Capítulo 17
Ponto de Vista — Angélica
Assim que a porta pesada de metal se abriu, fui engolida por um mundo completamente diferente do que eu conhecia.
O som da música eletrônica era tão forte que parecia vibrar dentro do meu peito. As luzes piscavam em tons de roxo, azul e vermelho, refletindo nos espelhos e nas paredes negras da boate.
O lugar era enorme.
Luxuoso.
Cheio de gente bonita.
Homens com ternos caros, mulheres usando vestidos que pareciam ter saído direto de capas de revista. Perfumes caros misturados com o cheiro forte de bebida e cigarro eletrônico.
Meu coração acelerou.
— Respira — Diana disse perto do meu ouvido, quase gritando para vencer o som da música.
Assenti.
Ela segurou minha mão e me guiou por um corredor iluminado por luzes suaves até chegarmos a uma área atrás do bar.
Ali o barulho diminuía um pouco.
— Aqui é a área dos funcionários — explicou. — Você vai me ajudar no VIP hoje.
— VIP? — perguntei nervosa.
— Sim. Onde estão os clientes que realmente gastam dinheiro.
Engoli em seco.
Olhei para o vestido preto que estava usando. Ele realmente marcava cada curva do meu corpo. Eu me sentia exposta, como se todos estivessem me olhando.
Diana percebeu.
— Relaxa. Aqui todo mundo está ocupado demais querendo parecer importante.
Ela pegou duas bandejas.
— Só sorria, leve as bebidas e não discuta com ninguém. Se algum cliente for i****a, me chama.
— Certo.
Respirei fundo.
Era só trabalho.
Eu precisava do dinheiro.
Especialmente agora… depois da conversa com o advogado do meu irmão.
Saímos do corredor e entramos na área VIP.
O ambiente ali era ainda mais luxuoso. Sofás de couro branco, mesas de vidro iluminadas por baixo e garrafas caríssimas espalhadas por todos os lados.
Peguei uma bandeja com taças de champagne e comecei a caminhar entre as mesas.
No começo eu estava muito nervosa.
Mas depois de alguns minutos percebi que ninguém realmente prestava atenção em mim.
Eles estavam ocupados demais bebendo, rindo alto, tirando fotos e se exibindo.
Foi então que eu ouvi uma voz que fez meu estômago virar gelo.
— Olha só quem está aqui…
Congelei.
Eu conhecia aquela voz.
Muito bem.
Virei lentamente.
Rafael.
Ele estava sentado em um dos sofás da área VIP com o mesmo grupinho da faculdade.
Os mesmos que tinham me humilhado na festa.
Michelle estava ao lado dele, segurando uma taça de bebida.
Quando me viu, ela abriu um sorriso m*****o.
— Nossa… — disse ela, me analisando de cima a baixo — então é isso que você faz agora?
Meu coração começou a bater forte.
— Eu estou trabalhando — respondi tentando manter a calma.
Rafael se levantou.
Ele parecia um pouco bêbado.
Caminhou lentamente até mim, com aquele sorriso arrogante que eu odiava.
— Trabalhando? — ele repetiu. — Interessante.
Seus olhos deslizaram pelo meu corpo de uma forma que me deu vontade de desaparecer.
— Sempre soube que esse vestido ia ficar bem em você.
Senti minhas mãos apertarem a bandeja.
— Me deixa passar.
Mas ele não saiu da frente.
Pelo contrário.
Deu mais um passo na minha direção.
— Relaxa, Angélica… — ele murmurou. — A gente só quer conversar.
— Eu não quero conversar.
Michelle riu atrás dele.
— Ela ainda acha que é melhor que a gente.
Rafael levantou a mão e segurou meu braço.
O toque foi firme.
A mesma sensação de medo daquela noite na festa voltou imediatamente.
— Me solta — falei, sentindo minha voz tremer.
Ele se aproximou ainda mais.
— Você fugiu da gente aquela noite.
— Eu disse para me soltar.
— Hoje você não vai fugir.
Meu coração disparou.
Eu olhei ao redor procurando Diana, mas ela estava ocupada no bar, longe dali.
— Você acha mesmo que pode vir trabalhar num lugar desses e fingir que é diferente da gente? — ele continuou.
— Eu não estou fingindo nada.
Ele riu.
— Olha para você…
Seus amigos estavam olhando e rindo.
— Garçonete de luxo agora?
Foi então que uma voz grave surgiu atrás dele.
— Solta ela.
O tom foi calmo.
Mas havia algo nele que fez o ar ao redor ficar pesado.
Rafael virou irritado.
— E você é quem—
Ele parou de falar.
Eu também virei.
E senti meu coração quase parar.
O desconhecido.
Ele estava ali.
Vestindo um terno preto perfeitamente ajustado ao corpo forte. Os olhos azuis estavam frios, fixos em Rafael.
Ele parecia ainda mais imponente do que eu lembrava.
Mais perigoso.
Meu coração começou a bater descontrolado.
Rafael tentou recuperar a postura.
— Não se mete nisso.
O homem deu um passo à frente.
— Eu disse para soltar ela.
O tom continuava baixo.
Mas agora havia algo ameaçador nele.
Rafael apertou ainda mais meu braço.
— E se eu não soltar?
O que aconteceu depois foi tão rápido que quase não consegui acompanhar.
O desconhecido avançou.
Seu punho atingiu o rosto de Rafael com força.
O som do impacto foi seco.
Rafael caiu no chão imediatamente.
A música continuava alta, mas algumas pessoas próximas se viraram para olhar.
Michelle soltou um grito.
— Rafael!
Ele estava no chão, segurando o nariz que agora sangrava.
O homem nem parecia ter feito esforço.
Ele apenas olhou para ele com desprezo.
— Eu avisei.
O silêncio ao redor era estranho.
Então ele virou o olhar para mim.
E naquele momento… tudo pareceu desaparecer.
A música.
As pessoas.
A confusão.
Só existiam aqueles olhos azuis me encarando.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza que ele podia ouvir.
— Você está bem? — ele perguntou.
Minha voz demorou alguns segundos para sair.
— Você …
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
— Então você lembra de mim, borboleta.
Meu rosto ficou quente.
Atrás de nós, Rafael ainda reclamava no chão enquanto os amigos tentavam ajudá-lo a levantar.
Mas aquele homem não parecia se importar.
Ele continuava olhando apenas para mim.
Como se nada mais naquele lugar importasse.