve. Um sorriso doce e uma postura sempre submissa e educada. ​A cerimônia foi uma grande festa, unindo nossas casas. Como o patriarca dela não tinha herdeiro homem, herdei todo o seu patrimônio. Mas o que eu mais queria era me perder nos braços de Valeska. ​Na nossa primeira noite, fui delicado e gentil, como eu pensava que um homem deveria ser. Pobre t**o i****a. Não houve sangue. Foi quando ela confessou: já havia se entregado a outro homem. Ela amava outro e jamais sentiria algo por mim. Fiquei furioso, mas o amor que nascia era mais forte. Aceitei qualquer migalha. ​Os dias se arrastaram enquanto eu tentava mimá-la com roupas, joias, tudo o que ela pedisse. Todas as noites eu a possuía, mas ela estava sempre fria e distante, como se eu estivesse dormindo com uma boneca. Nenhum som saía de sua boca; ela permanecia imóvel na cama. ​A frustração me consumia. Certa noite, depois do ato, eu a confrontei. ​“Valeska, por que você é tão fria comigo?”, perguntei, tentando manter a calma. ​A resposta dela partiu meu coração. ​“Eu já te disse, Victor. Eu não te amo. A única coisa que sinto quando você me toca é nojo. Desista desse casamento e ache alguém que te queira,” ela falou, e aquelas palavras me cortaram como lâminas. ​“Você é minha, Valeska, e só sairá do meu lado quando morrer. Entenda uma coisa: você se casou com o futuro chefe da máfia russa. Vai viver comigo até seus últimos dias de vida,” respondi, levantando-me da cama e deixando o quarto, dominado pela raiva. ​Nas noites seguintes, dormi com ela e possuí seu corpo, mesmo que ela demonstrasse apenas frieza. Eu a amava e não a deixaria ir de forma alguma. ​Dois meses depois do casamento, veio a notícia: ela estava grávida. Meu pai, que ainda era vivo, ficou radiante. Eu também fiquei feliz. Eu seria pai, mesmo sabendo que Valeska não me amava. ​O inverno de Moscou era rigoroso; a neve caía sem parar. Eu voltava de uma reunião de negócios com meu pai, Vladimir e alguns homens. Os carros estavam acostumados à neve. Ao chegar na mansão, meu pai e Vladimir foram tomar uma dose de vodka, e eu subi para ver minha esposa. ​Entrei no quarto. Estava silencioso. Eu a vi imóvel na cama, o rosto pálido, os lábios escuros. Minhas mãos tremeram. Na escrivaninha, havia um bilhete: ​Adeus Victor. Finalmente estou livre de você. ​Assim que li o bilhete, caí de joelhos no chão, gritando. Meu pai e Vladimir entraram no quarto, chocados com a cena. ​Toda vez que a neve começa a cair, lembro-me daquele dia maldito. O dia em que perdi meu coração. O dia em que me tornei esta casca vazia. Tento preencher o vazio com morte e crueldade, mas ainda não me sinto completo. A lembrança de Valeska ainda dói, penso, enquanto caminho lentamente pela neve em direção ao galpão para me encontrar com minha próxima vítima. ​
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