visita a prisão

975 Words
Capítulo 14 Ponto de Vista — Angélica Os dias voltaram ao normal… ou pelo menos foi isso que eu tentei fazer parecer. Segunda, terça e quarta passaram quase iguais. Acordar cedo, pegar o ônibus com Diana, trabalhar no restaurante, voltar para casa cansada e tentar estudar um pouco antes de dormir. Era a rotina que eu conhecia. A rotina que eu precisava. Porque quanto mais ocupada eu ficava, menos minha cabeça voltava para aquela noite. Ou pelo menos… era o que eu tentava fazer. Na segunda-feira, quando entrei no restaurante vestindo meu uniforme de garçonete, senti um pequeno alívio. O cheiro de comida, o barulho das panelas na cozinha e as conversas dos clientes criavam um ambiente familiar. Era um lugar simples. Mas era honesto. E era ali que eu lutava todos os dias para pagar meus estudos. — Bom dia, Angélica! — gritou Carlos, um dos cozinheiros, do outro lado do balcão. — Bom dia! Peguei uma bandeja e comecei a organizar as mesas. Coloquei os talheres, alinhei os guardanapos e verifiquei os cardápios. Enquanto trabalhava, Diana observava tudo da recepção. — Você está estranhamente quieta — ela comentou quando passei perto. — Estou só cansada. Ela estreitou os olhos. — Hum. — Para de me analisar. Ela riu. — Não prometo nada. Balancei a cabeça e continuei trabalhando. A manhã passou rápido. Logo o restaurante começou a encher de clientes. Homens de negócios, famílias, estudantes… todos entrando e saindo, pedindo pratos, reclamando do tempo de espera, pedindo mais bebida. Era correria. Mas eu gostava disso. Porque me mantinha ocupada. E ocupada significava… sem pensar. Mesmo assim, em alguns momentos, minha mente escapava. Especialmente quando eu via algum homem alto passando pelo salão. Ou quando escutava algum sotaque estrangeiro entre os clientes. Meu coração sempre dava um pequeno salto… antes de perceber que não era ele. E então eu me sentia um pouco i****a por isso. Na terça-feira à noite, quando cheguei em casa depois do trabalho, abri meus livros de direito e tentei estudar. Eu queria ser advogada. Não era um sonho qualquer. Era um objetivo. Um objetivo que tinha um nome. Ângelo. Meu irmão. Na quarta-feira, antes de dormir, peguei o celular e olhei a data. Quinta-feira. Meu coração apertou. Era o dia da visita. Toda quinta-feira eu ia ver meu irmão na prisão. Levantei cedo naquela manhã. Mais cedo do que o normal. Diana ainda estava dormindo quando comecei a preparar algumas coisas na cozinha. Separei algumas roupas limpas que ele tinha pedido na última visita. Uma camiseta. Uma calça. Meias. Também preparei alguns alimentos que eram permitidos levar, seguindo todas as regras da prisão. Tudo precisava estar embalado corretamente. Coloquei tudo em uma sacola e sentei por alguns segundos à mesa. Meu coração estava acelerado. Eu sempre ficava ansiosa antes de vê-lo. Sentia saudade. Mas também sentia raiva. Porque, mesmo depois de todo esse tempo… eu ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido naquela noite. A noite em que meu irmão foi preso acusado de assassinato, depois de um mês nossos pais morreram num acidente suspeito. Não podia pensar nisso agora. Levantei e fui me arrumar para o trabalho. A manhã no restaurante passou como qualquer outra. Clientes entrando e saindo. Pedidos. Bandejas. Pratos. Mas minha cabeça estava longe. — Você está nervosa — Diana comentou quando percebeu que eu derramei um pouco de suco na mesa de um cliente. — Hoje é dia de visitar o Ângelo. Ela assentiu, compreensiva. — Quer que eu vá com você depois? — Não precisa. Eu sei que você trabalha hoje à noite. — Mesmo assim… — Eu vou ficar bem. Ela segurou minha mão por um segundo. — Qualquer coisa me liga. Sorri. — Obrigada. Quando meu turno terminou, fui direto para casa. Tomei um banho rápido e troquei de roupa. Escolhi algo simples: jeans, camiseta e tênis. Nada que chamasse atenção. Peguei a sacola com as coisas do meu irmão e saí. O caminho até a penitenciária era sempre pesado. O prédio enorme de concreto cinza parecia ainda mais frio sob o sol da tarde. Assim que me aproximei da entrada, senti aquele aperto no peito que sempre vinha. Era estranho pensar que meu irmão estava ali dentro. Atrás daquelas paredes. Atrás de grades. Respirei fundo e entrei na fila das visitas. Havia várias pessoas esperando. Mães. Esposas. Irmãs. Algumas seguravam sacolas como a minha. Outras seguravam crianças pequenas. O ambiente era silencioso e tenso. Quando chegou minha vez, entreguei meus documentos. — Nome? — perguntou o agente. — Angélica Souza. Ele verificou em uma lista. — Quem você veio visitar? — Ângelo Santoro. Ele fez algumas anotações e apontou para outra fila. — Revista primeiro. Engoli em seco. Essa era a pior parte. Sempre era. Fui levada para uma sala separada onde uma agente penitenciária fazia a inspeção. — Levanta os braços. Obedeci. Ela verificou minhas roupas, minha bolsa, tudo. Depois pediu para eu passar pelo detector. Era constrangedor. Humilhante até. Mas eu sabia que fazia parte do processo. Quando finalmente terminaram, me entregaram novamente minhas coisas. — Pode seguir. Caminhei pelo corredor longo, com o coração batendo mais rápido a cada passo. Logo cheguei na área de visitas. Várias mesas estavam espalhadas pelo salão. Alguns presos já estavam sentados conversando com seus familiares. Olhei ao redor procurando um rosto específico. E então… Eu o vi. Ângelo. Meu irmão estava sentado em uma das mesas, usando o uniforme da prisão. Seu cabelo estava mais curto do que da última vez. E seu rosto parecia um pouco mais cansado. Mas quando ele me viu… Seu rosto se iluminou. — Angel! — ele levantou rapidamente. Um sorriso apareceu no meu rosto sem que eu percebesse. — Ângelo! Caminhei até ele, sentindo um nó apertar na garganta. Porque, apesar de tudo… Ele ainda era meu irmão. E eu sentia muita falta dele.
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