Capítulo 97 Ponto de Vista — Denis Eu permanecia imóvel nas sombras da sala de jantar, observando a silhueta fragilizada de Angélica contra a luz opaca da lareira. O som do choro dela — aquele soluço interrompido, seco, que parecia arranhar a garganta — era música para os meus ouvidos. Para o mundo, ela era apenas uma jovem brasileira perdida em um país estrangeiro. Para mim, ela era o símbolo vivo da audácia de Victor Tolyatti. Cada lágrima que caía sobre a mesa de mogno era uma pequena oferenda, um sacrifício tardio à memória de Valeska, minha prima amada, cujo sangue ainda manchava, metaforicamente, as mãos daquela família maldita. Olhar para Angélica era como receber um soco no estômago. Não pela beleza dela, que era inegável, mas pelo que aquela beleza representava: o esquecimento.

